Memória

5 lugares que fizeram a Porto Alegre de Paulo Sant'Ana

Em colunas e comentários, o cronista ajudou a tornar célebres alguns dos locais que mais frequentava

Por: Jéssica Rebeca Weber
21/07/2017 - 17h03min | Atualizada em 21/07/2017 - 18h56min
5 lugares que fizeram a Porto Alegre de Paulo Sant'Ana Tadeu Vilani/Agencia RBS
Eloi já sabia qual seria o pedido do Sant'Ana no restaurante Copacabana Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS  

Em uma sexta-feira de 2001, Paula Sant'Ana dedicou sua crônica em Zero Hora a dois grandes afetos. "Se existe céu, me encontrarei sem dúvida com eles lá no paraíso", desejou o jornalista, que morreu na noite da última quarta-feira (19).

Não se tratavam de amigos, parentes ou quaisquer seres animados. Os objetos de saudosismo do jornalista eram o pernil e o bauru do Matheus, um dos tantos locais de Porto Alegre que inspiraram ou foram personagem de suas colunas.

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Paulo Sant'Ana era um porto-alegrense da gema — ou melhor, da Rua da Margem, atual João Alfredo. Cresceu na Chácara das Bananeiras, no Partenon, onde hoje fica o Presídio Central de Porto Alegre. Quando guri, colhia frutos no Morro da Polícia - araçás, pitangas, bergamotas, ameixas, butiás, que conseguia vender "por preço aviltadíssimo" nas casas da vizinhança.

Pablo discutia futebol no Largo dos Medeiros e, à noite, vivia uma vida boêmia pelo Centro Histórico e Cidade Baixa. Nos últimos anos, tinha prazer comendo bem e buscava adrenalina em corridas de cavalo diante de televisores no Moinhos de Vento.

ZH convida os leitores saudosos a fazerem um tour pela Porto Alegre de Paulo Sant'Ana:

1. "Orgasmo culinário" na Confeitaria Matheus

Confeitaria ficava em frente à Praça da Alfândega e fechou na década de 1970 Foto: Reprodução / Ver Descrição

Está certo que Paulo Sant'Ana não era o homem mais comedido do Estado, mas um bauru descrito como "orgasmo culinário", "manjar dos deuses", "divino e inesquecível" desperta o imaginário gustativo de qualquer um. Essa iguaria era encontrada num estabelecimento que ficava na frente da Praça da Alfândega, a quem o jornalista dedicou uma crônica em 11 de fevereiro de 2001. "Toda a minha geração carrega uma profunda saudade da Confeitaria Matheus", sentenciou.

Depois de 27 anos aberta, ela baixara definitivamente suas cortinas em 1976. Mas não tem problema: Sant'Ana tratou de reconstituir o local:

"Amigos, venham comigo, já passaram pelo balcão em que eram servidos o sanduíche e a batida mais espetaculares da história da humanidade.

Aproximem-se, passem pelo balcão lateral do Matheus onde ficavam as balas, os doces, os cigarros.

Venham até o balcão dos fundos do Matheus (ah, devem chorar de saudade aqueles que o conheceram!) e desfrutem agora da suprema iguaria do bauru do Matheus."

Claro que para ter ainda mais graça, o dono do negócio tinha de ser uma figura caricata. Sant'Ana descreveu o português parado na porta, "misto de empresário e de malandro, com as imensas suíças e a corrente de ouro que segurava o relógio de bolso derrubando-se sobre o púbis, o enorme anel de ouro como símbolo da prosperidade e a fala crivada de gírias indicando a falsa malandragem."

O colunista de ZH Ricardo Chaves, que assina o Almanaque Gaúcho, compartilha também da memória afetiva pelo estabelecimento.

— O Matheus da Praça da Alfândega era um clássico. Depois de sair do cinema na Rua da Praia, era um rito passar no Matheus para comer, em pé, junto ao balcão, um pernil e tomar um suco de laranja.

2. O "desfile da raça humana" do Largo dos Medeiros

Sant'Ana era um "um cara importante" no Largo dos Medeiros, onde os homens se reuniam para comentar política e futebol Foto: Coleção Pedrfo Flores / Museu José Joaquim Felizardo/Fototeca Sioma Breitman

A Praça da Alfândega e o Largo dos Medeiros — ponto em que a Rua dos Andradas se alarga, junto à Rua General Câmara — ainda existem, mas não como na memória do Sant'Ana. Ele sentia saudade "da multidiversidade cultural, folclórica e mundana que tresandava da praça e do largo, epicentros pulsantes da cidade".

Sant'Ana lembrava dos longos papos que furavam as madrugadas por ali. Falava do ajuntamento de estudantes, bacharéis, jornalistas, atores de teatro, policiais, intelectuais, comissários de menores, médicos, jornalistas, desocupados, cafetões: "um desfile extraordinário da raça humana e do comportamento humano".

O jornalista Lauro Quadros recorda-se do Sant'Ana daquela época — antes de ser contratado como comentarista esportivo da Gaúcha, em 1971.

— O coração do Centro Histórico era o Largo dos Medeiros. Ali se reuniam para discutir futebol e política, na rua mesmo — explica Quadros. — E o Sant'Ana despontava. Ele era um cara importante no Largo dos Medeiros.

