Pelas Ruas

Há um mês, africanos compartilham lições de francês e de vida em iniciativa social em Porto Alegre

Projeto Bonne Chance promove aulas do idioma com imigrantes. Lista de espera por vagas já conta com cerca de 3 mil inscritos

Por: Jéssica Rebeca Weber
09/11/2016 - 05h10min | Atualizada em 09/11/2016 - 05h10min
Há um mês, africanos compartilham lições de francês e de vida em iniciativa social em Porto Alegre Felipe Nogs/Agencia RBS
Mawloud Junior durante atividades com uma das turmas do projeto, no bairro Floresta Foto: Felipe Nogs / Agencia RBS

Mawloud Sourang Junior, 28 anos, recebe os alunos com uma saudação grafada em francês na lousa e um sorriso no rosto. Em um mês como professor do idioma no projeto Bonne Chance (que, em francês, quer dizer "boa sorte" ou "que dê tudo certo"), o senegalês passa menos tempo nas ruas de Porto Alegre, onde vendia fones de ouvido e carregadores havia meio ano. 

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Sinal de que a iniciativa tem feito jus ao nome: já aumentou a renda e a autoestima.

– Agora é diferente de quando cheguei, consigo compartilhar muita coisa com o brasileiro – diz.

As aulas de francês tendo imigrantes africanos como professores ocorrem no complexo Vila Flores, no bairro Floresta, desde 10 de outubro, e têm cerca de 150 alunos em 12 turmas. Além de Junior – que teve a história contada pelo ZH Pelas Ruas em setembro —, participam o mecânico Thiecoutá, o ambulante Moussa e o músico Loua, único da Costa do Marfim.

A iniciativa foi idealizada pela jornalista e socióloga Ana Emília Cardoso, 39 anos, a quem incomodava a sensação de que os imigrantes são tratados como invisíveis. Com a ajuda da amiga Marjorie Hattge, professora de inglês, lançou a ideia no Facebook e se surpreendeu com a quantidade de interessados.

Troca cultural entre brasileiros e africanos

O projeto tem lista de espera de 3 mil pessoas. Atualmente, não recebe novas inscrições. Ana explica que se evitou criar mais turmas porque é preciso capacitar os professores. Os imigrantes fazem encontros com a doutora em Letras Paola Guimarães Salimen, em que aprendem práticas pedagógicas e preparam as aulas.

— Estão se desenvolvendo muito rápido, eles mesmo dizem que estão mais confiantes — relata Paola.

— A receptividade dos alunos é muito bacana, de ter uma aula de francês com um professor que tem um sotaque diferente e que vai falar da África e não da França, como fazem os professores tradicionais — corrobora Ana Emília.

Os alunos garantem que os professores "se puxam" nas aulas. Para Leonardo Szeckir, 21 anos, a troca de experiências é tão proveitosa quanto aprender uma nova língua:

– A gente consegue aprender sobre a cultura deles e passar um pouco da nossa também. 


 
 
 
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