Primeiro bronze do Brasil

Conheça o castelo onde medalhistas olímpicos de tiro em 1920 treinaram em Porto Alegre

Imitações de castelinhos medievais foram construídos para diferentes fins: de aprisionar a amada a servir de fachada para motéis

Por: Jéssica Rebeca Weber
24/08/2016 - 04h01min | Atualizada em 24/08/2016 - 17h00min

Eles não têm a grandeza das construções europeias, nem fundamento sob o aspecto histórico da arquitetura brasileira, mas é difícil passar perto e não olhar. As imitações de castelinhos medievais espalhadas por Porto Alegre são um convite à imaginação, mesmo com o barulho de trânsito ou os emaranhados de fios à frente.

— Cuidado que ele é mal-assombrado — riu um rapaz, ao dar orientações de como encontrar uma dessas construções, no limite dos bairros Teresópolis e Nonoai.

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Escondido atrás de árvores, uns 10 metros acima do nível da Travessa Fortaleza, o castelinho abandonado em questão tem aproximadamente cem anos e é um dos poucos da Capital com uma história rica — e proporcionalmente desconhecida. Ali, treinaram dois dos primeiros medalhistas olímpicos do Brasil: o porto-alegrense Dario Barbosa e Sebastião Wolf, alemão que veio ao Brasil ainda criança. Eles integraram a equipe que ganhou bronze na primeira participação do país nos Jogos, em 1920, na Antuérpia (Bélgica).

A construção com duas torres, porão e um túnel subterrâneo (hoje fechado) que levava a uma das trincheiras usadas para treinamento foi erguida para sediar a sociedade de Tiro 4, da qual participaram Barbosa, que era médico, e Wolf, dono de uma fábrica de biscoito. No começo do século passado, o clube estava vinculado à Guarda Nacional, visando a oferecer instrução de tiro para formar reservistas para o Exército, como explica a professora da UFRGS Janice Mazo, que coordena o Núcleo de Estudos em História do Esporte e da Educação Física. Por isso, é possível ler em um letreiro desgastado sobre a porta do castelo: "Clube Militar de Officiaes da Guarda Nacional".

Castelo que recebeu treinos de medalhistas olímpico fica no limite dos bairros Teresópolis e Nonoai Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

A arquitetura diferente fez do castelinho um ponto turístico da Zona Sul pelos anos 1960, conta o advogado Luís Leiner Junior, um dos herdeiros da área, que hoje está à venda. Quando as árvores ainda não tinham tapado a vista, volta e meia alguém se aproximava da escadaria que leva ao castelo, tirava fotos e ia embora.

O advogado conta que brincou muito de soldado ao redor da construção — onde moraram o avô, que comprou o terreno da Guarda Nacional na década de 1940, o tio e o próprio Luís até os 28 anos. Diz que ainda hoje é possível encontrar alguns cartuchos ou balas da época do clube de tiro.

— É um local que o porto-alegrense não conhece, mas mostra que os bairros também têm muita história — comenta Ricardo Eckert, 53 anos, morador que pesquisa a história do Teresópolis.

Abandonada, construção está à venda Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

De motéis a residências

Outros castelinhos da cidade foram construídos para fins diferentes: de aprisionar a amante, como reza a lenda do Castelinho do Alto da Bronze (leia mais abaixo), a servir de fachada para um punhado de motéis.

— Combina por causa da fantasia. É aquilo de "quero ser uma rainha" — opina Maria de Fátima Zisko, 57 anos, gerente operacional do Motel Medieval, no Sarandi, que tem como fachada um castelo de três andares, com tochas espalhadas pelas paredes de tijolo envelhecido, fosso e pontes.

Também há quem queira morar como um rei. Com muros altos e portões escuros nas ruas Vicente da Fontoura e Santa Cecília, no bairro Rio Branco, um prédio construído recentemente com pequenos parapeitos denteados no alto de uma torre, típicos de castelo, tem atiçado a curiosidade dos mais atentos e gerado especulação no Facebook. A vizinhança pouco sabe sobre o residencial, e os proprietários não quiseram conversar com o ZH Pelas Ruas.

— Me parece que reafirma essa questão encastelada, de barrar a entrada das pessoas. Talvez o empreendimento queira vender a sensação de isolamento e de segurança — avalia o publicitário João Andriotti, 51 anos, morador do bairro, que não aprecia muito o estilo por considerá-lo "um pouco pesado".

Rafael Passos, vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento do Rio Grande do Sul (IAB-RS), também não é adepto da máxima de que "gosto não se discute".

— Estética se discute, sim, pela importância de fazer uma leitura da cultura do local. E o castelo não encontra fundamento aqui. É algo que não representa nada da nossa cultura — critica, ponderando que essas construções normalmente realizam algum fetiche do contratante.

Já a psicóloga e professora universitária Ana Claudia Souza Vazquez, 48 anos, acha graça em morar em um prédio-castelo que tem duas lojas e oito apartamentos, também na Vicente da Fontoura.

— Eu acho bonito, e não acho que destoa em nada. Sou fã — diverte-se.

Ela e o marido Claudio Simon Hutz, 68 anos, compraram um apartamento "comum por dentro" no edifício Castelo Cúrpura 3 em 1999, logo que foi inaugurado. Mas não foram as pequenas torres, os dois canhões de mentira apontados para a rua e a armadura de aço ostentando uma longa lança que os convenceram a fechar negócio: as condições de pagamento contaram na hora decisão. O estilo inusitado foi apenas um extra, que agradou — e muito — às filhas do casal.

Castelinho do Alto da Bronze, no Centro, tem história famosa Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Palco de lenda urbana, castelinho do Alto da Bronze hoje é espaço cultural

Porto Alegre já teve uma Rapunzel. O nome dela é Nilza Linck, e foi para ela que o político Carlos Eurico Gomes construiu, na década de 1940, o castelo de pedras cinzas e janelas em estilo gótico na esquina das ruas Fernando Machado e General Vasco Alves, no Centro Histórico.

O companheiro de Nilza era tão ciumento que não a deixava sair do chamado "Castelinho do Alto da Bronze" sozinha, quanto menos cumprimentar os vizinhos ou se aproximar das janelas. Ela viveu quatro anos praticamente encarcerada, até arranjar coragem para deixar o homem, que chegou a ser ministro do Tribunal de Contas.

Detalhe do Castelinho do Alto da Bronze Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Apesar das cortinas douradas de cetim, dos móveis de jacarandá e das joias, admite que lhe dói lembrar dos tempos de "princesa". Nilza, que teve sua história publicada no livro A prisioneira do Castelinho do Alto da Bronze (Artes & Ofícios, 1993), do jornalista Juremir Machado da Silva, está muito mais feliz hoje, aos 93 anos, morando em uma casa de cerca branca no bairro São João, decorada com pelo menos uma dezena de fotos suas de quando jovem e muitas flores.

— As pessoas falavam que eu era uma prisioneira, e eu me sentia uma prisioneira — conta.

O castelinho já serviu como ponto de encontro para políticos, boate e consultório de dentista. Inventariado pela prefeitura, é um espaço cultural desde 2009, onde ocorrem exposições, lançamentos de livros e atividades de escolas. 

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