Transporte

Ao reduzir tarifa mínima em Porto Alegre, Uber concorre também com lotações e ônibus 

Queda em preço-base de corrida pelo aplicativo faz com que concorrência do serviço de caronas pagas alcance agora também o transporte público da Capital. EPTC reclama de "dumping"

Por: Jéssica Rebeca Weber
07/09/2016 - 03h00min | Atualizada em 07/09/2016 - 12h00min
Ao reduzir tarifa mínima em Porto Alegre, Uber concorre também com lotações e ônibus  Omar Freitas/Agencia RBS
Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

A competitividade do Uber na Capital ampliou horizontes. Depois de reduzir o preço na versão mais acessível do app, a concorrência junto ao sistema de táxi de Porto Alegre chega agora também ao transporte coletivo. 

Desde a madrugada de terça-feira, as viagens de UberX ficaram até 20% mais baratas: a tarifa base para os usuários do aplicativo caiu de R$ 3 para R$ 2,30, enquanto o valor por quilômetro foi de R$ 1,45 a R$ 1,20, e o acréscimo por minuto, de R$ 0,25 para R$ 0,20. Mas o que pesa mesmo em comparação ao transporte coletivo foi a queda na tarifa mínima, que baixou de R$ 8 para R$ 5, valor inferior à passagem do lotação, que hoje custa R$ 5,60.

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Com condições de trânsito favoráveis, é possível fazer trajetos de aproximadamente 1,5 quilômetro pagando a tarifa mínima (veja abaixo), preço que pode fazer quem precisa se deslocar em trajetos curtos pensar duas vezes antes de esticar o dedo na parada.

Rogério Lago, gerente-executivo da Associação dos Transportadores de Passageiros por Lotação (ATL), afirma que, no seu setor, não é possível reduzir a tarifa para tornar o serviço mais competitivo por causa de uma série de tributações e obrigações com as quais têm de lidar e que não são seguidas pelo Uber, serviço não legalizado em Porto Alegre.

Com a mesma reclamação, Gustavo Simionovschi, diretor-executivo da Associação dos Transportadores de Passageiros de Porto Alegre (ATP), destaca que o número de usuários pagantes dos ônibus está 7,35% abaixo do esperado neste ano, queda que, aliada a outros fatores, pode estar relacionada à operação do aplicativo.

— O Uber concorre diretamente com o serviço de táxi, mas influencia o lotação em um primeiro momento e, depois, o ônibus. Se amanhã ou depois não tiver mais transporte coletivo, vai ter um monte de carro trancado no congestionamento — ressalta.

Para o diretor-presidente da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), Vanderlei Cappellari, a redução do preço básico aponta para concorrência desleal:

— Isso demonstra claramente o que está sendo denunciado, que eles praticam dumping. É uma prática antirrelações econômicas, buscando a falência do concorrente para ficar sozinho no mercado.

A tática pode, sim, configurar dumping, diz o professor de economia da PUCRS Alfredo Meneghetti, que explica tratar-se de "ação de vender um serviço a um preço inferior ao do mercado".

Cappellari destaca que o departamento não pode aplicar sanções com relação a práticas econômicas, mas que segue realizando o recolhimento dos veículos flagrados realizando transporte irregular na cidade — 122 carros do Uber foram recolhidos desde o início das operações do aplicativo, em novembro de 2015. Diz ainda que a prefeitura está elaborando medidas para priorizar o transporte público na cidade.

Questionada se há a intenção de passar a competir, ao menos em pequenas distâncias, com veículos de transporte coletivo, o Uber afirmou que o aplicativo oferece "uma opção de mobilidade confiável e acessível, complementando a malha de transportes das cidades".

A assessoria de imprensa do aplicativo diz que "existe um equilíbrio ideal de preço dos serviços, e que, com viagens mais baratas, o número de usuários que escolhem deixar seus carros em casa e passam a usar Uber em complemento a outras formas de transporte aumenta". Ao provocar um crescimento no número de usuários, de acordo com a empresa, a redução de preços eleva os rendimentos dos nossos parceiros, que passam a realizar mais viagens médias por hora.

A empresa diz ainda que motoristas parceiros do Uber prestam o serviço de transporte individual privado, que tem respaldo na Constituição Federal e é previsto na legislação federal.

Na tarde de terça-feira, motoristas do Uber realizaram protesto em frente ao escritório da empresa na Capital, na Alameda Eduardo Guimarães, no bairro Três Figueiras.

Palgino Reinaldo Ramos, diretor da Associação dos Motoristas Privados e de Tecnologias (Ampritec), diz que a redução da tarifa ficou na conta do motorista, fazendo com que "não compense a saída". Ele afirma que parte dos motoristas resolveu deixar de fazer viagens terça-feira, e que continuarão mobilizados até a empresa apresentar uma solução.

A redução da tarifa seria uma resposta do Uber ao lançamento do aplicativo do Sintáxi, segundo avaliação do presidente do sindicato, Luiz Nozari. Lançado na tarde de segunda-feira, o app permite solicitar corridas e avaliar o serviço dos taxistas da Capital, além de efetuar pagamento no cartão de crédito e escolher se quer viajar com motorista homem ou mulher. 


 
 
 
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