Gestão

O que marca os seis primeiros meses de Marchezan à frente da prefeitura de Porto Alegre

Administração com estilo de iniciativa privada convive com dificuldades na negociação com a Câmara e servidores

30/06/2017 - 17h19min | Atualizada em 01/07/2017 - 10h06min
O que marca os seis primeiros meses de Marchezan à frente da prefeitura de Porto Alegre Carlos Macedo/Agencia RBS
Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS  

Os primeiros seis meses de Nelson Marchezan à frente da prefeitura de Porto Alegre foram marcados pela determinação em reformar o setor público com características da gestão privada, em ações como a definição de metas, a aposta em parcerias e o uso intensivo de tecnologia. Essa busca leva o prefeito a longas jornadas de trabalho, que por vezes superam 12 horas, mas tem esbarrado em desafios como dificuldades de relacionamento com a Câmara de Vereadores e um crescente número de baixas nos primeiros escalões.

Os desencontros com o Legislativo começaram antes mesmo da posse. Já eleito, mas ainda sem ocupar a cadeira, Marchezan dizia a interlocutores estar disposto a romper com antigas práticas políticas como a distribuição de cargos em troca de apoio nas votações. Ao avaliar o projeto de reestruturação administrativa, encaminhado pela gestão anterior a pedido do atual prefeito, o PTB retirou o quórum da sessão e adiou a apreciação da medida.

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— A prefeitura teve de voltar atrás e distribuir cargos, mas houve um desgaste — analisa um tarimbado integrante da Câmara.

As dificuldades prosseguem. A base fiel ao governo soma apenas 12 vereadores, o menor apoio legislativo desde as gestões petistas, 13 anos atrás, enquanto são necessários 19 votos para alcançar maioria simples. Vereadores e pessoas próximas ao gabinete entendem que falta capacidade de negociação para compensar a desvantagem numérica e fazer a nova administração decolar.

— O prefeito tem ideias muito boas, mas não ouve muito outras pessoas. Para aprovar projetos, é preciso costurar, negociar, até para melhorar o projeto — observa um aliado.

Como resultado, o governo passou pelo embaraço de retirar da pauta a proposta que eliminava a obrigação de repor a inflação aos servidores, por falta de apoio. Diferentes vetos do prefeito foram derrubados — o último, que reduzia o teto salarial de R$ 30,4 mil para R$ 19,7 mil, caiu na quarta-feira passada.

A dificuldade para negociar teria sido uma das razões para uma das principais baixas do governo no semestre: a saída do ex-articulador político Kevin Krieger. Interlocutores sustentam que a falta de autonomia para aceitar sugestões de parlamentares e costurar acordos foi decisiva — Krieger não quis comentar por que deixou o governo.

— Não podemos ser aderentes a uma vontade única, porque representamos diferentes parcelas da sociedade — argumenta o vereador Valter Nagelstein (PMDB), um dos 17 autodeclarados independentes.

Para o líder do governo na Câmara, Clàudio Janta (SD), as dificuldades iniciais do governo têm como origem a tentativa de alterar um modelo de quase duas décadas em busca de uma maior eficiência da máquina pública.

— A busca por transparência, por redução de custos e de cargos de confiança, por um teto salarial adequado para o funcionalismo, tudo isso gera um impacto inicial. Além disso, o prefeito não faz promessas e prefere sempre falar a verdade, mesmo que não seja agradável — opina Janta.

Com a intenção de aprimorar o setor público, Marchezan tem aplicado medidas como revisão de gastos, contratações via banco de talentos, oferta de serviços por aplicativos e alterações na rotina escolar.

Para o cientista político e professor da UFRGS Gustavo Grohmann, a atual administração não se destacou por algum ponto muito negativo ou positivo.

— É um governo que ainda está no empate — acredita Grohmann.

Marchezan afirma estar disposto a fazer avanços políticos com o Legislativo para apressar as mudanças na cidade:

— Estamos em construção de melhorias no canal de comunicação e relacionamento (com a Câmara). A prefeitura pode e vai evoluir nisso, e a responsabilidade é principalmente nossa.

 
 
 
 
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