Paulo Sant'Ana adorava escrever sobre a Rua da Praia do tempo em que Porto Alegre registrava dois assaltos por ano. Como relatou na sua crônica de 23 de abril de 2010: "A cidade foi crescendo, foi se expandindo, criaram a figura da Grande Porto Alegre e hoje nos atordoamos. Eu gostava mais da Pequena Porto Alegre".

3. Vida boêmia: os bares de Sant'Ana

Sant'Ana ganhava 7 mil cruzeiros por mês para tocar em bar da José do Patrocínio Foto: Mauro Mattos / Agencia RBS

Sant'Ana gabava-se de saber 3 mil músicas de cor, como lembra o jornalista Cláudio Brito. E, pelo menos uma parcela delas, cantou em bares — a maioria, já extintos, como o Adelaide's (na Marechal Floriano). Lá ele conversava com nomes como Lupicínio Rodrigues, um dos seus grandes ídolos. A lista de frequentadores ainda incluía nomes como Alcides Gonçalves, Túlio Piva, Plauto da Flauta, Clio e Lúcio do Cavaco, Jessé Silva, Darcy Alves, Gervásio e Cauby, alguns dos melhores violonistas do Estado.

Sant'Ana chegou a cantar profissionalmente em um desses bares de seresta há mais de 30 anos: o Chão de Estrelas, uma "filial" do Adelaide's na José do Patrocínio. Ganhava 7 mil cruzeiros por mês.

— Eu anunciava no Jornal do Almoço e na Zero Hora: "Hoje vou cantar no Chão de Estrelas". A capacidade do lugar era de 150 pessoas. Iam umas mil — disse em entrevista ao Caderno Cultura em 2005.

Cláudio Brito lembra ainda de outro estabelecimento em que Sant'Ana marcava presença: o Treviso, restaurante que ficava aberto 24 horas no Mercado Público. Artistas iam tocar nas rádios do Centro e depois jantavam no Treviso.

— Pablo ia para lá. Era o fim de noite de todo mundo. Tá aí o roteiro de um boêmio — comenta Brito.

Não raras vezes, Paulo Sant'Ana deu canja com artistas famosos. Na inauguração do Se Acaso Você Chegasse (também já extinto), cantou ao lado de Jamelão, o grande intérprete de Lupicínio.

4. Turfe na 24 de Outubro

O jornalista gostava de apostar nos cavalos 1 e 7 em casa que transmite corridas de cavalo no Moinhos de Vento Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Paulo Sant'Ana era cliente VIP em um estabelecimento da Rua 24 de Outubro que transmite corridas nacionais e internacionais de cavalo. Frequentava o espaço com o colunista esportivo Guerrinha.

— Ele começou a gostar do ambiente, das pessoas. Passava os finais de semana lá, jantava e ia embora tipo 11h da noite — lembra Guerrinha. — Sant'Ana gostava de adrenalina em alto volume.

Gerente de operações online do Turff Bet Sports Bar, Márcio Ribas conta que o jornalista frequentava o local desde 2009. Em alguns meses, ia cinco vezes ao local e, em outros, 25. Márcio diz que Sant'Ana pedia um chá mate com adoçante e muita sobremesa — três ou quatro bolos e sorvete, cheias de calda de caramelo. Ele costumava ficar em uma sala reservada, com seis televisores para assistir as corridas, e tinha o costume de apostar nos cavalos 1 e 7.

— Quando ele acertava, se exaltava. Gritava: "aqui é Pablo Sant'Ana! Meu nome é Pablo Sant'Ana!" — recorda Márcio.

Paulo Sant'Ana amava jogar. Chegou a deixar um show de Bob Dylan na primeira música, em Punta del Este, para usufruir do cassino — ia com frequência ao Uruguai para isso. "O jogo de quaisquer apostas é do instinto humano. O homem criou o jogo para distrair o seu espírito, como forma de premiar apostadores", escreveu em uma crônica no dia 12 de julho de 2015.

5. A massa com filé do Copacabana

Sant'Ana frequentava o Copacabana, junto à Praça Garibaldi, há anos Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Motorista de Sant'Ana nos últimos quatro anos, José Ricardo Vaz destaca que "um dos prazeres dele era comer bem". Pablo frequentava lugares como a Churrascaria Porto Alegrense, a Casa do Camarão, o Barranco.

— Lá ele pedia galinha com arroz. E dizia pro garçom: "bem molhada, não me venha com aquelas coisas secas — lembra Cláudio Brito.

Sant'Ana marcava ponto também no Copacabana, junto à Praça Garibaldi, há gerações. Normalmente, era atendido por Eloi Martins — garçom há 48 anos e um dos fundadores da escola de samba do Sant'Ana, a Imperadores do Samba. Eloi já sabia qual seria o pedido.

— Era espaguete com molho especial, com tomate cortado na hora, tudo na hora. Ia o molho e o filé grelhado em cima da massa — diz ele. — Às vezes, pedia uma Malzebier para acompanhar.

Volta e meia Eloir tinha que correr até Sant'Ana para solicitar que apagasse o cigarro. O jornalista pedia:

— Faz de conta que tu não viu.

Em entrevista ao caderno Cultura, em 2005, o cronista destacou que a comida era um dos únicos prazeres que lhe restava.

— Sou o único diabético do mundo que come um quilo de doce por dia — gabou-se.

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