Artigo

Alfredo Fedrizzi: Porto Alegre no divã

Jornalista e publicitário

Por: Alfredo Fedrizzi
03/09/2016 - 05h06min | Atualizada em 03/09/2016 - 05h06min

No artigo anterior, mostrei o que pensam alguns ex-moradores de Porto Alegre, a partir das perguntas: por que foram embora e o que a cidade precisaria para reter seus talentos. Imaginei que viriam coisas boas e ruins. Vieram só críticas. Jamais pensei a repercussão que teve. Centenas de likes no Face, dezenas de compartilhamentos, matéria de página dupla na edição impressa da ZH, segunda matéria mais lida na ZH digital, assunto no Pretinho Básico, além dos muitos e-mails que recebi.

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Um deles dizia que meu mérito foi colocar POA no divã!
Então, resolvi continuar "analisando" a cidade.
Recebi mensagens de todo tipo.
"O sentimento de que 'o que é feito fora tem mais valor' existe em todo lugar".
"É injusto comparar POA a megalópolis como Nova Iorque".
"Esse pessoal está sendo muito legal com POA. Imagine se a gente soltasse o verbo de verdade!".
"É um artigo carregado de verdade e desafios para todos os que ficamos aqui".
"Existe preconceito contra tudo: quando uso uma roupa diferente, recebo gozações".
Uma psicanalista disse que Porto Alegre é uma cidade hostil.
Outros sentiram preconceitos por serem de fora e virem morar aqui.
Recebi muitas reclamações sobre a dificuldade de fazer as coisas acontecerem na cidade. Na verdade, tudo o que se disse de POA serve para o RS!

Criar boas condições de vida e trabalho é perfeitamente possível em qualquer tamanho de cidade. Mais fácil em cidades menores. Aliás, a Europa é cheia desses exemplos, como Estocolmo, que é menor que POA. Existem muitas cidades médias pelo mundo onde se pode estar conectado com o planeta, caminhar na rua com segurança, ir a restaurantes e bares interessantes, frequentar praças bonitas, aproveitar o rio, andar por calçadas sem buracos, ter todo tipo de empresas, porque é fácil abrir, fechar, contratar, fazer negócios, enfim, não precisa ser gigante para ter boa estrutura, ainda mais em tempos de startups e de "desfrutar mais e ter menos".

Acho reducionista pensar que "somos assim porque somos menores". Também não concordo com o argumento de que "é normal achar que o que é de fora vale mais". É legítimo querer fazer daqui o melhor lugar do mundo para se viver e trabalhar, ter boas ideias e colocá-las de pé, apostando em projetos nossos.

Não precisamos ser São Paulo ou Tóquio. Podemos ser nós mesmos. Em uma cidade decente, que nos dê prazer!

Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai e grande estudioso de história, diz que "os avanços culturais mais importantes da humanidade aconteceram em pequenas comunidades".

Alguns acharam que eu morava fora por ter dado espaço a críticas. Outro traço nosso: se critica é porque já foi. Opinei ao escolher o assunto e os depoimentos, mas as falas foram de quem já deixou POA. Moro aqui desde os seis meses de idade. Estudei fora e tive oportunidades de me mudar para São Paulo e Rio de Janeiro, mas não quis. Gosto de POA, apesar dos pesares. Mas, confesso, a perspectiva de um dia morar definitivamente fora cresce ao ver a insegurança chegando cada vez mais perto e a dificuldade de fazer projetos decolarem.

Está na hora de abrir mais a mente e conviver com o diferente! Não vivemos mais isolados numa estância, sempre prontos para combater quem vem de fora... Hoje, o "de fora" nos traz visões diversificadas do mundo, essenciais para os tempos de compartilhamento e conexões que vivemos. E os "de dentro" podem pensar, vestir, gostar, enfim, ser diferentes de nós, sem estarem errados!

Termino com Pepe Mujica: "as grandes mudanças surgem nos pequenos povoados e, para isso, é preciso experimentar. Se não experimentamos, não faremos nada"!

 
 
 
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