Aniversário da Capital

"Há uma reação coletiva à sensação de insegurança", afirma urbanista sobre eventos em locais públicos

Conforme Benamy Turkienicz, professor da UFRGS, existe uma tentativa de recuperar espaços perdidos

24/03/2017 - 21h25min | Atualizada em 24/03/2017 - 21h25min
"Há uma reação coletiva à sensação de insegurança", afirma urbanista sobre eventos em locais públicos Carlos Edler/Agencia RBS
Foto: Carlos Edler / Agencia RBS  

Arquiteto, urbanista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Benamy Turkienicz avalia que a Capital experimenta, atualmente, uma tentativa de recuperar espaços públicos perdidos nos últimos anos para a sensação de insegurança. Confira, abaixo, trechos da entrevista concedida a ZH.

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O que explica o crescente interesse por eventos realizados em áreas públicas na Capital?

Isso tem nome, se chama urbanismo tático. É um termo um pouco técnico, mas serve para mostrar que existem, hoje, áreas urbanas pouco ocupadas de dois tipos: áreas agradáveis, mas que acabam não sendo utilizadas, e outras não tão agradáveis, mas que têm características que, se as pessoas se dessem conta delas, poderiam ser bem utilizadas.

No primeiro caso, temos locais como o Parque Moinhos de Vento e outros parques e praças, que as pessoas têm medo de frequentar em razão da insegurança. São lugares de ocupação dispersa, com locais onde pessoas podem se esconder, então podem ser percebidos como locais inseguros. E há outras áreas que as pessoas não ocupam, como o 4º Distrito, cuja população foi saindo ao longo dos anos, mas há ruas bonitas como a Polônia, a Paraíba. A recuperação dessa área é fundamental para Porto Alegre. Por isso, precisamos desse ativismo social, do urbanismo tático.

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De que forma isso ocorre?

Promovendo eventos nesses locais, atraindo pessoas para usar espaços mostrando o potencial que eles têm, uma vez resolvidas questões de infraestrutura e até de conservação de prédios. Ações como essas são comuns em cidades do mundo inteiro. Em alguns lugares, fazem testes de ocupação, com grupos de pessoas, para promover o aperfeiçoamento de determinados espaços urbanos. São ocupações temporárias. Em Nova York, recentemente, levaram cadeiras de praia para as ruas, viram que as pessoas gostaram. Na hora do almoço, saíam dos seus escritórios e faziam lanches ali. A prefeitura então resolveu consagrar alguns desses espaços como definitivos.

No caso específico de Porto Alegre, qual a relação desse fenômeno com a crise de segurança?

Há uma reação saudável, coletiva, à sensação de insegurança. Se a população não reagir, fica refém desse clima. Isso mostra que a população de Porto Alegre, e de outras cidades que tiveram o mesmo tipo de reação, não se conforma em ficar refém de um estado de insegurança e acredita que, que juntos, podemos nos proteger.

Que impacto prático essas iniciativas podem ter sobre a cidade?

Isso tem a capacidade de chamar a atenção das pessoas de que o uso comum do espaço público é importante para a segurança. Vai chamar atenção para a impropriedade de construir algo sem que haja uma relação constante entre o público e o privado. Fechar as fachadas produz insegurança. Boas calçadas, com fachadas ativas e iluminação favorecem essa utilização mais intensa. Ruas mal iluminadas, mal pavimentadas e com muros geram insegurança.

O que são fachadas ativas?

Quando tem sempre gente entrando e saindo de algum lugar. Hoje, a legislação urbanística é pouco específica em relação à necessidade de relação permanente entre o espaço público e o privado. Isso gera a possibilidade de termos muros grandes como os dos condomínios. Se tu estás na rua e tem condomínios dos dois lados, não vai ter gente entrando e saindo. Essa é uma grande preocupação hoje, e muitos técnicos preconizam a necessidade das fachadas ativas. Isso favorece a circulação de pessoas na rua e aumenta o controle social sobre o espaço público.

 
 
 
 
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