Na Bambas da Orgia

Japonês vem fazer intercâmbio em Porto Alegre e vira "acadêmico" em bateria de escola de samba

Estudante de Relações Internacionais, Yusei Tamaoki adiou o retorno a Tóquio para participar do desfile no Porto Seco

Por: Lara Ely - especial
24/02/2017 - 16h16min | Atualizada em 24/02/2017 - 20h22min

Precisou de uma bolsa de estudos, conhecimentos em cuíca, chocalho, pandeiro e um pouco de português para o japonês Yusei Tamaoki pegar um avião em Tóquio e aterrissar na bateria da escola de samba Bambas da Orgia, de Porto Alegre. O intercâmbio em Relações Internacionais na UFRGS foi a oportunidade para o oriental de 22 anos fazer conexão direta com as raízes da cultura que conheceu ainda no Japão.

Obstinado, não poupou esforços para ser aceito em uma das mais concorridas baterias do Carnaval gaúcho: a Trovão Azul. Na Capital há um ano, Tamaoki se inseriu em todos os grupos possíveis para se aproximar do alvo. Frequentou batucadas coletivas e rodas de pagode a fim pegar traquejo. Na universidade, preferiu aulas de música e português às formais disciplinas. A previsão era retornar para casa no final do mês, mas o atraso dos desfiles o fez renovar o visto para não virar um folião ilegal.

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Tamaoki ganhou o apelido de Jackie Chan Foto: Camila Domingues / Especial

Foi uma amiga da agremiação do bairro Floresta quem lhe apresentou Milton Luis Rosa, o Mestre Biskuim.

— Ele apareceu em um ensaio, foi bem recebido e mostrou que sabia tocar. Agora, faz parte da bateria — afirma Rosa.

Nas palavras do mestre, o perfeccionismo com que encara a missão faz do japonês modelo para o grupo. Único homem em um setor da bateria composto por mulheres, desempenha a função com eficiência. Como um samurai. Não se atrasa, não falta, não reclama.

— No começo, a gente olhava e dizia: "O que esse japa quer no samba?". Ficava todo mundo desconfiado, mas ele se adaptou bem. Hoje, todos conhecem e gostam dele — diz Andreia Escouto, integrante da escola.

Do colega de bateria Regis Alberto, que toca tamborim, Tamaoki ganhou o apelido de Jackie Chan — uma alusão ao carismático ator, que na verdade é chinês. Ao avistar Alberto e sua família na quadra, corre para cumprimentar, como sinal de respeito.

— A escola parece uma família porque todos os membros tocam juntos há muito tempo. Aqui, as pessoas têm anos de samba, como na Velha Guarda. E todos são amigos — diz Tamaoki, impressionado.

Do bairro Asakusa para o Porto Seco

Quando retornar ao seu país, Tamaoki exibirá os novos aprendizados na G.R.E.S União dos Amadores, escola japonesa que desfila no bairro Asakusa para uma plateia de 500 mil espectadores. Esse é o público que costuma ver os desfiles das 20 agremiações de Tóquio. Talvez, para ele, soe até estranho que, no país do Carnaval, o Porto Seco reúna não mais do que 15 mil pessoas (vale lembrar que Porto Alegre tem aproximadamente um décimo da população de Tóquio, onde moram 13,6 milhões de pessoas).

Realizado em agosto, verão no Hemisfério Norte, o carnaval japonês existe há três décadas e segue o mesmo roteiro do brasileiro: desfile em uma grande avenida, alas (inclusive de baianas que rodopiam), carros alegóricos, sambas-enredo compostos em japonês ou português e comissão julgadora.

Lá, Tamaoki ajuda a compor os sambas-enredo da União dos Amadores. A comissão de frente do seu último desfile, ao abordar a culinária, era prato e garfo. Aqui, ele considera os enredos mais complexos, os desfiles mais longos e a plateia mais animada.

— As pessoas de lá respeitam muito a cultura brasileira e se espelham no Carnaval daqui para realizarem seus desfiles — garante.

Ele conhece outros 10 japoneses que vieram para o Brasil e fazem parte do Carnaval, mas estes estão no Rio, incluindo sua namorada. Mirei Shigeta, neste ano, desfila como passista da escola Viradouro.

Questionado se não aproveitaria a ocasião para conhecer a Cidade Maravilhosa junto da amada, disse que não está preocupado com isso. Quer focar toda a atenção aqui, para ter uma boa performance no desfile:

— Eu vim para aprender essa cultura. Estar com os amigos e tocando é algo que me deixa orgulhoso. É muito bom superar qualquer diferença. O samba tem esse poder.

No Japão, Tamaoki ajuda a compor os sambas-enredo da União dos Amadores Foto: Yusei Tamaoki / Arquivo pessoal

Experiência de um profissional

Em Porto Alegre, Tamaoki divide apartamento com outros seis estudantes na Avenida Protásio Alves. Uma das mais movimentadas da cidade, nem chega aos pés de grandes vias de Tóquio, que têm de seis a oito pistas e arranha-céus com mais de cem andares. Para ir aos ensaios na quadra da Bambas, que fica na Voluntários da Pátria, já se acostumou a esperar: nem os ônibus, nem as pessoas são pontuais. Mas ele entende isso como cultural.

Ao sair para comer, é difícil aceitar que as casas de sushi brasileiras tenham morango e manga no meio do arroz e salmão. Seus conterrâneos ficariam bravos, mas para o estudante boa-praça a diferença fortalece a diplomacia. Passar por essas diferenças culturais fará Tamaoki voltar calejado — não apenas nas mãos. Quando chegar em casa no final de março para terminar a faculdade, terá a chance de propor à G.R.E.S União dos Amadores que mude de nome. Afinal, volta com uma experiência de profissional no samba. 

 
 
 
 
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