Patrimônio de Porto Alegre

O tombado da Riachuelo 

Edificação foi o primeiro imóvel privado do país a ser recuperado com recursos do Programa Monumenta

Por: Bruna Vargas
07/07/2017 - 21h44min | Atualizada em 07/07/2017 - 22h44min
O tombado da Riachuelo  Isadora Neumann/Agência RBS
Foto: Isadora Neumann / Agência RBS  

Entrar em casa implica em um dilema incomum para a família de Hans Grieneisen, 76 anos. Lado a lado, cinco portas idênticas dão acesso ao prédio de quatro pavimentos onde o aposentado vive com o filho, a nora e os netos, na Rua Riachuelo.

— Atualmente estamos usando essa — aponta para uma das entradas, onde, na parte interna, um bilhete em alemão alerta para que não esqueçam a chave na fechadura.

As dúvidas se encerram ao cruzar qualquer uma das portas do edifício rosado com fachada em estilo colonial à altura do número 933, cuja construção data do século 19. Morar em uma casa antiga era o sonho da esposa de Hans, Mônica, que a família realizou cerca de 10 anos atrás, ao adquirir o imóvel recém-restaurado. Falecida em 2016, ela tinha uma convicção: não queria uma Porto Alegre tomada de edificações sem história.

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Foi por pouco que o vistoso imóvel — com 10 sacadas em ferro e janelas por onde um piano passaria sem dificuldades — não foi ao chão antes mesmo de os atuais moradores tomarem conhecimento de sua existência. Mais de vinte anos atrás, depois de um período de abandono em que ficou deteriorado, o antigo dono quis derrubá-lo para erguer um prédio comercial. Antes que o colocassem abaixo, porém, a prefeitura anunciou seu tombamento, em 1997.

Foto: Isadora Neumann / Agência RBS

Anos mais tarde, a edificação foi o primeiro imóvel privado do país a ser recuperado com recursos do Programa Monumenta. A ideia do antigo proprietário após a restauração ainda era destiná-lo ao uso comercial — entusiasmado com a possibilidade, instalou um elevador no meio do prédio. A intenção dos principais interessados, no entanto, era outra: os Grieneisen viram nele o seu lar.

— Quando fomos nos mudar para cá, minha chefe perguntou: "tu vai morar no Centro? Faz 29 anos que eu não vou para lá". Mas eu gostei desde o primeiro momento. Foi uma mudança muito significativa para mim, porque eu me senti aconchegada — conta a arquiteta Vera Grieneisen, nora de Hans.

Alemão naturalizado brasileiro, o aposentado lembra que a transição impressionou alguns amigos. Não entendiam como o casal podia trocar o aprazível bairro Bela Vista pela agitação do Centro Histórico, e um aconchegante apartamento com garagem por uma "casa velha".

O local, no entanto, caiu com uma luva para as necessidades do grupo: os cômodos eram suficientemente grandes para abrigar os móveis antigos e dar privacidade à família de Cosmas, o primogênito do casal, que montou sua residência em um dos pavimentos. Os instrumentos musicais — Mônica era pianista, e Cosmas é violista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) — e as centenas de livros da família ganharam cômodos especiais.

Foto: Isadora Neumann / Agência RBS

Na percepção dos moradores, a rotina também mudou para melhor. Com a garagem um pouco mais distante de casa, todos passaram a priorizar os passeios a pé — e comemoram o fato de o prédio estar localizado perto de alguns dos principais atrativos culturais da cidade, a passos do Theatro São Pedro e da Casa de Cultura Mario Quintana. A movimentação do entorno, vista como problema por parte dos amigos, melhorou a sensação de segurança.

Apaixonados por arte e cultura, eles não veem como empecilho o tombamento do imóvel, que restringe diversos tipos de alterações no local. Pelo contrário: preferem que permaneça exatamente como está. Também não se interessam pelo passado do prédio, que pode ser um dos mais antigos da cidade. O bem mais precioso a ser preservado, para os Grieneisen, são os bons momentos vividos no local.

— A gente não sabe nada da casa. Até já pesquisei na Wikipédia, está lá. Mas, para a gente, a história dessa casa é a nossa história — diz Vera.

Assim como o patrimônio histórico, na memória afetiva, ninguém mexe. 

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