Ensino Fundamental

Ano letivo começa com estreia do 9º ano na maioria das escolas particulares

Nova etapa ocorre agora porque, em 2008, a maioria das escolas privadas alterou a duração do ciclo educacional de oito para nove anos

Por: Fernanda da Costa
20/02/2016 - 11h03min
Ano letivo começa com estreia do 9º ano na maioria das escolas particulares Diego Vara/Agencia RBS
Sinodal é uma das escolas do Estado onde haverá estreia do 9º ano Foto: Diego Vara / Agencia RBS

Milhares de alunos da rede particular do Estado entrarão pela primeira vez no 9º ano do Ensino Fundamental em 2016. Eles estreiam na nova etapa porque, em 2008, a maioria das escolas privadas alterou a duração do ciclo educacional de oito para nove anos.

A mudança foi determinada em fevereiro de 2006, por meio de uma lei federal. A medida estipulou que todas as escolas, públicas e particulares, deveriam aderir ao novo modelo até 2010, com matrícula a partir dos seis anos, e não dos sete. A idade da chegada ao Ensino Médio permanece a mesma, 15 anos, mas os alunos do novo sistema terão um ano a mais de preparação.

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— O 9º ano é o encerramento de uma etapa que ganhou um ano a mais no início, apostando na alfabetização e no letramento. Mas nem por isso podemos fazer a comparação do 9º ano à antiga 8ª série. É um ano diferente, que encerra um ciclo diferente — afirma a professora do curso de Pedagogia da Unisinos, Regina Urmersbach.

Especialista em alfabetização e gestão da educação, Regina afirma que o novo modelo se diferencia no respeito ao ritmo de cada criança e na possibilidade de explorar mais os conteúdos. Mais do que um currículo ampliado, o ensino de nove anos pretende ter uma metodologia de trabalho mais individualizada, segundo a pesquisadora.

— A mudança tem o objetivo de melhorar a qualidade de ensino e, para isso, não pode significar apenas um ano a mais. É preciso que toda a comunidade escolar assuma esse compromisso de qualificação — completa.

Professora do Colégio Sinodal, em São Leopoldo, Elisabeth Victoria Haas, 66 anos, conta que já passou por várias mudanças na educação em seus 42 anos de magistério, mas nenhuma com tanta expectativa como o 9º ano. Para ela, ter uma etapa a mais no Ensino Fundamental tornará o ingresso no Ensino Médio mais tranquilo para os alunos.

— A entrada no Ensino Médio sempre foi muito traumática, porque vinha com componentes curriculares assustadores como física e química, que, agora, optamos por trabalhar de forma mais tranquila já no 9º ano. Com isso, acredito que essa passagem se tornará mais fácil — explica.

Na visão dos alunos, o nono ano enfrentou resistência no início, mas depois foi aceito como um tempo a mais de preparação aos desafios do Ensino Médio, que incluem a escolha da profissão.

— Quando veio a novidade, ninguém gostou muito, porque ia ser mais um ano no colégio estudando, mais um ano com prova. Mas depois, todo mundo acabou vendo que ia ser mais um ano para pensar o que tu quer para a vida — afirma Paula Kahle, 14 anos, aluna de uma das primeiras turmas do 9º ano do Colégio Farroupilha, em Porto Alegre.

Pai da estudante, o advogado Bruno Kahle Filho, 52 anos, conta que as famílias apoiaram o novo modelo desde o início.

— Como pai, eu acho essa mudança excelente. Espero que a escola garanta mais preparação para o Enem e para o mercado de trabalho — diz.

Mudança criará lacuna no Ensino Médio

No Rio Grande do Sul, conforme o Sindicato do Ensino Privado do Estado (Sinepe), a maioria das escolas particulares iniciou a transição em 2008. Os últimos alunos do Ensino Fundamental com duração de oito anos foram matriculados em 2007 e ingressaram no Ensino Médio em 2015. Como os primeiros alunos do modelo de nove anos permanecerão no Fundamental em 2016, em algumas escolas não haverá turmas do 1º ano do Ensino Médio. Em 2017, não haverá turmas do 2º ano e, em 2018, do 3º.

