Aniversário da Capital

Porto Alegre 245 anos: cinco casos de ocupação dos espaços públicos

Cidade gaúcha vivencia proliferação de eventos em ruas, parques e praças

24/03/2017 - 21h23min | Atualizada em 24/03/2017 - 23h16min
Porto Alegre 245 anos: cinco casos de ocupação dos espaços públicos Montagem sobre fotos de André ¿?vila, Bruno Alencastro e arquivo pessoal / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Montagem sobre fotos de André ¿?vila, Bruno Alencastro e arquivo pessoal / Agência RBS / Agência RBS  

A proliferação de eventos que estimulam a ocupação de espaços públicos — como ruas, parques e praças — é um fenômeno presente em Porto Alegre, que comemora 245 anos neste comingo. Confira cinco exemplos.

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Churrasqueiras se multiplicam em praças e parques

Daniele (segunda à esquerda) reúne amigos nas proximidades do Gasômetro Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

A ocupação dos espaços públicos de Porto Alegre não depende exclusivamente de eventos pré-programados ou de grande porte. Iniciativas espontâneas de pequenos grupos de amigos ou familiares também contribuem para a corrida a parques, praças e vias da cidade.

A multiplicação de churrasqueiras até em canteiros de avenidas é mais um exemplo da busca por convívio ao ar livre. A agente de viagens Daniele Ractz, 35 anos, começou a reunir amigos e colegas de trabalho na praça diante de sua casa depois de testemunhar o aumento no número de vizinhos que adotaram essa prática.

— Eu senti a necessidade de juntar os amigos. Como meu apartamento é pequeno e vi outras pessoas fazendo piquenique e churrasco na praça, resolvi fazer também. Já fizemos dois, e pretendo fazer outros — conta Daniele.

A agente de viagens conta que, até alguns meses atrás, a praça Brigadeiro Sampaio, próximo ao Gasômetro, no Centro, não se mostrava muito convidativa. Desde então, o aumento no número de pessoas nos arredores estimulou Daniele a reunir os amigos inclusive à noite.

— Me senti mais segura porque havia mais pessoas fazendo churrasco também. Não estávamos sozinhos — afirma a moradora, nascida e criada na Capital.

Cada convidado se encarrega de levar alguns itens para o churrasco, além de cadeiras e outros apetrechos. Além dos minieventos que ela mesma organiza, Daniele também participa das iniciativas que combinam venda de roupas e comida de rua.

— A gente percebe que tem um interesse muito maior por esse tipo de atividade, assim como pelo Carnaval de rua, que cresce a cada ano. É muito legal porque a gente sempre encontra alguém conhecido, e tudo isso sem custo.

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A explosão da comida de rua

Rodrigo Paz é um dos pioneiros dos chamados food trucks na cidade Foto: Bruno Alencastro / Agencia RBS

Há quatro anos, um jovem cozinheiro voltava de São Paulo para Porto Alegre procurando uma chance para mostrar seu trabalho. Sem muitas oportunidades, decidiu montar uma barraca de comida durante uma festa de Saint Patrick's na Rua Joaquim Nabuco. Ao final do dia, venderia 50 porções de panqueca de batata e carne de panela com molho Guiness. Ao final daquele mesmo ano, quando descobriu o gosto da cidade pela gastronomia itinerante, passaria a vender 5 mil porções em um único evento.

— A gastronomia em Porto Alegre vivia um momento sem muito espaço para um jovem ou para a criatividade. Só se servia risoto e entrecot. Resolvi ir para a rua e, alguns meses depois, já estava organizando um evento com 20 chefs e 10 cervejarias artesanais — conta o cozinheiro Rodrigo Paz, 28 anos, um dos pioneiros da comida de rua na Capital.

O apetite dos porto-alegrenses pelos pratos servidos na rua se mostrou voraz. Na primeira edição do projeto Comida de Rua, no Largo da Epatur, meia hora antes da abertura das barracas já havia cerca de 400 pessoas à espera. Em outra edição, na Praça da Alfândega, passaram por lá nada menos do que 15 mil pessoas. A chegada dos food trucks facilitou a logística e aumentou o número de eventos realizados por diferentes organizadores. Hoje, Porto Alegre tem uma associação com 20 food trucks e uma legislação recém-aprovada para regular a oferta desse serviço.

Rodrigo, um dos responsáveis pelo sucesso da comida itinerante, conta que a ideia de servir pratos em barracas também foi influenciada por sua história de vida na Capital. Com apenas 14 anos, já frequentava as ruas do Bom Fim com seu cabelo moicano rosa.

— Sou nascido e criado na rua — conta Paz.

A serenata que iluminou a cidade

Inspirada em modelo argentino, Renata Beck criou a Serenata Iluminada Foto: André Ávila / Agencia RBS

Renata Pinto Beck é arquiteta, mas uma de suas criações mais conhecidas em Porto Alegre não tem paredes, teto ou janelas. Cansada da escuridão e do medo que cercavam o Parque da Redenção, pelo qual passava todas as noites ao voltar para casa, idealizou uma mobilização destinada ao mesmo tempo a estimular a presença de pessoas no local e chamar a atenção das autoridades para a necessidade de investimentos em segurança.

