Superação

A história de Marina Pompeu, 27 anos, graduada com nota máxima em Artes Visuais na Furg

Estudante defendeu o trabalho de conclusão de curso nesta quinta-feira, na Universidade Federal do Rio Grande

Por: Rafael Diverio - de Rio Grande
16/02/2017 - 15h41min | Atualizada em 16/02/2017 - 18h41min
A história de Marina Pompeu, 27 anos, graduada com nota máxima em Artes Visuais na Furg Félix Zucco/Agencia RBS
Marina ao lado da mãe, Dóris Marandini Foto: Félix Zucco / Agencia RBS  

Marina Marandini Pompeu defendeu o TCC em Artes Visuais nesta quinta-feira na Universidade Federal do Rio Grande (Furg), no sul do Estado. Aos 27 anos, recebeu nota máxima na banca que contou com professores especializados em história da arte e pintura — dentre eles, via skype, a doutora Tamara Quírico, autoridade brasileira no assunto. Com desenvoltura, explicou passo a passo seu trabalho, que misturou tintas e danças, mostrando, basicamente, a diferença de quadros e desenhos de acordo com a música que tocava ao fundo. Foi elogiada pela performance e pela qualidade do material escrito e ilustrado.

É o fim de uma vida acadêmica complicada, mas desde a infância enfrentada com bravura também pela mãe, Dóris Marandini, professora de matemática. Na pré-escola, contaram com a coragem de um diretor que, ao ser confrontado por 30 raivosos pais que não queriam ver seus filhos ao lado de Marina, avisou: "Podem sair os 30, ela fica".

Sob a supervisão de professores particulares, Marina estudou no contraturno das aulas regulares. Não repetiu o ano. Passou no vestibular na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde a família morava ao final do ensino médio. Com o retorno a Rio Grande, batalhou na Justiça para ser transferida para a Furg. Venceu. E tinha razão Marina, quando alertou Zero Hora em 10 de março de 2012, data da vitória nos tribunais:

— Agora vai começar o desafio de verdade.

Os dois primeiros anos foram duros. Alunos e professores não sabiam como lidar com ela. Era uma novidade que doía a ponto de Marina precisar ser atendida por um psicólogo, para lidar com a pressão e a frustração das notas mais baixas. A mãe fraquejou, pensou que sofrimento da filha pudesse obrigá-la a desistir.

Então surgiu Carlo Diego, acadêmico de artes. Bolsista do Programa de Apoio aos Estudantes com Necessidades Específicas (Paene-Furg), assumiu a tutoria de Marina. E a relação entre os dois transcendeu a de monitor/monitorado.

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— Carlo foi um anjo que caiu na nossa vida — resume Dóris.

Entre Carlo e Marina surgiu uma cumplicidade, uma amizade, uma sintonia. Era para ele que Marina olhava a cada slide da apresentação do TCC. Foi para o abraço dele que Marina correu assim que ouviu: "O trabalho recebeu conceito A, nota 10", da orientadora Vivian Paulitsch, arquiteta por formação, doutora em história da arte. Foi ele quem arrumou um lugar discreto para que Dóris assistisse à defesa sem que Marina notasse — a presença da mãe poderia inibir a jovem. Foi ele quem entregou os lenços de papel que Marina usou para enxugar as lágrimas a cada elogio que recebia na banca: "Marina é um exemplo para todos", "Marina é tão especial, é tão humana", "Marina é um presente para nós", "Marina venceu porque tem desejo", "Marina é um marco no Instituto de Letras e Artes", "Marina fez um trabalho que será usado como referência nesses casos".

— Marina foi aprovada nas minhas disciplinas porque mereceu. Não dei nada de presente. Ela frequentou as aulas, dedicou-se e, principalmente, evoluiu. Ela cresceu no curso — aponta o professor de pintura Michael Chapman, co-orientador.

Enquanto arrebatava 10 nas disciplinas dos anos finais da faculdade, Marina também estagiava no programa Escola Viva, da prefeitura de Rio Grande. Deslocava-se sozinha de sua casa, no centro da cidade, para o trabalho e para a faculdade. De ônibus e a pé. Fez amigas, como Karoline da Rosa, Simone Garima, Larissa Kras — também monitora do professor Chapman. Contou a elas sobre as dificuldades das aulas e sobre as aventuras e desventuras românticas de uma universitária. Mas era Carlo o amigo para correr quando as tarefas apertavam.

— Claro que tenho orgulho de ver ela se formar. Mas a verdade é que não fui eu que ajudei a Marina. Ela é a responsável pela minha formatura, me cobrou, principalmente horário e disciplina. Me incentivou e até me auxiliou nas matérias. Preciso, mesmo, é agradecer por tudo. Se não fosse ela, eu não estaria aprovado hoje — diz Carlo.

De fato, o projeto de Carlo tem a ver com Marina. Com a dificuldade que ela tinha nas disciplinas de gravuras, principalmente com tesouras e estiletes, ele desenvolveu uma ferramenta que evitava lesões e cortes na amiga. Usou isso como tema de seu TCC. Tirou 10.

Dez, aliás, será o próximo dia de abraços emocionado entre Marina e Carlo. Em março, os dois receberão o diploma e já prometeram não conter as lágrimas na cerimônia que ocorrerá no teatro da Furg. Depois, festejarão dançando as músicas que inspiraram os quadros, expostos até 30 de março no Partage Shopping, em Rio Grande:

— Ludmila, Anitta, Latino. Dancei balé, sapateado e jazz, mas agora gosto mesmo é de funk — revela a agora bacharel em artes da Furg.

Marina Marandini Pompeu tem síndrome de Down.

Veja mais fotos da defesa de TCC de Marina:


 
 
 
 
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