Fronteiras do Pensamento

Carlo Rovelli fala de ciência como o questionamento do senso comum

Físico italiano Carlo Rovelli fez o elogio do pensamento científico na palestra de abertura do ciclo Fronteiras do Pensamento 

Por: Carlos André Moreira
15/05/2017 - 23h09min | Atualizada em 16/05/2017 - 15h35min
Carlo Rovelli fala de ciência como o questionamento do senso comum André Feltes/Especial
Carlo Rovelli foi o palestrante de abertura do Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da UFRGS Foto: André Feltes / Especial  

O físico italiano Carlo Rovelli abriu a temporada 2017 do ciclo Fronteiras do Pensamento na noite desta segunda-feira com uma palestra anunciada por uma pergunta bastante ampla: "O que é a ciência?". Com a didática de um experiente professor que também se tornou best-seller literário ao explicar noções de física para leigos, Rovelli apresentou sua síntese pessoal do que é ciência: um questionamento contínuo do senso comum e do saber de um determinado período, provocando, assim, uma mudança geral de perspectiva sobre o mundo.

Italiano nascido em Verona, Rovelli proferiu sua palestra no Salão de Atos da UFRGS em inglês. Foi precedido de uma apresentação musical do compositor Antonio Villeroy, que apresentou Relatividades, uma canção composta poucas horas antes inspirada nas lições apresentadas nos livros de Rovelli. O físico italiano então subiu ao palco e, para responder à pergunta que ele próprio havia feito no título da conferência, contou histórias sobre a ciência da Antiguidade e a sua faceta contemporânea.

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A primeira história enfocava Anaximandro de Mileto, filósofo grego que de 610 a.C. até 546 a.C. Numa época em que não apenas o mundo grego, mas a maioria das concepções de mundo da Antiguidade anterior a ele, pensavam o mundo em termos de terra abaixo e céu acima, Anaximandro postulou a ideia de que a terra é uma rocha suspensa, cercada de céu por todos os lados.

— Anaximandro foi o primeiro a defender essa ideia, a que não é difícil chegar. O sol nasce e se põe, desaparecendo no horizonte. Para onde vai? Entra por um túnel? O céu estrelado também vai se movimentando. Logo, ele chegou a um entendimento que contrariava várias cosmologias mitológicas de que o mundo era sustentado por pilares, ou por elefantes no dorso de uma tartaruga. Ele tinha de ser algo em volta do qual os astros se moviam — explicou Rovelli.

Anaximandro, que o palestrante definiu como um de seus heróis, deu, no entendimento de Rovelli, um exemplo do que é a verdadeira ciência: questionar o que se pensa como verdade consolidada, para encontrar um novo conjunto de elementos que mudam o modo como vemos o mundo.

Ao falar da física contemporânea mais recente e de seu próprio trabalho, Rovelli relembrou os dois pilares que atualmente sustentam as discussões científicas da área. O primeiro é a intuição de Einstein de que o espaço e o tempo formam um campo elástico que se curva de acordo com a presença de massa. O segundo, a física quântica de Heisenberg, que defende que tudo, a matéria e o espaço, é composto de partículas mínimas, os "quanta".

— É o entendimento de que o universo é granular.

O problema, contudo, algo que Rovelli também menciona em seu livro Sete Breves Lições de Física, é que, embora as duas teorias funcionem muito bem para explicar aspectos diferentes da realidade e do universo, elas não são compatíveis, e é esse o tipo de trabalho teórico que Rovelli e seus colegas vêm realizando há anos no campo da Gravitação Quântica, tentando sintetizar as duas.

Rovelli encerrou mostrando como esse trabalho científico, justamente por questionar o entendimento estabelecido, abre constantemente conflitos com as pessoas para quem o senso comum é confortável ou que têm uma visão do mundo moldada pela religião.;

— Anaximandro também postulou a ideia do "ciclo das águas", perguntando-se de onde vinham as chuvas. Quando as pessoas não sabiam como as ondas se formavam ou a origem dos ventos, imaginavam que deuses eram os responsáveis. Quando você entende o mundo em termos naturais, e explica a natureza nos termos da própria natureza, você está em alguma medida questionando que esses deuses sejam responsáveis.

De acordo com ele, é compreensível o conflito, dado que o motor maior da ciência é abraçar a incerteza, admitir tudo o que não se sabe como aquilo que nutre a pesquisa científica, e muitas pessoas buscam na religião ou na ideologia conforto justamente para um mundo de incertezas. Mas que isso não deveria impedir a adoção de um ponto de vista mais crítico acerca do universo, até mesmo mais adulto.

—O mundo como o descobrimos pela ciência é infinitamente mais complexo, belo e brilhante do que os contos de fadas que nossos pais nos contavam — ele encerrou.

A defesa da ciência como um objeto de paixão também foi reforçada durante as perguntas do mediador Túlio Milman e da plateia. Ao ser perguntado que dicas daria para muitos professores que o estavam assistindo sobre como cativar a atenção de alunos no mundo conectado de hoje, ele reforçou entusiasmo como único modelo possível.

— O que de fundamental um professor pode transmitir não é o conteúdo da matéria, porque isso qualquer um pode fazer, isso os livros podem fazer. O que ele precisa saber transmitir é a paixão por aquilo que ensina. Como professor, sei que os alunos estão desatentos se estou ensinando algo que eu não gosto.

Ao ser perguntado se, ao fim, tudo o que os físicos vêm tentando pesquisar sobre a origem do universo pode ser visto como a identidade de Deus, Rovelli, ateu por convicção, disse que, para ele, Deus não tinha nada a ver com suas pesquisas – e foi amplamente aplaudido pela audiência. E para falar sobre a questão do  do financiamento da Ciência (pesquisas financiadas por capital privado visando aplicações práticas e lucro ou o estratégias de longo prazo de investimento em ciência), Rovelli defendeu que há mais de um tipo de pesquisa científica, e que abrir mão de um em detrimento de outro é empobrecer o conhecimento que é de todos.

– Há um tipo de pesquisa que pode fornecer resultados rápidos e imediatos, e outro que é basicamente fundamental, feita pela curiosidade diante de um fenômeno e para alargar os limites do que conhecemos, mesmo que não tenham uma aplicação prática no momento. Eu estudo buracos negros, mas isso não tem aplicação para a vida prática. Ao mesmo tempo, vivemos hoje numa sociedade cheia de dispositivos eletrônicos que funcionam por ondas eletromagnéticas, que não tinham necessariamente uma aplicação prática quando Maxwell as estava estudando. 

O Fronteiras do Pensamento Porto Alegre é apresentado por Braskem, com patrocínio Unimed Porto Alegre e Hospital Moinhos de Vento, parceria cultural PUCRS e Instituto CPFL, e empresas parceiras CMPC Celulose Riograndense, Souto Correa, Sulgás e Thyssenkrupp. Parceria institucional Unicred e apoio institucional Embaixada da França. Universidade parceira UFRGS e promoção Grupo RBS.

 
 
 
 
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