Percursos sem estrutura

Com apenas 28 km de faixas exclusivas, Porto Alegre vê surgir ciclovias improvisadas

Em trechos da Ipiranga e da Padre Cacique, termina a faixa sinalizada e ciclistas continuam andando por onde conseguem

Por: Jéssica Rebeca Weber
10/11/2015 - 15h40min

Na primeira vez em que o alemão Christoph Küstner saiu para pedalar em Porto Alegre, um carro bateu na sua bicicleta e quase foi atropelado. Mesmo começando com o pé esquerdo, o professor não desistiu do hábito que trouxe da Europa.

Agora ele busca andar somente em ciclovias, uma tarefa um pouco complicada — Porto Alegre só conta com 28,5 quilômetros de faixas exclusivas para ciclistas, de mais de 400 previstos. Onde elas acabam, Christoph procura por caminhos que são popularmente adotados pelos ciclistas na Capital, embora não tenham estrutura para recebê-los, como o trecho de 2,7 quilômetros sem ciclovia entre a Silva Só e a Salvador França, na Ipiranga.

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Ao lado do Arroio Dilúvio, há até uma trilha no meio da grama, de tanto que passam ciclistas por ali. O alemão admite que faz de tudo para não ter que disputar espaço na via com os motoristas.

— Mais do que a estrutura, o complicado na cidade é o comportamento dos motoristas em geral — diz ele.

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Jorge de Melo Andrade, 38 anos, não sabia que a faixa sinalizada terminava na Silva Só e seguiu pelo trecho improvisado.

— Na ciclovia, a gente pega um embalo e vai. Aqui está cheio de buracos e tem que seguir no trilho pequeno. Se vier um do outro lado, tem que parar — relata o ajudante de pedreiro.

Rumo à Zona Sul, na frente da Fundação Iberê Camargo, há um fluxo ainda mais intenso de ciclistas, que vão da ciclovia da Avenida Diário de Notícias à da Avenida Padre Cacique. Há, inclusive, uma estação do Bike Poa no local. Mas no trecho de quase um quilômetro, não tem faixa para ciclistas.

Ali, quem está de bike reclama do solo arenoso e cheio de pequenas pedras — que provocam muitos tombos, sem falar da confusão que acontece quando a ciclovia acaba.

— Acabou a faixa em frente ao Barra, e tivemos que desviar para cá, para lá... Ficou muito incerto — queixa-se o promoter Caio Lexau, 29 anos.

Também não são raros os ciclistas que percorrem a Avenida Sertório, na Zona Norte. E, para eles, não há colher de chá: é preciso disputar espaço com os carros na avenida.

— Às vezes, a gente anda pela calçada, mas como tem muito buraco, tem que ir bem pela beirinha do asfalto — conta Everton Abreu, 26 anos.

Minutos antes de falar com o Pelas Ruas, o auxiliar de depósito quase foi atingido por um carro.

— Tem bastante espaço para os motoristas, mas eles preferem tocar para cima do ciclista — reclama.

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A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) informa que há um projeto de ciclovia concluído para unir o Aeroporto Salgado Filho à Avenida Francisco Silveira Bittencourt, passando pelo trecho da Sertório. O edital de licitação para a realização está sendo finalizado, e o início dos trabalhos está previsto para o começo de 2016.

As obras para o trecho da ciclovia na Ipiranga entre a Silva Só e a Salvador França devem começar ainda neste ano. Nesta via, a faixa tem alguns trechos finalizados e outros não em função de demora na contrapartida de empreendimentos imobiliários. 

O trecho que interliga as ciclovias da Edvaldo P. Paiva e Diário de Notícias tem projeto em fase de conclusão e também será executado via contrapartida, pela empresa Maiojama, que está construindo um empreendimento na Rua 24 de Outubro.

Veja onde ficam os trechos visitados pelo ZH Pelas Ruas:

 
 
 
 
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