Tribo universitária

Indígenas encaram desafios para obter o diploma nas universidades

UFRGS oferece vestibular específico e atrai indígenas de todo o país

Por: Bruna Porciúncula
18/04/2015 - 16h03min
Indígenas encaram desafios para obter o diploma nas universidades Marcelo Oliveira/Agencia RBS
Leocir é caingangue e espera se formar em Fisioterapia Foto: Marcelo Oliveira / Agencia RBS  

No entra e sai de um final de tarde na Casa do Estudante da UFRGS, na turbulenta Avenida João Pessoa, em Porto Alegre, Leocir Muller Ribeiro, 21 anos, navega pelas redes sociais, pesquisa no Google e tenta reanimar o telefone celular desconfigurado em uma das áreas de convivência dos estudantes, no quarto andar do prédio.

Leocir é índio, um caingangue de pele morena, cabelo preto como a asa da graúna e sorriso fácil. Está mergulhado nos estudos do curso de Fisioterapia da universidade, onde foi aprovado em 2012 e de onde pretende sair diplomado no ano que vem. Ele é um dos 76 indígenas que ingressaram na universidade desde 2008 pelo vestibular especial. Três já se formaram, e 52 ainda não desistiram da formatura

Universidades de SC se destacam nas ações voltadas aos índios 
UFSM projeta moradias para estudantes indígenas

– É difícil se adaptar, é outra cultura. Quando cheguei na UFRGS, foi um baque. Não entendia muita coisa que os professores falavam. Alguns termos eu anotava na aula e, depois, pesquisava em casa. Se tu queres aprender, tem de correr atrás. Estar na UFRGS tem um status, eu não sabia disso até chegar aqui – diz Leocir.

Abandonar o curso é a saída extrema que alguns universitários índios encontram para aplacar as dificuldades frente à nova rotina. Mas esse não é um caminho exclusivo dos indígenas, apesar de eles terem um obstáculo a mais para a permanência.

– Há uma soma de fatores que refletem na permanência do aluno na universidade, questões sociais que atingem qualquer estudante, mas os indígenas têm uma cultura diferente, o vínculo com a família e a aldeia. Precisam desta adaptação também – explica o diretor do Departamento dos Programas de Acesso e Permanência da UFRGS, Edilson Nabarro.

Leocir, filho de um caingangue e de uma descendente de imigrantes alemães, já conhecia bem a cidade grande quando chegou ao Ensino Superior. Aos 17 anos, ele deixou a aldeia Guarita, a maior área caingangue no Rio Grande do Sul, no norte do Estado, para tentar a carreira de jogador de futebol em Florianópolis. Em 2011, foi jogar no União Frederiquense, de Frederico Westphalen, e ganhava cerca de R$ 1 mil como atacante da equipe quando soube que havia sido aprovado no vestibular da UFRGS.

Em vídeo, estudantes indígenas falam sobre os desafios para obter o diploma:

A Fisioterapia foi uma escolha motivada pela paixão pelo futebol. Naquele ano, não houve oferta de cursos ligados à área esportiva, como Educação Física, então, ele optou por uma graduação que pudesse se relacionar com o mundo das chuteiras. Leocir joga na seleção da universidade, mas sabe que o sonho de ser jogador precisou ser abandonado. Adaptou-se, mas quer voltar para a aldeia:

– A saúde é muito precária na aldeia, quero ajudar meu povo.

Cursos de saúde disparam na preferência dos indígenas

É pelo povo indígena, e um tanto pelo estímulo dos colegas, que a caloura de Enfermagem Janaina Bento Pereira, 17 anos, tem se mantido firme no propósito de terminar a graduação na UFRGS. Guarani da aldeia de Mato Preto, em Getúlio Vargas, no norte do Estado, ela também mora na Casa do Estudante e divide o quarto com outra estudante indígena.

Tímida e de pouquíssimas palavras, Jana ainda não está à vontade na nova rotina em Porto Alegre. O barulho do trânsito a incomoda – ela trocou de quarto na moradia estudantil por causa da zoeira na Avenida João Pessoa –, sente falta da irmã mais nova, de dois meses, recém-nascida quando ela deixou a aldeia para morar na Capital, e vê reduzida às férias e aos feriados as oportunidades de se reunir com a família. O sacrifício faz parte da meta de se tornar a primeira guarani de sua aldeia a ter um diploma do Ensino Superior, e a enfermagem não foi uma escolha aleatória.

– É uma profissão que tem mais contato com o paciente, e meu povo precisa. Por lá, temos uma técnica em enfermagem caingangue que ajuda, mas é só. Estou aqui por eles, pelos meus colegas e pelos meus pais – diz Janaina, observada por mais duas estudantes indígenas, que deixam a sala de informática da Casa do Estudante logo que percebem a intenção da reportagem de entrevistá-las.

