Gestão

Espiritualidade chega às organizações

A espiritualidade como forma de motivar equipes ganha espaço entre organizações que querem deixar o ambiente de trabalho acolhedor sem perder o foco na produtividade

15/03/2014 | 12h06
Espiritualidade chega às organizações Roni Rigon/Agencia RBS
Hospital Pompeia, de Caxias do Sul, criou o grupo Humanizar, que pensa ações de cuidado para os funcionários da instituição de saúde Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

Uma nova forma de engajar e motivar as equipes, construindo um bom clima organizacional, começa a ganhar espaço entre gestores de recursos humanos: a dimensão espiritual. Neste ano, a Universidade de Caxias do Sul (UCS) forma a primeira turma de um curso de pós-graduação com esse enfoque: Espiritualidade no Trabalho — organizações humanizadas e ecoengajadas.

O foco da especialização é a espiritualidade como ferramenta para gestão de pessoas. A ideia é ter um ambiente de trabalho acolhedor, sem perder de vista a prosperidade do empreendimento. A proposta foi idealizada pelo frei capuchinho e professor universitário Jaime Bettega quando fez seu mestrado e compreendeu a importância de investir em valores humanos nas organizações. Assim, planejou a especialização que é pioneira no Brasil por não ter vínculos com religião. A primeira turma teve como alunos empresários, gestores, profissionais da saúde e até um pastor.

— Espiritualidade é maior que a religião, é um movimento de sair da visão do que é melhor para mim para o que é melhor para todos. Essa transcendência pode ser motivada por um ideal, por uma filosofia de vida ou por um ser superior. Ela capacita a viver o perdão, o respeito e a tolerância, tão necessários no ambiente de trabalho. Por exemplo, se o normal seria a vingança, transcender será perdoar. Isso parte de todos, mas principalmente do líder — explica Bettega.

O frei relata que vê muitas empresas encontrando dificuldades em motivar funcionários, já que o salário não é mais fator principal de permanência. Segundo o professor, os profissionais de hoje querem ter um espaço de dignidade, de acolhida e de reconhecimento, que só empresas mais humanas conseguirão implantar.

— A motivação da empresa em buscar o lucro não a impede de tratar seus funcionários de forma mais humana, percebendo suas aspirações e limitações. Disponibilizar o PPR é um exemplo de espiritualidade com os funcionários — aponta Bettega.

A primeira turma do curso tem 25 alunos — dos quais nove são funcionários do Hospital Pompeia, de Caxias do Sul. Com o desafio constante de motivar 1,3 mil funcionários que lidam diariamente com um público em situação emocional delicada, a instituição formou desde 2002 o Humanizar, grupo entre os colaboradores que pensa ações para cuidar bem de quem precisa cuidar dos clientes: os trabalhadores da instituição. Parte desta equipe participou da especialização em Espiritualidade com o objetivo de profissionalizar as ações.

Satisfação se traduz em melhores resultados

— O Pompeia não é os equipamentos e o prédio, e sim as pessoas. É o cuidado, é o olhar do funcionário, que transmite o que é o Pompeia. Por isso investimos tanto no colaborador — destaca a superintendente administrativa do hospital, Daniele Meneguzzi.

O Humanizar organiza calendário mensal de treinamentos, palestras motivacionais e possibilita bolsa para especializações. Também realiza ações informais como lembranças de dias festivos e mural com agradecimento dos pacientes. O hospital fornece ainda espaço para descanso, acompanhamento nutricional e atividades físicas e esportivas.

— Muitos dos ex-funcionários retornam ao hospital querendo ser contratados novamente, pois dizem que o Pompeia é uma família, e não há salário que pague esse cuidado — relata a psicóloga Márcia Borner, coordenadora do Humanizar e aluna do curso.

Para Bettega, com uma equipe comprometida, a empresa terá ganhos materiais maiores.

— Pessoas mais felizes produzem e criam mais. Além de diminuir até as causas trabalhistas por questão de assédio. Ou seja, todos ganham quando o trabalho é um prazer — diz o idealizador da pós-graduação.

