Espanha

Minorca, a idílica ilha espanhola

As fachadas de pedra de cores rosa e amarela clara, assim como as ruelas estreitas que passam junto a elas, mudaram pouco desde 1722

26/04/2012 | 22h42
Minorca, a idílica ilha espanhola Lourdes Segade/NYTNS
Embora esteja a apenas 33 quilômetros da multidão e agitação da prestigiosa vizinha Maiorca, a diferença entre as duas é profunda Foto: Lourdes Segade / NYTNS

Minorca, o primeiro lugar da Espanha a ver nascer o sol, está radiante ao fim do dia. Enquanto eu levava a minha mala pelas ruas de paralelepípedos e sem carro de Ciutadella, antiga capital da ilha, um brilho ocre florescia no rosto dos moradores que estavam sentados nos terraços dos bares das ruelas, suas vozes ecoando dentro de um cânion de edifícios góticos e barrocos.

As fachadas de pedra de cores rosa e amarela clara, assim como as ruelas estreitas que passam junto a elas, mudaram pouco desde 1722, ano em que os ocupantes britânicos tiraram o título de capital desta cidade na ilha mediterrânea de Minorca e o concederam à cidade portuária de Mahon. Ciutadella, até hoje, continua a ser uma ode a uma antiguidade inalterada.

O resto da ilha está imbuído dessa mesma qualidade atemporal. Embora esteja a apenas 33 quilômetros da multidão e agitação da prestigiosa vizinha Maiorca, a diferença entre as duas é profunda. Ao contrário de Maiorca, com seus extensos complexos hoteleiros, discotecas deslumbrantes e portos repletos de iates, esta ilha a 400 quilômetros a leste de Barcelona oferece algo incomum entre os resorts situados no Mediterrâneo: tranquilidade.

A ilha inteira, de 700 quilômetros quadrados, é uma reserva da biosfera da UNESCO, designação emitida devido às ricas flora e fauna que crescem nos desfiladeiros, pântanos, restingas e encostas de Minorca. Em 2004, a UNESCO expandiu o alcance dessa proteção, incluindo em sua definição os sítios pré-históricos amplamente espalhados pela ilha, impedindo a construção de arranha-céus que abrigariam condomínios e hotéis. Em vez disso, os hotéis rurais chamados "agroturismos" são os favoritos no entorno das cidades, e cerca de 120 praias – mais do que há em Maiorca e Ibiza (a outra ilha balear irmã de Minorca) juntas – permanecem em grande parte intocadas pelo desenvolvimento.

Mas há também uma dimensão cultural no ecossistema de Minorca. A ilha não é exatamente espanhola, nem simplesmente catalã (embora o minorquino, um dialeto da língua catalã, seja a língua franca). Este bolsão da antiga cultura mediterrânea foi moldado por um conjunto de colonizadores – romanos, norte-africanos, espanhóis e, por um breve período, turcos. Em seguida, a ilha passou de mão em mão durante 200 anos, tendo pertencido aos espanhóis, britânicos e franceses, até que finalmente os espanhóis reivindicaram a ilha em definitivo. Arquitetonicamente, o resultado é um legado que inclui os estilos art nouveau, gótico, barroco e até mesmo georgiano. A cozinha vai de uma versão modificada de tortas de carne e gin (ao modo inglês) até a tortilla espanhola de batata e ovo, passando pela boa e velha maionese – ao que parece, uma transformação de um molho local, propagado pelo duque de Richelieu quando os franceses conquistaram Mahon (por um breve período de tempo).

Em junho passado, meu companheiro, Ian, nossa filha Orli, então com 2 anos, e os meus pais chegamos para passar uma semana lá, com a esperança de captar alguma impressão da identidade singular de Minorca. No primeiro dia, descobrimos rapidamente a proteção da ilha contra o turismo desenfreado, bastante básica, mas eficaz: embora a principal rodovia de Mahon para Ciutadella seja bem pavimentada e cômoda, muitas das estradas menores que ziguezagueiam em direção ao interior são apenas largas o suficiente para um carro. Perseveramos e seguimos em frente no automóvel, passando por aldeias de pescadores que marcam as enseadas da ilha como pérolas – cidades que são uma profusão de cores, com buganvílias de cor púrpura subindo pelo calcário branco, e casas de janelas azuis que dão para o mar. Entre as aldeias, as placas de trânsito nos seduziam ao sinalizar o caminho em direção a praias escondidas.

Em Ciutadella, nós estacionamos na Plaza del Born, uma praça marcada por edifícios do século XIX feitos com magníficas pedras de arenito rosa. É necessário um passe especial para andar pelo centro histórico da cidade de carro, motivo pelo qual caminhamos por quatro grandes quadras até o nosso hotel, espreitando o jardim do bispo e olhando a catedral gótica do século XIII.

Não demorou muito para encontrarmos o Tres Sants, um hotel de oito quartos que abriu há um ano em uma casa do século XVIII, situada no cruzamento de três ruas com nomes de santos, como muitas da cidade. Sant Sebastia, San Cristofol, San Joseps: cada rua está protegida por uma pequena estátua de seu homônimo, alojada em uma caixa de vidro.

