Porto Alegre

O Dilúvio como lar: mais de 10 pontos da margem do arroio viram casa para moradores de rua

O ZH Pelas Ruas percorreu a Avenida Ipiranga observando espaços utilizados debaixo de pontes, nos taludes e ao lado da via

Por: Jéssica Rebeca Weber
12/08/2016 - 15h01min | Atualizada em 12/08/2016 - 18h34min

O Pelas Ruas contou na quarta-feira, entre a foz do Arroio Dilúvio, junto à Avenida Edvaldo Pereira Paiva, e o cruzamento da Avenida Ipiranga com a Antônio de Carvalho, 16 pontos onde há objetos como colchões, cobertores e roupas, indicando que ali é o lar de algum morador de rua. Em boa parte, há barraquinhas improvisadas com lona nos taludes do arroio, e espaços debaixo de pontes também são utilizados. Em agosto de 2014, um levantamento de Zero Hora apontou que havia 15 barracas de lona improvisadas ao longo da avenida.

— Isso é desumano, mas ao mesmo tempo se torna muito trivial nas nossas vidas, já é cotidiano. É horrível falar, mas essa é a sensação — lamenta a bióloga Moara Mingori, 29 anos.

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— Cada dia que passa, parece que tem mais — diz Cleidimar Reginato, admitindo que procura não passar perto dos agrupamentos, com medo de assalto.

Presidente da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), Marcelo Soares diz que a equipe de assistentes sociais tem muita dificuldade em chegar nas pessoas que moram às margens do Dilúvio. Também afirma que, cada vez mais, essas pessoas respondem de maneira agressiva.

— Não existe interesse por parte delas de se vincular às redes. Ficamos no limite do nosso poder de intervenção, e funcionários já foram até mesmo agredidos — afirma.

Soares destaca o uso de crack, perceptível a quem passa pela rua, segundo ele, como um agravante. Afirma que alguns dos que ocupam a área têm moradia, e vão ao local para consumir drogas.

O presidente da Fasc afirma que a fundação não pode obrigar pessoas adultas a deixarem o local, e que o Poder Executivo fica em uma situação delicada quando o assunto é remover as estruturas, em função de uma possível estigmatização de movimentos sociais. Ele diz que busca uma reunião com o Ministério Público para traçar ações relacionadas ao problema. 

Na última contagem da Fundação, havia 12 pontos servindo de moradia a moradores de rua ao longo do Dilúvio — mas a entidade afirma que o número pode ter alterações frequentes, uma vez que o uso do espaço é rotativo. Cinco dessas pessoas aceitam acompanhamento da Assistência Social.

Segundo o tenente-coronel Marcus Vinicius Gonçalves de Oliveira, comandante do 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM), que é responsável pelo patrulhamento nas redondezas da Vila Planetário, não há informações sobre tráfico de drogas por moradores de rua no local, nem mesmo estatísticas que relacionem eles a crimes como roubos e furtos.

Em busca de proteção

Os moradores de rua que ocupam as margens do Dilúvio ao mesmo tempo querem e não querem ser vistos, de acordo com o sociólogo e professor de Direito Constitucional Antônio Marcelo Pacheco, que há três anos viveu entre os sem-teto para fazer pesquisar sobre o tema.

— Eles buscam se confundir com a paisagem, mas, mesmo assim, buscam ser vistos pelas pessoas, ser percebidos só naquilo que é realmente útil para a sua proteção — diz o especialista.

Eles têm a sensação de segurança por estarem em uma avenida movimentada e com câmeras de vigilância no comércio. Pacheco afirma que, ao mesmo tempo que alguns moradores de rua não se interessam por políticas assistenciais por questões ilícitas, também há quem busque o direito de viver a vida que quiser, reivindicando que a sociedade aceite sua escolha. Para esses pessoas, o albergue às vezes representa uma prisão, e a abordagem da assistência, uma invasão.

Antônio conviveu com moradores de rua no entorno do Dilúvio durante sua pesquisa e, conta, tiram inclusive a água que bebem do arroio poluído. Ele utilizou a experiência em artigos e nas suas aulas. 

Casinha em frente à EPTC foi removida

Um casebre feito de pedaços de madeira e lona havia se materializado na margem do Dilúvio, em frente ao prédio da EPTC. Entre a movimentada Avenida Ipiranga e a sujeira do arroio, uma moradora de rua de meia idade fazia feijão no fogo que acendeu com pedaços de galhos na tarde de quarta-feira. Identificando-se como Adriana, a mulher disse que ergueu a estrutura depois que deixou a Rua Voluntários da Pátria, onde outros moradores de rua teriam sido hostis com ela, e que se sente mais protegida ali.

Até esta quinta-feira, Adriana era a "dona" da barraca mais elaborada junto do arroio: o casebre, que foi removido entre quinta e sexta-feira, tinha pelo menos três metros de comprimento e até tapete. A Brigada Militar e a Prefeitura informam que não têm conhecimento sobre a remoção. 

Foto: Jéssica Rebeca Weber / Agência RBS

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