Exemplos de ações de caráter espiritual que podem ser adotadas pelos gestores

Criar oportunidades para ouvir a opinião dos funcionários

Tornar-se solidário com situações pontuais do colaborador, que envolvem família, problemas de saúde, entre outras

Promover momentos de formação e de reflexão durante a rotina

Desenvolver o Plano de Participação dos Resultados (PPR)

Elaborar o código de ética para nortear as relações humanas

Organizar momentos descontraídos, como amigo secreto, celebração de aniversário, café da manhã com os funcionários

Planejar espaços na empresa que remetam à natureza e transmitam bem-estar

Propiciar projetos sociais e de sustentabilidade que revelem o compromisso ético da empresa

Quatro olhares em uma mesma direção

Empresário

O economista Jones Pelini, 57 anos, proprietário de uma indústria de utilidades domésticas em Flores da Cunha, sempre buscou trabalhar os valores cristãos dentro da empresa por meio de palestras. Porém, fazia isso com certa timidez, já que tinha dúvidas sobre como seria recebido. Decidiu se especializar em espiritualidade para ver a um caráter mais científico do que estava propondo aos 19 funcionários.

Depois que cursou a pós-graduação, o empresário criou um grupo de funcionários que se reúnem a cada 15 dias. As conversas tratam de família, cotidiano e do que não está andando bem no trabalho.

— Os funcionários estão trabalhando com mais amor e carinho, o que repercutiu no relacionamento com clientes e fornecedores e aumentou a produtividade. Precisamos sentir que estamos trabalhando juntos — conta Pelini.

Pastor

Pastor da Igreja Luterana do Brasil, Arnildo Arthur Figur, 63 anos, viajou semanalmente de Novo Hamburgo a Caxias para realizar o curso. Além de ser o conselheiro distrital da religião, uma espécie de bispo, também é capelão do hospital da Unimed na cidade. Os serviços fizeram com que ele se questionasse sobre como motivar pessoas que lidam diariamente com conflitos do ser humano.

— A espiritualidade contribui para que os colegas de trabalho se recuperarem unidos dos problemas — diz Figur.

Embora o curso tenha sido idealizado por um frei católico, o pastor destaca que a espiritualidade não fala de religiões, e sim de formas de lidar com o ser humano:

— As empresas precisam ser mais humanas, e as igrejas mais profissionais, mais organizadas, de um modo a levar mais a sério o que fazem, já que lidam com pessoas.

Gerente de RH

Ivan Bolsoni, 34 anos, queria entender mais sobre o que estava por trás das relações entre o ser humano e a empresa. Gerente de RH da Suspensys há três anos, viu na espiritualidade uma solução para aproximar o interesse dos funcionários com os da organização.

— É preciso enxergar o ser humano não só como funcionário, mas como indivíduo, fundir as aspirações da empresa e colaborador, pois ambos precisam do outro para crescerem bem — diz.

Bolsoni implantou o sistema em que cada gestor deve conhecer a singularidade do funcionário, deixando de pensar ações de massa e regras inflexíveis, focando na individualidade de cada um.

— Se a empresa não olhar o funcionário como um ser único, mas como algo substituível, o trabalhador não vai se envolver a ponto de crescerem juntos — avalia.

Professor

A empresa deve assumir um compromisso real de zelo com o funcionário e não simplesmente como estratégia de endomarketing. Essa a lição que ensina o professor Marco Aurélio Bertolazzi, responsável pela disciplina de Cultura e Dinâmicas das Organizações da pós-graduação da UCS:

— Já está claro que é necessário ter um clima de respeito no trabalho, mas é preciso mais. É fundamental criar um ambiente em que o funcionário se sinta seguro para expressar sua subjetividade.

Para Bertolazzi, a espiritualidade é uma solução para a falta de mão de obra vivenciada pelas empresas.

— O ser humano só se compromete se estiver feliz. Para estar realizado, o funcionário precisa de um espaço em que seja ele mesmo, dentro e fora da organização — ensina o professor.

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