Houve uma noite em que nos deparamos com uma multidão fantasiada: mulheres com castanholas do século XIX, amplas blusas brancas e saias esvoaçantes e compridas; os homens usavam calções. Havia uma banda repleta de guitarras e uma cantora que gritava em minorquino como se comandasse uma dança de quadrilha enquanto o grupo se apresentava. A multidão era toda de lá; éramos os únicos turistas observando. Aquela cena retratava, percebemos, uma vida que tem sido assim aqui há gerações.

Ao caminharmos de volta para o hotel, tropeçamos no Ulisses, um bar caiado de frente para o Mercat des Peix, um mercado de peixes do século XIX. Quase todo iluminado por velas, o bar é conhecido pelas dezenas de gins que serve. Contaram-nos que o gim com gelo, vestígio da dominação inglesa, é a bebida favorita da ilha. A Xoriguer, marca local mais conhecida, tem sabor de bagas de zimbro.

Após uma estadia de duas noites, deixamos o Hotel Sants Tres. Nosso próximo destino foi a aldeia de Es Migjorn Gran, para uma estadia de uma noite no luxuoso agroturismo Binigius Vell. A estrada que levava até lá parecia inadequada para veículos de qualquer tamanho, ainda mais para o nosso, que era grande. Mas a recompensa por encarar esse trajeto traiçoeiro vale a pena: uma piscina enorme, um restaurante lindo, cavalos nas instalações e uma caminhada de uma hora até o mar distante .

Em Es Migjorn Gran, encontramos meu amigo Baruc Corazon, um designer de moda de Madrid que vem a Minorca desde a infância. Sua tia se mudou para a pequena cidade de Sant Lluis na década de 1970, arrebatada pelo júbilo hippie contra a elite, e nunca mais foi embora. Havia vários estrangeiros entre seus amigos: espanhóis, alemães e americanos.

Baruc nos disse que devíamos visitar um local que mais tarde chamamos de "farol no fim do mundo". A paisagem, prometeu ele, era diferente de tudo que há na ilha. Na manhã seguinte, fizemos o que ele disse fomos de carro até a vila de pescadores do norte da costa de Fornells, indo até a reserva marcada como "Parc Natural de S'Albufera des Grau" por uma estreita estrada pavimentada. Passamos por uma dúzia de grupos com mochilas, sapatos resistentes e bastões de madeira como apoio para caminhar. Nos vários quilômetros, campos cheios de vacas e árvores atrofiadas deram lugar a uma paisagem lunar de ardósia preta e cinza de um lado e áreas úmidas do outro. Estacionamos o carro e caminhamos até o extremo do Cap de Favaritx, onde encontramos um farol com listras pretas e brancas, que parecia saído do cinema, rodeado por praias de pedras lisas.

No caminho de volta, pegamos Baruc, que nos indicou uma estrada lateral em direção ao mar.

"Existem dois restaurantes na aldeia", disse ele do banco de trás do nosso Citroën. "Um deles tem uma vista fantástica. O outro tem a comida mais surpreendente. Vamos até esse."

Logo saímos de uma colina e suspiramos em uníssono. Diante de nós estava a pequena aldeia de Sa Mesquida ("A Mesquita", uma referência aos moradores norte-africanos de tempos atrás), um punhado de casas caiadas ao longo de uma estrada de pista única que levava a uma enorme praia de areia fina e branca e um caminho que se estendia até mais enseadas.

"Os britânicos e os franceses costumavam se esconder nesta baía antes de atacarem Mahon", contou o dono do Bar Sa Mesquida após pedirmos uma garrafa de vinho branco galego fresco, douradas inteiras grelhadas, temperadas com limão e sal, e uma bandeja de urtigas-do-mar fritas, uma espécie de anêmona com um sabor que lembra o do próprio mar e é comida apenas no início do verão.

Alguns moradores nos disseram que devíamos ir a Mahon, a capital, para que nosso passeio pela ilha estivesse completo. Partimos na manhã seguinte, vagando pelas ruas e admirando a arquitetura art nouveau em torno da catedral, além de magníficas vistas do porto.

O enorme porto atraiu visitantes e comerciantes durante séculos. Como resultado, há uma sensação maior de abertura ao mundo em Mahon de que em Ciutadella. De todo modo, não se parece em nada com a agitação da Palma de Maiorca ou as multidões de outras cidades portuárias da Espanha. Por um lado, como nos explicou Sandy Larsen, uma americana que ajuda a organizar excursões pela ilha, não se incentiva o uso de iates. Segundo ela, é muito mais caro atracar um iate em Minorca que em outros portos do Mediterrâneo, então eles não vêm. Essa é outra forma de a ilha conservar as cidades para os cidadãos.

Em nosso último dia, nos aventuramos pelo interior mais uma vez. Fomos de carro em direção ao norte, além de Mahon, até o parque próximo a Es Grau, uma pequena vila de pescadores. Quando estacionamos, vimos de um lado uma trilha que serpenteava pelas salinas protegidas. Diante de nós estava uma enorme enseada de águas rasas, de um azul claro primoroso, perfeita para tomar banho. Algumas poucas barracas à beira-mar vendiam sardinhas fritas e cervejas. Uma agência de ecoturismo oferecia passeios ecológicos de caiaque por enseadas e ilhas desertas próximas. Não optamos por nadar, nem pelos barcos. Pedimos apenas um prato de sardinhas fritas à beira-mar.

Ficamos, então, observando a paisagem, varrida pelo vento, resoluta, gloriosamente selvagem.

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