Nada ecológico

Prédio que era utilizado pela Fepam vira depósito de lixo na Capital

Área ao lado do Jardim Botânico está tomada por objetos eletrônicos velhos, entulhos e há até reagentes químicos espalhados pelo chão

27/08/2016 - 03h08min | Atualizada em 27/08/2016 - 03h08min
Prédio que era utilizado pela Fepam vira depósito de lixo na Capital Mateus Bruxel/Agencia RBS
Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Cacos de vidro, pedaços de móveis, lâmpadas quebradas e restos de alimentos. Se o atual cenário para quem passa em frente ao recentemente desativado laboratório de pesquisas ambientais do Estado é preocupante, para quem entra no local a paisagem é ainda mais devastadora. 

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Localizada ao lado do Jardim Botânico, a Divisão de Biologia e Serviço de Amostragem (DLAB) da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam) foi fechada no final de fevereiro para cortes de custos e, sem nenhum tipo de proteção, manutenção ou segurança, transformou-se em um grande depósito de lixo eletrônico e químico a céu aberto.

Com uma área de 2,3 hectares e quatro grandes prédios, o local agora é ponto de saqueadores e abrigo para moradores de rua. Conforme a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), a decisão de desativar a Divisão, um dos principais centros de pesquisa da Fepam, deu-se pela necessidade de reduzir custos com a segurança do local, estimada em R$ 40 mil por mês.

– Tendo em vista a penúria financeira do Estado, decidiu-se reduzir o custo e transferir os laboratórios da divisão para outro prédio, onde já funcionava o de química. Decidimos unificar os dois para otimizar o trabalho e reduzir os custos _ explica Almir Azeredo, diretor administrativo da Fepam.

Sem uma estratégia definida, entretanto, o processo de transferência ocorreu de forma rápida e incompleta, acarretando em um constante desperdício de material e na perda de patrimônio estadual, cujos prejuízos ainda não foram calculados pelo governo. 

Ponto de consumo de drogas 

A reportagem de Zero Hora foi ao local na manhã de terça-feira. Dentro do prédio onde eram realizadas as pesquisas de balneabilidade, agora se concentram depósitos de água suja e parada. Em frente ao local onde ocorriam as pesquisas de agentes mutagênico ambientais, hoje escorrem pelo solo vidros de reagentes vencidos – muitos deles desembocando na área do Jardim Botânico. 

Este cenário se mescla com dezenas de portas arrombadas, telas de computadores e outros equipamentos tecnológicos espalhados pelo chão, junto a centenas de documentos, muitos queimados por um incêndio que atingiu um dos prédios no início do mês. A situação preocupa moradores e funcionários da região, que relatam a constante entrada e saída de pessoas que utilizam o local para consumir drogas ou que carregam o material abandonado.

– Tudo que tem ali está sendo levado – relata o professor Christiano Teixeira, 33 anos, que mora ao lado dos antigos laboratórios.

Funcionários da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (FZB/RS) também se dizem apreensivos com o cenário, principalmente pela proximidade com a área de conservação da biodiversidade. Segundo um segurança da Fundação, que não quis ser identificado, a situação se repete há mais de cinco meses:

– Está tudo sendo levado e depredado. Eles (saqueadores) passam todos os dias por aqui e não podemos fazer nada, pois não faz parte do nosso serviço. Já arrancaram até transformadores e levaram os fios.

Conforme o relato de outro funcionário do local, após os primeiros meses de saques, a Fepam entrou em contato com a Fundação Zoobotânica para doar parte do patrimônio ao Jardim Botânico, que conseguiu resgatar alguns objetos:

– Mas quando fizemos isso, a grande maioria do que havia lá dentro já tinha sido furtada ou depredada. Simplesmente abandonaram o prédio e o pessoal da rua assumiu o lugar – conta o servidor. 

O diretor administrativo Almir Azeredo explica que o órgão não disponibilizava de um espaço adequado para colocar todo o patrimônio dos prédios quando foram desativados: 

– Não conseguimos gerenciar o patrimônio de uma maneira rápida, existe uma burocracia que devemos seguir. Estávamos concentrando tudo ali, mas pela ação dos vândalos, o Estado acabou sofrendo também com a perda desses objetos. 

Azeredo explica que após os saques, foram colocados alarmes nos prédios, mas que os equipamentos foram roubados. Questionado sobre as dezenas de potes de reagentes espalhados pelo local, o diretor afirmou que não há como ter um controle do que ocorre quando as pessoas invadem o espaço, mas que a Fepam pretende contratar uma empresa para realizar o descarte adequado:

– Alguns reagentes conseguimos doar para a UFRGS, mas o resto acabou ficando ali. Eles não podem ser destinados em qualquer lugar, muito menos no solo, como está ocorrendo. Estamos contratando um serviço para resolver isso, mas ainda não temos previsão de quando irá ocorrer. 

Uma decisão estratégica, segundo o governo

Secretária do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Ana Pellini se diz ciente da condição do prédio, mas justifica que foi uma decisão estratégica desativá-lo, feita de forma organizada e com o aval dos próprios funcionários.

– Um estudo dos custos nos levou a tomar essa decisão. Além disso, os servidores acharam melhor trabalhar todos juntos e gostaram da mudança porque saíram daqueles prédios que já estavam bastante degradados – diz.

Carlos Alberto Nunes dos Santos, presidente da Associação dos Servidores da Fepam (ASFEPAM), afirma que a situação não agradou tanto assim aos trabalhadores. Segundo ele, a desativação do prédio e o comunicado sobre a mudança foram feitos de maneira muito apressada e até traumática para quem trabalhava há anos na Divisão:

– Claro que ficamos chateados. É triste ver como está o local, pois trabalhamos por muito tempo lá. Mas isso é uma decisão da gestão, e de temos de acatar. Conforme a secretária, o plano é devolver o prédio à Secretaria de Administração do Estado mas, ainda não há um prazo para isso.

– Vamos limpar e entregar ao governo. Ele, então, decide o que fazer. Não temos um prazo, pois temos de organizar uma licitação para contratar a empresa que faça a limpeza _ afirma Pellini.

A secretaria da Administração informou, por meio da assessoria de imprensa, que não recebeu nenhum comunicado sobre a desativação do prédio, nem sobre a devolução do mesmo ao órgão. Enquanto os trâmites burocráticos não saem do papel, Azeredo explica que, como medida emergencial, estão providenciando, junto à Fundação Zoobotânica, um posto de segurança. O custo do serviço e o prazo ainda não foram estimados.


 
 
 
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