Nascia assim a Serenata Iluminada, iniciativa que convidou a população a frequentar o parque à noite, à luz de velas, lampiões, celulares ou o que fosse, em meio a apresentações artísticas e rodas de conversa. O sucesso foi tão grande que, apesar de Renata ter se distanciado da organização, a atividade segue contando novas edições, inspirou outros eventos semelhantes e é considerado um marco na luta dos moradores pelo direito de aproveitar a cidade.

— Morei em Córdoba, na Argentina, onde tem um parque que ficava cheio de gente à noite. Me perguntava por que não podíamos ter isso em Porto Alegre também — conta Renata.

A arquiteta lançou a ideia no projeto PortoAlegre.cc (iniciativa destinada a discutir a cidade e propor soluções) e redigiu um convite na internet. Em um trecho, escreveu: "Vamos iluminar o Parque Farroupilha fazendo muito barulho. Com isso, podemos chamar a atenção das autoridades para que, quem sabe, esta causa seja atendida" (referindo-se à necessidade de melhor iluminação no local). Centenas de pessoas fizeram o parque brilhar.

Em 2015, o evento também se tornou notícia em razão de um oficial da BM ter sugerido a uma participante chamar "o Batman" para coibir assaltantes, sob a alegação de que "o frequentador desse tipo de evento não quer a BM perto". Renata avalia que o episódio serviu para aumentar a conscientização de todos sobre o direito de o cidadão frequentar a cidade a qualquer hora.

O comandante do Policiamento da Capital, coronel Jéfferson de Barros Jacques, afirma que o episódio faz parte do passado e diz que a corporação procura atender a todos os eventos sobre os quais é informada. Ele lembra a importância da política de segurança pública incluir outros elementos como poda de árvores, iluminação e acessibilidade:

— Um ambiente seguro se faz com pessoas, infraestrutura adequada e, também, presença policial.

Brique colaborativo na Zona Sul

Márcia Morales coordena feira realizada duas vezes por mês na Avenida Guaíba Foto: Bruno Alencastro / Agencia RBS

Porto Alegre é conhecida como a cidade do Brique da Redenção, tradicionalmente realizado na Avenida José Bonifácio e que completa 39 anos neste mês, mas a verdade é que há outros briques pedindo espaço pela cidade. Um deles, lançado há pouco mais de um ano, toma as ruas do bairro Ipanema e estimula a aproximação entre a população e o Guaíba. Localizado nas imediações da esquina das vias Guaíba e Laranjeiras, na Zona Sul, o Brique de Ipanema reúne dezenas de expositores em bancas de artesanato.

Coordenadora do novo brique, Márcia Morales, 45 anos, afirma que inicialmente cultivava a ideia de que a feira fosse itinerante — ocupando um lugar diferente a cada edição. Acabou prevalecendo a ideia de deitar raízes na avenida localizada diante do Guaíba.

Inicialmente, seria realizado um domingo por mês, mas os participantes sugeriram duas edições mensais. Embora conte com uma coordenadora, o brique é organizado de forma colaborativa. As reuniões periódicas são realizadas na garagem da casa de Márcia para discutir os rumos do projeto, e cada participante leva uma cadeira e um lanche para ser compartilhado.

A relação com a vizinhança também tem sido de cooperação.

— Há um lar de idosos bem em frente, e alguns deles chegaram a confeccionar trabalhos de artesanato para expor. Uma outra vizinha nos cede uma conexão de energia elétrica — diz Márcia.

Mobilização urbana vira um ramo de atividade

Susana Jung criou a Tô na Rua, empresa dedicada à coordenação de eventos Foto: André Ávila / Agencia RBS

A procura por atividades ao ar livre se tornou tão frequente em Porto Alegre que a organização desse tipo de iniciativa vem se firmando como uma nova profissão na cidade. Susana Jung, 26 anos, se define como mobilizadora urbana. A microempreendedora individual criou o Tô Na Rua, empreendimento dedicado a criar e coordenar eventos — como o nome indica — em espaços públicos. Desde que começou a se dedicar a essa tarefa, ela já soma mais de 80 ações desenvolvidas na Capital.

Além de realizar atrações que levam sua marca própria, Susana também é contratada para coordenar projetos de terceiros. Ela foi responsável, por exemplo, por organizar a festa de Saint Patrick's na Rua Padre Chagas neste ano. A mobilizadora conta que é filha de uruguaia e sempre teve o hábito de comer pancho nas praças do país vizinho. Queria que esse tipo de lazer também fosse possível em Porto Alegre. Começou a colocar essa ideia em prática cerca de quatro anos atrás promovendo atrações como o Orla Vive, que levava bazar, música e piquenique para a beira do Guaíba na Zona Sul. Depois, participou de brechós, briques e feiras de comida de rua.

Decidiu registrar uma marca e se especializar na criação e coordenação de atividades em área pública.

— Depois de realizar alguns eventos, há dois anos resolvi criar o Tô na Rua. Há um movimento, uma luta de empreendedores para conquistar o espaço público, mas de maneira lícita, seguindo todas as normas municipais — analisa Susana.

 
 
 
 
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