Abastecimento de água

Mudança de ponto de captação de água em Porto Alegre não deve ocorrer antes de 2020

Projeto que migra processo do Guaíba para o Rio Jacuí foi elaborado há seis anos, mas foi adiado por falta de recursos

Por: Bruna Vargas
26/07/2016 - 03h03min | Atualizada em 26/07/2016 - 12h56min
Mudança de ponto de captação de água em Porto Alegre não deve ocorrer antes de 2020 Debora Klempous/Agencia RBS
Foto: Debora Klempous / Agencia RBS

É de um dos pontos mais poluídos do Guaíba que vem a água que abastece quase metade da população de Porto Alegre. Localizada na região portuária, a captação de água junto ao Cais Navegantes, há anos, não é das mais recomendáveis para o consumo, na visão de especialistas em saneamento e do poder público. Está em meio a indústrias que despejam o resultado de seus processos na rede pluvial, afetada por esgoto doméstico e próxima à foz do Rio Gravataí, um dos mais contaminados do país.

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Com consumidores de diversos bairros reclamando de alterações no cheiro e no sabor do líquido que sai das torneiras há cerca de dois meses, cuja origem ainda não foi identificada pelos órgãos públicos, voltou à pauta uma alternativa que, para alguns, soou novidade: a mudança do atual ponto de captação para o Rio Jacuí, o menos poluído das redondezas, algo projetado por engenheiros do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) há pelo menos seis anos.

— Fizemos estudos, à época, para identificar o melhor ponto, o mais seguro para a captação, que fica no Canal Três Rios. Mas o departamento não tinha recursos para executar a obra porque estava voltado para a implementação do Pisa (Programa Integrado Socioambiental) — explicou o engenheiro Valdir Flores, coordenador de projetos especiais do Dmae.

O projeto da prefeitura, em fase de licenciamento ambiental junto à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), consiste na escavação de um túnel a 40 metros de profundidade, com 1,8 mil metros de comprimento, que ligaria a Estação de Abastecimento de Água Bruta (Ebab) São João/Moinhos de Vento a um ponto entre o Saco do Ferraz e o Saco dos Assombrados, no Jacuí. Apesar de sua divulgação ter coincidido com o momento das reclamações sobre a qualidade da água na Capital, o Dmae afirma ter retomado o assunto antes do problema, meses atrás.

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A estrutura é relativamente simples, pois o túnel, que conectará dois poços, deve ser formado pela própria rocha escavada. Já a "salinidade" do custo da obra está mais para água do mar: o orçamento inicial, de R$ 85 milhões, foi corrigido para R$ 150 milhões. Os trabalhos devem ser custeados por recursos do departamento combinados com um financiamento ainda não obtido.

— No ano passado, pedimos aos engenheiros para atualizar o orçamento, e as correções foram feitas com base na inflação. É uma estimativa, ainda não é o valor definitivo. Vamos tentar financiar essa obra junto a outros dois projetos: a ampliação do sistema Menino Deus e a criação de novo sistema de abastecimento no Extremo Sul — disse o diretor-geral do Dmae, Antônio Elisandro de Oliveira.

Nova localização pode gerar economia de 40%

A alternativa projetada pelo Dmae, no entanto, não deve se concretizar em curto prazo. Com duração prevista para 30 meses, a obra dificilmente terá início antes de 2018 — quando, se tudo der certo, os estudos e possíveis ajustes terão sido concluídos, e o trabalho, licitado. Na melhor das hipóteses, o abastecimento de parte da Capital só será feito com água do Jacuí a partir do segundo semestre de 2020.

Se o investimento na nova captação, em tempo e dinheiro, parece alto, por outro lado, a mudança pode gerar economia na outra ponta do processo de abastecimento. O órgão estima que isso permitiria uma redução de até 40% do que é atualmente investido em produtos químicos para melhorar o tratamento da água nas Estações de Tratamento (ETA) São João e Moinhos de Vento, que atendem a 48% dos usuários do departamento. No ano passado, nas seis ETAs da Capital, esse valor passou dos R$ 20 milhões.

Até que isso seja possível, o Dmae terá de lidar com os problemas de usar uma fonte cronicamente influenciada pelo excesso de matéria orgânica: nos meses de verão, a proliferação de algas no Guaíba costuma alterar a qualidade da água. Embora ainda não saiba dizer o que afetou o cheiro e o sabor do líquido neste inverno, o titular do órgão disse que, a princípio, o tratamento convencional será mantido. Para tentar amenizar as alterações, nos últimos meses, tem sido usado carvão ativado e reforçado o dióxido de cloro. Capaz de eliminar uma gama maior de poluentes, um filtro de ozônio deve ser testado no pré-tratamento em uma das estações — o que só deve ocorrer em 2017.

Especialistas dizem que solução é paliativa

Buscar água para abastecimento em um local menos afetado pela poluição soa bem ao consumidor, mas está longe de ser uma solução para o problema do ponto de vista ambiental, segundo especialistas. Isso porque a mudança do ponto de captação é uma fuga: desvia do problema em vez de estimular que se trabalhe com o foco, que é a contaminação dos mananciais.

(Mudar o ponto e captação) é um paliativo. O ideal é evitar a poluição da fonte — avalia o especialista em tratamento de água e efluentes, Elvis Carissimi.

Para o professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), é preciso pensar em um projeto, mesmo de longo prazo, que envolva municípios vizinhos, para estimular o tratamento do esgoto despejado em rios que encontram o Guaíba, como o Gravataí e o Sinos. O acúmulo de matéria orgânica, combinado com efluentes industriais, é um dos principais problemas desse trecho do Guaíba. A visão é compartilhada pelo especialista em qualidade ambiental Carlos Augusto Nascimento, que, além disso, considera fundamental o envolvimento dos órgãos ambientais no controle do que chega ao manancial:

— Mudar o ponto de captação pode parecer uma boa ideia, porém, nada mais é do que a prova que fracassamos na gestão. Assim, investimos em uma obra que irá solucionar o problema até o dia em que o novo local fique impróprio, então, mudarmos novamente. A solução deve passar pela avaliação dos órgãos ambientais e posterior adequação na qualidade dos efluentes lançados no local.

Na semana passada, em carta enviada a órgãos públicos e jornalistas, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) criticou a troca do ponto de captação, que considera uma forma de "ser conivente com os poluidores", e sugeriu que os custos da obra fossem bancados "por quem polui, e não pelos contribuintes". Procurada pela reportagem, a secretária estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Ana Pellini, disse apenas, por meio de sua assessoria de imprensa, que considera a alternativa proposta pelo Dmae uma "providência muito positiva", que "certamente contribuirá para a melhoria da qualidade da água oferecida à população de Porto Alegre".


 
 
 
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