Movido a arte

Taxista cria perfil no Instagram com registros feitos no retrovisor do carro

Blogueiro e autor de livro com edição esgotada inicia novo projeto pelas ruas da Capital

26/08/2015 - 19h38min | Atualizada em 27/08/2015 - 13h12min


Dá para dizer que um dos combustíveis que abastece o carro de Mauro Castro é a arte. Além de literatura que alimenta os livros, ele agora distrai as corridas com imagens tiradas do retrovisor de seu táxi.

Na profissão há 30 anos, o condutor que tem ponto na Saldanha Marinha com a Getúlio Vargas decidiu iniciar um novo projeto depois que parou temporariamente de escrever por um problema de saúde. A ideia é "desanuviar a cabeça".

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A aquisição de um smartphone e a influência da filha fizeram com que ele conhecesse o Instagram. Foi o início da nova febre. Por onde passa, Castro espia pela janela em busca de alguma cena inusitada, algo que seja capaz de traduzir o cotidiano a um turista ou alguém de fora da cidade.

Em ação a menos de uma semana, o projeto foi notado por um taxista da Irlanda, e ele já recebeu até convite para exposição. A proposta é exibir as fotos impressas dentro de retrovisores.

— O taxista tem acesso a lugares da cidade onde muita gente não chega. Conhecemos as entranhas. É como se o táxi fosse a carta de alvará para acessar qualquer parte. É um material muito rico para quem gosta de história.


Foto: Lara Ely

Do tipo conversador, Castro é uma espécie de tecnológico que sabe usar o smartphone com moderação e não abre mão do olho no olho. Não fotografa enquanto dirige (aproveita sinaleiras ou momentos em que larga passageiros) e não gosta quando alguém troca sua charla pela checagem das redes sociais.

Também pudera: as histórias são como um combustível, que alimentam os vários tipos de arte que ele produz.

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Poucos passageiros sabem que, além de o "taxista sustentar o escritor e o escritor explorar o taxista" (frase criada pela filha), Castro também é desenhista e pianista. Eventualmente, se apresenta junto a um grupo de amigos em festas de casamentos, tocando músicas como Ave Maria de Gounoud ou Marcha Nupcial. A capa do seu primeiro livro foi ele quem fez.

— Arte é remédio para abstrair o estresse do trânsito — conjectura.

Por sugestão e convite do editor da Rádio Gaúcha Cyro Martins, então editor do Diário Gaúcho, Castro criou, em 2005, o Taxitrama, blog destinado ao registro do cotidiano das histórias inusitadas que escuta a bordo. Certa feita, carregou uma mulher que pagou a corrida com roupas luxuosas. Ela estava indo morar em um convento e decidiu desfazer-se de tudo:

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— Escrever histórias ajuda a entender o que acontece por aí, comigo e com as pessoas. É uma terapia — diverte-se.

A consequência foi uma coluna no diário popular do grupo RBS e o início da carreira de escritor, em 2005. As duas edições estão esgotadas, e a terceira sai do forno em breve. De lá para cá, a veia literária pulsou tanto que o taxista virou co-roteirista de uma série de televisão, inspirada em suas histórias. A produção deve começar ainda neste ano.

 
 
 
 
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