Hospitais lotados

O que entidades da saúde apontam como possíveis saídas para o problema nas emergências 

Na manhã desta terça-feira, nove hospitais tinham atendimento restrito na Região Metropolitana

20/06/2017 - 21h24min | Atualizada em 20/06/2017 - 22h43min
O que entidades da saúde apontam como possíveis saídas para o problema nas emergências  Bruno Alencastro/Agencia RBS
Foto: Bruno Alencastro / Agencia RBS  

As sugestões para acabar com o problema da superlotação nas emergências de hospitais de Porto Alegre vão desde medidas emergenciais para se obter uma resposta rápida até alterações profundas, com maior exigência de tempo e dinheiro. Na opinião de dirigentes de entidades médicas consultados por ZH nesta terça-feira (20), quando, pela manhã, nove hospitais tinham atendimento restrito na Região Metropolitana, é necessário reativar imediatamente os leitos perdidos com o fechamento do Hospital Parque Belém, diminuir o fluxo de pacientes vindos do Interior para atendimento na Capital, aumentar a vacinação contra a gripe de grupos de risco e promover uma reestruturação geral do sistema de saúde pública.

A reabilitação dos mais de 200 leitos do Hospital Parque Belém, que encerrou suas atividades em 24 de maio, é apontada pelo presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Paulo de Argollo Mendes, como a saída instantânea possível para o problema. A instituição da zona sul da Capital, segundo Argollo, deveria ser colocada sob intervenção pela prefeitura, a exemplo do que acontece em hospitais de outras cidades, voltando então a abrir as portas e ajudando a dispersar as filas nos outros locais:

— O prefeito de Porto Alegre (Nelson Marchezan) está condenando os seus munícipes a dor, sofrimento e morte por omissão, por não intervir. Falei ontem (segunda-feira) com ele. Não queremos que o município compre o hospital e assuma as dívidas. Queremos que a prefeitura ponha o hospital sob intervenção. O hospital continuaria pertencendo a seus proprietários. Eles não têm o direito de negar à população a utilização de um bem que é de utilidade pública.

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Argollo acrescenta que diminuir o número de doentes de outras cidades que recorrem a tratamento na Capital é outra iniciativa para desafogar as emergências.

— Tudo isso que está acontecendo é também responsabilidade do secretário estadual da Saúde, na medida em que não repassa os recursos suficientes para os hospitais do Interior e os obriga a mandar pacientes para Porto Alegre — diz o presidente do Simers.

Sobre o Parque Belém, o secretário municipal de Saúde, Erno Harzheim, responde que parcerias para um novo modelo de gestão do hospital, que prime pela sustentabilidade financeira, têm sido buscadas.

– A saúde é, sim, das prioridades da atual gestão municipal, e a população de Porto Alegre tem reconhecido nosso trabalho. O Hospital Parque Belém é uma instituição privada. A dificuldade da gestão levou o hospital ao encerramento de suas atividades. 

Alfredo Cantalice Neto, presidente da Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs), também cita o aumento da capacidade e da qualidade de atendimento dos hospitais do interior gaúcho como solução. Outras duas medidas são fundamentais na visão de Cantalice: a maior cobertura de vacinação contra a gripe para dois grupos de risco específicos, as crianças e os idosos, que acabam demandando muito dos serviços de emergência, e também o direcionamento dos casos considerados de baixo risco para consultórios e postos de saúde, liberando espaço nos hospitais para as situações mais sérias.

— Tem muita mãe que vai na emergência e não vai no consultório do pediatra. Na emergência você consegue o que quer, mesmo que fique oito horas lá: consulta, exames, internação, especialista. Você resolve o problema. Muitas crianças que não são graves ocupam o lugar das graves — comenta Cantalice Neto.

Falta de planejamento

Na mesma linha, o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers), Fernando Weber Matos, condena a centralização do atendimento nos grandes hospitais e defende uma extensa reestruturação do sistema de saúde.

— Os pacientes de menor risco poderiam ter acesso às unidades básicas de saúde (UBS) e, só depois de passar por elas, seriam enviados para os serviços de maior complexidade. Seria o mínimo de organização possível — salienta Matos. — Como não existe essa organização, o pessoal bate na UBS, não tem equipe para atender, as consultas são marcadas para daqui um mês ou dois, a pessoa está com algo mais urgente, ela vai à UPA (Unidade de Pronto Atendimento), já está lotada, daí ela segue adiante e vai para a emergência — exemplifica.

Matos destaca a necessidade de investimentos para a contratação de profissionais e para a compra e a manutenção adequada de equipamentos.

— Falta planejamento e falta gestão. Tem de haver disponibilidade de condições humanas e de condições materiais. Organizar, todos nós sabemos como fazer. O problema é termos recursos para fazer essa reorganização. A demanda populacional é cada vez maior, e o investimento, cada vez menor — completa o presidente do Cremers.

Procurada, a Secretaria Estadual de Saúde disse, por meio da assessoria de imprensa, que não poderia comentar ontem as questões levantadas.

Hospitais como o Clínicas, um dos mais críticos em excesso de busca por atendimento da emergência entre segunda-feira e terça-feira, já passou por um processo de reestruturação do setor nos últimos sete meses, justamente para melhorar o recebimento de pacientes na área, ressalta o gerente operacional da emergência na instituição, José Pedro Prates. Antes disso, o hospital costumava ter uma média de 150 pessoas no serviço, mas, em novembro de 2016, montou um plano de ação para reeducar a equipe e a população para que casos que não sejam graves cheguem às unidades de pronto atendimento.

— A ideia era voltar a uma vocação inicial, de atender aos pacientes graves e complexos. Hoje, oscilamos entre 90 e cem (na unidade). Mapeamos que, com esse volume, conseguimos manter uma qualidade maior — explica Prates.

Para o gerente, muitos pacientes crônicos atendidos pelo hospital costumam ter complicações em viradas bruscas de temperatura como a ocorrida nos últimos dias, o que eleva a procura pela instituição. Ele ainda ressalta que a ampliação do atendimento em alguns postos de saúde da Capital pode contribuir para que a população aprenda a procurar esses lugares em casos de baixa e média complexidade.

Duas unidades tiveram o atendimento estendido até as 22h desde o início da gestão de Nelson Marchezan como prefeito: a UBS São Carlos, na Agronomia, e o Posto de Saúde Modelo, no Santana.

Em reunião na tarde desta terça-feira (20), a Secretaria Municipal de Saúde e hospitais de Porto Alegre estabeleceram um novo fluxo de pacientes para desafogar as emergências. 

Conforme o secretário Erno Harzheim, pacientes internados em emergências de hospitais maiores serão encaminhados para hospitais menores que possam atender pacientes com baixa complexidade.

 
 
 
 
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