P1872 - 2015

Casa Branca destaca iniciativa desenvolvida com participação da UFRGS na comunicação entre robôs

Criado por grupo de trabalho que contou com representantes do Instituto de Informática da universidade gaúcha, modelo ganhou destaque nos EUA

Por: Guilherme Justino
19/10/2016 - 17h24min | Atualizada em 27/10/2016 - 13h44min
Casa Branca destaca iniciativa desenvolvida com participação da UFRGS na comunicação entre robôs Edson Prestes e Silva Junior / Arquivo pessoal/Arquivo pessoal
Membros do grupo de trabalho responsável pelo desenvolvimento do padrão de robótica levaram certificação internacional Foto: Edson Prestes e Silva Junior / Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

Hoje, é assim: cada empresa de robótica desenvolve uma máquina como bem entende. Se o protótipo foi feito para limpar os cômodos da casa, é isso o que ele vai fazer. Se outro, ainda que seja da mesma empresa, foi planejado para fechar as janelas quando chove, está aí a sua função — e nada mais. Mas e se um detectar que tem alguma coisa jogando, digamos, terra pelas frestas de casa, será que não poderia receber uma ajudinha do robô fechador de janelas?

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Pois foi para permitir interações como essa — e outras talvez bem menos prosaicas — que o Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE), uma sociedade internacional de engenheiros, desenvolveu um padrão capaz de permitir a comunicação entre os robôs, mesmo com funções variadas ou de empresas diferentes. A inovação foi possível graças ao trabalho de 140 pesquisadores de 20 países, entre eles integrantes do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

— É mais ou menos o mesmo princípio do Wi-Fi: para que a rede sem fio consiga transmitir dados para o computador, para o celular e a TV, todos têm que seguir um padrão — explica Edson Prestes, professor do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e vice-presidente do grupo responsável pela criação do novo padrão.

Voltemos ao exemplo anterior. E digamos que os robôs domésticos estivessem programados para se comunicarem um com o outro, algo que não acontece atualmente. Como eles poderiam fazer isso? Se tiverem padrões diferentes, é como se o robô limpador, se comunicando em chinês, tentasse dizer ao fechador de janelas, bom falante do português, o que fazer. E sem gesticular. Não daria certo. Faltaria uma língua intermediária para eles se entenderem. Um padrão.

Trabalho recebeu menção da Casa Branca

E o desenvolvimento desse padrão, batizado P1872-2015, rendeu frutos aos seus criadores. Em uma conferência voltada para apresentar as novidades e perspectivas dentro do desenvolvimento da inteligência artificial (IA) no mundo, reconhecendo sua importância para o futuro, a Casa Branca publicou um relatório em que, além de mencionar preocupações como cibersegurança e o impacto dos robôs na força de trabalho, elogia a criação de padrões para a prática, destacando a iniciativa que teve participação brasileira.

"Um exemplo de padrão relacionado à inteligência artificial que foi desenvolvido é o P1872-2015 (Standard Ontologies for Robotics and Automation), desenvolvido pelo Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE). Esse padrão garante uma maneira sistemática de representar o conhecimento e uma série comum de termos e definições. Eles permitem a transferência inequívoca de conhecimento entre humanos, robôs e outros sistemas artificiais, além de permitir uma base fundacional para a aplicação de tecnologias de inteligência artificial na robótica."

A publicação destaca que esse é um primeiro passo importante, mas ainda é preciso trabalhar mais no desenvolvimento de padrões para a inteligência artificial — esforço que, conforme o governo americano, é importante para todas as áreas envolvidas na IA. Conforme Edson Prestes, da UFRGS, essa é só a primeira semente, e ainda há muitos frutos a serem colhidas da iniciativa.

O professor explica que o padrão não é uma exigência, que deverá ser seguida por todos os fabricantes de robôs, mas uma recomendação, um padrão que se soma a outros já existentes, como da International Organization for Standardization (ISO) e do European Telecommunications Standards Institute (ETSI). A previsão é que as indústrias se interessem pelo tema e passem a adotar o modelo em busca de vantagens dentro das suas criações.

Mas há também riscos envolvidos. Os pesquisadores não descartam a possibilidade de que a comunicação entre os robôs dê errado, ou seja mal utilizada, e para isso têm se preocupado em criar códigos de conduta para as atividades das máquinas. Poderia esse ser o início do desenvolvimento de robôs pensantes? O professor Prestes se diverte respondendo:

— Qualquer área pode ser utilizada para malefícios. Para que tu tenhas um robô dominando o mundo, tu precisas ter um robô que tenha consciência. E chegar a esse ponto de ter consciência humana é complicado. O ser humano não consegue entender ele mesmo. Como é que ele vai pegar e implementar isso em uma máquina? Vai ser muito difícil ver robôs que tenham consciência.

* Zero Hora

 






 
 
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