Problema no ar

Duas semanas após suspensão de atividades, odor perto da Cettraliq ainda é forte

Cheiro de mofo se mantém mesmo com a suspensão das atividades da empresa de tratamento de resíduos sediada na Zona Norte de Porto Alegre

Por: Humberto Trezzi e Bruna Vargas
24/08/2016 - 17h58min | Atualizada em 25/08/2016 - 16h09min
Duas semanas após suspensão de atividades, odor perto da Cettraliq ainda é forte Mateus Bruxel/Agencia RBS
Central de tratamento de resíduos líquidos da região teve atividades vetadas após emissão de odores acima do permitido Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

O cheiro é semelhante ao de um banheiro com umidade acumulada há muito tempo. Lembra mofo, mas poderia também ser odor de musgo, se fosse no meio do mato. É isso o que se sente quando se depara pela primeira vez com o odor que emana da Cettraliq, a empresa que trata efluentes líquidos de cerca de 1,5 mil clientes e despeja o resultado do processo na casa de bombas da Trensurb, a dois quilômetros do ponto de captação do Dmae.

A Cettraliq está proibida de receber, tratar e lançar resíduos químicos desde o dia 10. O veto veio da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), que encontrou "emissão continuada de odores em quantidade acima do permitido", constatada fora do limite da propriedade da empresa. A Cettraliq é suspeita de emitir os maus odores que marcam a água consumida pelos porto-alegrenses desde maio. Após a suspensão das atividades da companhia, o Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) efetuou a limpeza de redes e bocas de lobo nas imediações. Mesmo assim, algumas queixas quanto ao cheiro na região persistem.

Zero Hora visitou as proximidades da Cettraliq nesta quarta-feira, duas semanas após a interdição. O mau cheiro continua forte, especialmente próximo ao muro da empresa. Frequentadores do shopping DC Navegantes, situado junto à Cettraliq, são os mais queixosos. A reportagem ouviu sete pessoas, escolhidas aleatoriamente, e todas disseram sentir cheiros variados e desagradáveis, mesmo após a interdição da empresa. O odor varia de "mofo" a "ácido que arde no nariz", ainda que tenha diminuído depois da suspensão das atividades.

— Agora até que está leve, mas continua. Há 10 anos transporto material para lojas do shopping e o fedor é o mesmo, horrível, de produto químico — reclama o motorista Rudimar Guguelmin, de Caxias do Sul.

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Lélia Guieguer, que trabalha há 10 anos no DC Navegantes e há quatro numa distribuidora de móveis junto ao muro que separa o shoppíng da Cettraliq, diz que a situação piora muito em dias que está para chover.

— A gente até tem de trancar as portas. Melhorou um pouco desde a interdição, mas continua. Hoje mesmo tá ruim — relata.

Operador de pátio numa empresa próxima, Artur de Campos Telles define o cheiro de outra forma:

— Algo como sabão, um produto químico, que arde.

Adriana Rodrigues, coordenadora operacional do shopping DC Navegantes, foi uma das primeiras a depor na Justiça contra o mau cheiro proveniente da Cettraliq. Isso em 2008. Ela assegura que o cheiro persiste mesmo após a suspensão das atividades da empresa, embora com menos intensidade.

— Antes era mais ácido, incomodava o nariz e fazia os olhos lacrimejarem. Agora é mais úmido, lembra lenha molhada, mofo.

Queixas da água consumida diminuiram

O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) afirma que o cheiro e o gosto na água bebida em Porto Alegre não podem mais ser percebidos pela população. Os exames dos últimos 15 dias não detectaram as alterações, que estavam sendo sentidas desde maio na Capital. O Dmae, no entanto, diz que ainda investiga as causas do problema.

Pela primeira vez nos últimos meses, a central da Prefeitura, pelo telefone 156, passa mais de uma semana sem receber reclamações sobre a água. Ainda de acordo com o Dmae, há possibilidade de algumas pessoas ainda sentirem, pontualmente, o desconforto de cheiro e gosto na água, pois a cidade tem uma rede de mais de 4 mil quilômetros de tubulações e mais de cem reservatórios públicos.

Conforme a assessoria de imprensa da Cettraliq, a continuidade do cheiro mostra que a empresa não tem relação com o problema. O cheiro seria no bairro, não no local de tratamento de efluentes. A empresa admite que tem tanques cheios de efluentes tratados em suas instalações, mas assegura que o monitoramento que faz não tem demonstrado qualquer relação entre esses materiais e o odor das redondezas.- Se não estamos operando, não estamos fazendo nenhuma atividade e o cheiro persiste, então simplesmente o cheiro não é nosso - garante José Carlos Bignetti, engenheiro químico e consultor da Cettraliq.


 
 
 
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