 

Os guaranis são a segunda etnia indígena com maior número de estudantes na UFRGS, com 12 matriculados. Em primeiro, estão os caingangues, que somam 62 alunos. Os cursos mais procurados são Medicina, Enfermagem e Odontologia, e isso tem uma razão. A instituição, desde 2008, quando instituiu o vestibular específico para indígenas, oferece uma vaga por curso em até 10 graduações escolhidas anualmente de acordo com o que se decide junto às lideranças indígenas em uma assembleia apoiada pelo Conselho Estadual dos Povos Indígenas (Cepi). Pelas dificuldades de acesso à saúde de algumas aldeias, os cursos dessa área disparam na preferência. Como o vestibular regular da universidade, a seleção específica para índios é aberta a candidatos de todo o país e tem sido procurada por indígenas de outros pagos.

A caloura de Medicina Tauany Maria Ferraz Lopes, 18 anos, da etnia fulni-ô, saiu do Recife (PE) para desbravar a maior universidade federal do Rio Grande do Sul. Antes de ser aprovada no vestibular específico da UFRGS, ela já havia enfrentado duas seleções regulares no Nordeste e outra como candidata cotista em uma instituição do Paraná. A aprovação e a mudança para Porto Alegre, cidade que ainda está descobrindo, foram o começo da realização de um sonho.

Tauany é filha de um médico veterinário e de uma enfermeira indígena. Ela tem consciência de que é privilegiada, porque tem pais que conseguiram estudar e estimularam a busca pelo conhecimento nos filhos – o irmão de Tauany está prestes a se formar em Medicina pela Universidade Federal do Tocantins –, mas entende que, sem um olhar diferenciado da universidade para o aluno indígena desde o processo seletivo, o acesso desses estudantes ao Ensino Superior continuaria precário. Em pouco mais de dois meses na Capital, Tauany procurou conhecer indígenas das etnias locais.

Queria trocar informações sobre suas culturas e vencer todos os obstáculos que o puxado curso de Medicina impõe a qualquer estudante. Vira noites estudando e dias tateando a nova cidade. A caloura do curso mais concorrido da UFRGS tem um remédio para possíveis indagações preconceituosas: identidade.

– Eu sei o que sou e tenho muito orgulho do que sou. O meu desejo é trabalhar a medicina com o povo fulni-ô – revela Tauany.

Uma academia distante dos povos

 

O caminho que Janaina e Tauany iniciaram neste ano e que Leocir ainda trilha rumo a um diploma universitário já está quase vencido pelo caingangue Josias Loureiro de Mello, 27 anos. Ele deve se formar no final do ano em Pedagogia pela UFRGS. Fazendo um balanço dos desafios e das conquistas desde que ingressou na faculdade, ele aposta que aprendeu muito na academia, mas também ensinou.

Em referência ao líder do povo baniwa Gersem dos Santos Luciano, professor da Universidade Federal do Amazonas e um pensador renomado quando o assunto é educação e povos indígenas brasileiros, Josias acredita que os índios de hoje precisam conhecer os costumes e a organização social fora de suas aldeias para poderem se capacitar e ajudar suas comunidades.

As ações afirmativas nas universidades, que garantem moradia, alimentação e bolsas especiais aos estudantes indígenas, são um passo importante para essa sobrevivência, mas o futuro pedagogo ainda vê um distanciamento entre a instituição e esses alunos.

– Moramos no Brasil, mas a academia é europeia. Ouvi muita coisa que não tem nada a ver com a cultura caingangue, com o modo como meu povo vive, com o que aprendi na aldeia. Mas eu estava na sala de aula para questionar, para discutir. Isso foi bom. Olha, alguns professores até tomavam mais cuidado na hora de falar de indígenas porque, agora, sabiam que tinha um índio ali – diverte-se o estudante.

Josias reclama mais ações de incentivo ao Ensino Superior nas aldeias. Ele mesmo só cogitou fazer uma graduação porque contou com o incentivo da mulher, a enfermeira Denize Letícia Marcolino, primeira indígena a se formar na UFRGS, em 2012. Como sempre "admirou pessoas inteligentes", ele queria aprender mais, mas não faltou quem questionasse a sua escolha por abandonar a rotina nas lavouras de milho, soja e feijão na Aldeia Pinhalzinho, em Planalto, no norte do Estado para se dedicar à pedagogia:

– Sempre vinha um e perguntava: "Mas o que tu queres com pedagogia? Vai fazer outra coisa".

Josias não seguiu o "conselho" como muitos esperavam que fizesse, mesmo depois que deparou com as dificuldades do início do curso. Não só deve concluir a graduação e ampliar a lista de indígenas formados na UFRGS – até agora apenas três receberam o diploma pela instituição, incluindo Denize – como pretende fazer uma pós-graduação, em que voltará os estudos para um tema ligado à sociologia. Josias quer ajudar a formar uma educação indígena no país que, historicamente, deixou os índios de lado em sua formação cultural. Antes disso, vai celebrar a formatura entre sua gente
.

 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.