Problemão para os estudantes do antigo modelo que rodaram (ou rodarão). Para quem foi reprovado em um dos colégios particulares que não oferecerão a série neste ano, a saída foi buscar outra instituição.

Isso aconteceu, por exemplo, no Colégio Israelita Brasileiro, onde apenas dois alunos do 1º ano do Ensino Médio teriam de repetir. Por serem casos pontuais, de alunos que entraram no meio do período letivo, eles decidiram procurar outra escola.

— O impacto de não ter um ano foi grande na questão dos professores. Foi preciso jogo de cintura para distribuir (os docentes) entre as turmas e planejar esses três anos. Um professor de Ensino Médio às vezes não está preparado para dar aula no Fundamental, mas assumimos o compromisso de manter todo o nosso quadro — explica o superintendente-geral do Israelita, Janio Alves.

O mesmo ocorreu no Colégio Farroupilha, também na Capital. Com apenas três alunos do 1º ano do Ensino Médio reprovados no ano passado, a escola não conseguiu montar uma turma este ano, e eles tiveram de deixar a instituição.

— Alunos que repetiram em até duas disciplinas puderam continuar na escola, no sistema de progressão parcial (dependência) — informa Marícia Ferri, diretora pedagógica do Farroupilha.

Graças a novas matrículas, o Colégio Sinodal, de São Leopoldo, conseguiu fechar uma turma de 1º ano do Ensino Médio que, com 29 alunos, acolherá também quem repetiu em 2015.

— Como serão alunos novos e reprovados, será uma turma que merece muita atenção, com aulas de adaptação — diz Merlinde Piening Kohl, coordenadora pedagógica do Sinodal.

Rede pública mudou antes

Na rede estadual, os colégios migraram para o ensino de nove anos em 2006, e os alunos matriculados no novo sistema chegaram ao 9º ano em 2015. Neste ano, apesar da mudança, o Estado não deixou de formar turmas do 1º ano do Ensino Médio. Isso porque a rede é uma "legião", segundo a diretora pedagógica da Secretaria Estadual da Educação (Seduc), Márcia Coiro. São mais de 900 mil alunos, 60 mil docentes e 2,5 mil escolas. Assim, se uma instituição ficou sem turmas, outra poderia oferecer.

— Temos mais turmas e mais demandas. Além disso, a cada ano letivo, fazemos uma projeção para o ano seguinte, para ajustar as salas de aula e o trabalho dos professores — relata Márcia.

Nas escolas particulares, muitas vezes com apenas duas ou três turmas em cada ano, formar grupos com menos de 10 alunos fica muito difícil.

Já na rede pública de Porto Alegre, a transição começou por meio de um decreto municipal de 1999. A medida estipulou que, até 2000, todas as escolas deveriam oferecer nove anos no Ensino Fundamental, embora a obrigatoriedade de matrícula fosse para apenas oito anos.

— A ideia do decreto foi criar três ciclos de três anos no Ensino Fundamental, sendo os três primeiros voltados à alfabetização — afirma Eliane Meleti, chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Educação (Smed).

Na prática, à época, o município oferecia o Ensino Fundamental a partir do Jardim B, mas os pais poderiam escolher se matriculavam o filho na etapa ou não. A obrigação legal era de incluir os filhos na primeira série aos sete anos.

Com a lei federal que determinava as matrículas a partir dos seis anos, cujo prazo para adequação era 2010, o Jardim B passou a ser chamado de "1º ano" e a 1ª série de "2º ano". Consequentemente, quem estava na 8ª série passou para o 9º ano, e não houve uma lacuna entre o ensinos Fundamental e o Médio.

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