Ensino

Secretário de Educação defende mudança de currículo para melhorar desempenho no Ensino Médio no RS

Dados do Índice de Desenvolvimento da Educação (Ideb), divulgados na quinta-feira, mostram que em vez de avançar na qualidade do ensino, o Rio Grande do Sul vem retrocedendo no Ensino Médio

Por: Bruna Porciuncula
09/09/2016 - 04h04min | Atualizada em 09/09/2016 - 04h04min
Secretário de Educação defende mudança de currículo para melhorar desempenho no Ensino Médio no RS Carlos Macedo/Agencia RBS
Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

O secretário estadual de Educação, Luís Antônio Alcoba de Freitas, deve se reunir nesta sexta-feira às 10h com as equipes Secretaria Estadual de Educação (Seduc) para avaliar os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação (Ideb), divulgados na quinta-feira. Os números mostram que, em vez de avançar na qualidade do ensino, o Rio Grande do Sul vem retrocedendo no Ensino Médio. 

Freitas diz que apostas locais têm sido feitas para tentar reverter o quadro. No ano passado, a Secretaria Estadual de Educação ampliou a carga horária do Ensino Médio (EM) de 800 horas/aula para 1 mil horas/aula ao ano e celebrou o recuo da taxa de abandono nessa etapa escolar de 10,1%, em 2013, para 8,1%, em 2015, assim como o aumento do índice de aprovação de 70,04% para 73% no mesmo período, pontos considerados no cálculo do Ideb. Tudo isso levou o secretário a concluir que o problema não está nas questões de evasão e aprovação, mas em fazer os estudantes do EM aprenderem os conteúdos cobrados no Saeb e na Prova Brasil, avaliações que servem de base ao índice e que envolvem testes de português e matemática a amostras de alunos das redes pública e privada do país.

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— Eles foram mal na prova e isso mostra que é preciso fazer uma mudança geral no currículo do Ensino Médio. É uma idade difícil, em que o estudante já pensa na sua formação profissional, ele quer um ensino com utilidade prática — diz Alcoba, que deve se reunir nesta sexta-feira às 10h com as equipes da Seduc para avaliar os dados.

Em 2012, no governo Tarso Genro (PT), a Seduc implantou um projeto batizado de Ensino Médio Politécnico, em que se pretendia usar o mundo do trabalho como eixo para o ensino das disciplinas tradicionais. Os estudantes dedicariam parte do período na escola a pesquisas em eixos temáticos. Com a mudança na administração, a proposta foi mantida, assim como as controvérsias da época em que foi lançada. Tudo porque, segundo informações da Seduc, da forma como foi implantada, a proposta acarretou prejuízos, principalmente de tempo, ao ensino de matérias cobradas no Enem.

Coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara enfatiza as matizes regionais das deficiências do EM que precisam ser enfrentadas mas ressalta que, do Oiapoque ao Chuí, o sistema de ensino não têm conseguido se tornar atrativo aos jovens porque precisa melhorar o trabalho pedagógico na escola. Para isso, aponta algumas premissas, entre elas, ouvir os alunos e valorizar os professores:

— A gestão da Educação no RS não é prioridade real, não se tem um bom projeto. Uma boa política de educação só é bem-sucedida quando os educadores estão à frente da tomada de decisões.



Escolas privadas reclamam transparência nos dados

O recado de Daniel Cara pode dar a impressão de que o desempenho abaixo das metas é um desconforto apenas para a escola pública. No entanto, o Ideb também revelou que as instituições privadas de ensino, mesmo com infraestrutura mais adequada e com alunos de melhor repertório cultural, não alcançaram os objetivos definidos pelo indicador. No Rio Grande do Sul, essas escolas registraram em 2015 o mesmo índice de 2013, 5,7, diante de meta de 6,5 para o Ensino Médio. Assim como as públicas, obtiveram um desempenho melhor no Ensino Fundamental, batendo a meta nos anos iniciais (4º e 5º anos).

O presidente do Sindicato do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinepe-RS), Bruno Eizerik, pondera que o Ideb avalia uma amostra de estudantes e não todos os matriculados e que não há clareza na forma como é formulado o objetivo a ser alcançado.

— Realmente, ainda não avaliamos os dados a fundo. Queremos saber quais escolas foram avaliadas, se são as mesmas de 2013. Estamos abaixo de uma meta que não criamos e em uma amostra que não conhecemos, então, fica difícil avaliar — critica Eizerik.

Olavo Nogueira Filho, gerente de projetos do movimento Todos Pela Educação (TPE), entende que os resultados das particulares no Ideb nada mais são do que uma prova de que é ilusória a superioridade do ensino privado em relação ao público. Além de uma reestruturação curricular no Ensino Médio, algo já em discussão no Congresso Nacional, o problema envolve uma questão que bate à porta de todas as escolas, independentemente da rede: formação de professores.

— A estrutura (de formação e aperfeiçoamento) oferecida aos nossos professores deixa muito a desejar. E não é achismo. Em uma pesquisa nacional, 75% dos professores informaram que não se sentem preparados para formar seus alunos.

No cenário gaúcho, Nogueira ressalta que os índices do Ensino Médio merecem, sim, extrema atenção, mas reforçou que no Ensino Fundamental também há muito a ser feito, especialmente nos anos finais (8º e 9º), em que as metas não são batidas e os resultados respingam diretamente no Ensino Médio. Considerando a condição socioeconômica do Estado, que não figura entre os mais pobres do país, Nogueira resume como esses índices devem ser encarados:

— São mesmo para levantar um grande alarme.

*Colaborou Mariana Fritsch

 






 
 
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