A rua como museu

De "supertetas" a zebra sem rabo: pedestres interpretam esculturas de Porto Alegre

Pelas Ruas propôs a moradores e visitantes que parassem por um instante para admirar e tirar conclusões sobre obras de arte em espaços públicos

Por: Jéssica Rebeca Weber
01/09/2016 - 17h14min | Atualizada em 19/09/2016 - 18h55min

Porto Alegre tem cerca de 300 obras de arte distribuídas em espaços públicos. São monumentos — que celebram algum acontecimento, personalidade, grupo social ou ideia — e esculturas contemporâneas "que devem ser plurais como a sociedade, de fato, é", segundo o doutor em história da arte José Francisco Alves. Por mais diversificada que seja, essa gigantesca exposição a céu aberto às vezes fica invisível no cotidiano veloz da Capital.

Na tarde de terça-feira, o ZH Pelas Ruas pediu a moradores e visitantes que parassem um instante e tentassem interpretar o significado de algumas das esculturas mais singulares, como se estivessem em um museu. Começando por uma obra efêmera, composta por elevações cobertas de grama, montada em área mais isolada do Parque Marinha do Brasil, junto à Avenida Edvaldo Pereira Paiva. Inaugurada no final de semana, muita gente não havia reparado que era arte. Tales Reis, 30 anos, administrador, não tinha visto o trabalho antes de ser consultado pela reportagem, mas deu seu palpite:

— Pode ser o contraste entre a natureza e a cidade?

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No trabalho Três Morros (entre ilhas), que ficará por 90 dias no local, a artista plástica Marina Camargo procurou homenagear Porto Alegre a partir da observação da paisagem da capital gaúcha, destacando as silhuetas dos morros da Glória, do Osso e Santa Teresa. A obra de Marina é uma das ganhadoras do Prêmio Arte Monumento Brasil 2016 – Olimpíadas 2016, promovido pela Funarte/MinC, e foi escolhida pela Comissão Técnica Permanente de Avaliação de Projetos de Obras de Arte, Monumentos e Marcos Comemorativos (Comarp), da prefeitura de Porto Alegre.

Obra no Parque Marinha destaca as silhuetas dos morros da Glória, do Osso e Santa Teresa Foto: Jéssica Rebeca Weber / Agência RBS

Para José Francisco Alves, os monumentos e obras de arte nas ruas têm a missão de dar beleza a espaços públicos, transmitindo emoção, e "as pessoas devem entender que se trata de um tipo de linguagem". 

— Não existe um monumento dirigido para todo mundo, ou uma obra que se comunique para todos. A parte que não é atingida tem de conviver com isso — diz o especialista, que é também professor de escultura. 

Supercuia

A dois quilômetros dali, o monumento em fibra de vidro Supercuia foi instalado em 2004 na rótula entre as avenidas Augusto de Carvalho e Edvaldo Pereira Paiva, ao lado do Parque Harmonia. Na peça criada por Saint Clair Cemin para a Bienal, interagem as formas de figuras geométricas com linhas que lembram as tradicionais cuias gaúchas. Mas...

— Popularmente, o pessoal diz que são tetas — ri o professor Jones Budrys, 53 anos.

No monumento, inclusive, foi pendurado um boneco de bebê para promover a campanha de amamentação em 2012.

Obra criada para a Bienal tem formas de figuras geométricas com linhas que lembram as tradicionais cuias gaúchas Foto: Jéssica Rebeca Weber / Agência RBS

Túnel do Túnel

A escultura Túnel do Túnel, que fica junto à entrada do Túnel da Conceição (sentido bairro-Centro), foi a vencedora de um concurso da prefeitura em 1996. A obra da artista plástica Tina Felice, em aço e postes, propõe um diálogo com o túnel que recebe intenso tráfego de veículos diariamente, como sugere o próprio nome. Para o comerciante Marcelo Madeira, 46 anos, lembra uma roda de carreta:

— Podia ser uma torre caída também.

A técnica em enfermagem Claudini Kubiaki, 26 anos, observou por alguns segundos, pensou e repensou, mas não conseguiu chegar a uma conclusão:

— Pra mim, é uma coisa que caiu e ficou ali esquecida.

Feita em aço e postes, obra propõe um diálogo com o Túnel da Conceição Foto: Jéssica Rebeca Weber / Agência RBS

Estrela Guia II

Em 2002, à época da inauguração da Estrela Guia II, instalada na Avenida Padre Cacique, o autor Gustavo Nakl contou a ZH que a ideia da escultura é passar uma mensagem de tolerância. Ele explicou que no centro há um carneiro, como símbolo da oferenda, com duas faces, uma feminina, outra masculina, mostrando a harmonia.

A cuidadora Dilma Queiróz Gomes, 65, até viu que há um bicho no meio da obra, mas não acertou qual:

— É uma zebra? Mas não tem rabo...

Michele Moreira Farias, 36, técnica de enfermagem, especula que a estrutura ao redor do carneiro é um timão de barco:

— Primeiro eu olhava e ria. Já tive várias opiniões. 

Carneiro de duas faces representa tolerância e harmonia Foto: Jéssica Rebeca Weber / Agência RBS

Michele destaca que, no dia a dia, passa muito rápido pelas esculturas, mas que, quando alguma lhe interessa muito, chega a voltar para observar. 

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