Versão mobile

Nordeste

Olhos marejados por Maceió

Saiba o que há de mais belo – e também mais saboroso – neste paraíso do litoral nordestino

22/05/2012 | 12h57
Olhos marejados por Maceió Carlos Ismael Moreira,Especial/Agencia RBS
Praia de Maceió vista da embarcação faz da cidade um projeto de vida à beira-mar Foto: Carlos Ismael Moreira,Especial / Agencia RBS

Vistas da areia, as praias da capital alagoana oferecem uma paisagem de "deixar besta", para usar uma expressão típica da região — algo como o nosso consagrado "de cair os butiás do bolso".

Mas quando se inverte o ângulo, a bordo de uma embarcação, a visão da extensa faixa de terra, recortada pelas fileiras uniformes de coqueiros até onde a vista alcança, faz de Maceió muito mais que um destino turístico perfeito: um projeto de vida à beira-mar.

O doce balanço das águas quentes, de um verde esmeralda mesclado à tons de azul que desfazem o limite com céu no horizonte, é uma forma inesquecível de conhecer este paraíso no litoral do Nordeste.

Uma das experiências obrigatórias para o visitante parte da praia da Pajuçara, onde inúmeras jangadas estão sempre à espera dos turistas _ três delas contam com acessibilidade para o transporte de cadeirantes. Após 20 minutos de navegação, cerca de dois quilômetros mar à dentro, próximo à uma formação de corais, é possível andar tranquilamente com água pelas canelas.

As piscinas naturais que se formam durante a maré baixa são tão cristalinas que se pode enxergar a areia no fundo. Com um snorkel (máscara com tubo para respiração), basta mergulhar a cabeça para ver de perto as mais variadas espécies de peixe nadando à sua volta. Petiscos e bebidas estão à venda em minibares flutuantes. O passeio dura cerca de três horas e custa R$ 20 por pessoa nas jangadas, que levam até seis ocupantes.

Quem busca mais comodidade pode optar pelo catamarã do bar Lopana, que leva grupos de no mínimo 15 pessoas, ao preço de R$ 30 por ocupante.

De São Miguel ao Gunga, o espetáculo da maré

A travessia pela Lagoa da Barra até a praia do Gunga, considerada uma das mais belas do Brasil, também é imperdível. O roteiro parte de Barra de São Miguel, município com pouco mais de 7,4 mil habitantes, cerca de 30 quilômetros ao sul da Capital. A cidade é conhecida pela pesca do maçunim, um crustáceo abundante na região, cuja casca é utilizada para o artesanato ou transformada em ração, e o miolo é apreciado com coco, em refogados e até em tortas.

Uma boa oportunidade para experimentar essas delícias é o Festival do Maçunim, que ocorre no segundo semestre do ano. O tesoureiro da Colônia de Pescadores Z7, Luis Hemidio dos Santos, 57 anos, explica que, apesar do crustáceo estar presente o ano todo, é preciso esperar a hora certa para recolhê-lo.

— O maçunim leva uns três meses para crescer, se pegar muito pequeno nem dá para aproveitar o miolo. E quanto maior é mais gostoso — revela.

A variação da maré na lagoa também chama atenção. Pela manhã, o leito onde desemboca o Rio São Miguel fica tão raso que é possível atravessar de uma margem a outra a pé. Na areia clara e fofa é impossível não notar a cambada de minúsculos caranguejos, que foge rapidamente a cada pisada.

À tarde, toda a área já está submersa, dando a impressão que o retorno foi em um local diferente.

No cais, uma embarcação exótica não passa despercebida: o Caiomar é um trimarã, assim chamado por ter três cascos, um ao lado do outro. Em cada uma das três proas, imponentes esculturas de onças-pintadas apontam o rumo do trajeto. Essa escuna atende apenas grandes grupos e eventos, mas no local o visitante também encontra barcos menores para realizar o passeio, ao preço de R$ 15 por pessoa, ou R$ 30 com almoço incluído.

No caminho pela lagoa o cenário é exuberante. A praia do Gunga, batizada com o nome do pajé de uma antiga tribo indígena, apesar de bastante movimentada oferece uma natureza selvagem que lembra o desembarque na ilha do seriado americano Lost. Não se assuste se avistar no céu um barco voador. Misto de bote inflável e asa-delta, com propulsão de uma turbina de ultraleve, o Fly Boat é a sensação entre os turistas. O passeio de 20 minutos sobrevoando a praia custa R$ 100,00.

Alguns quilômetros adiante, uma costa de recifes represa de um lado as ondas fortes do mar aberto, e reserva do outro um recanto com bancos de areia e águas rasas e mornas. Antes de se entregar ao delicioso banho, certifique-se que a sua passagem de volta está comprada. Do contrário, não vai haver motivo para sair.

Arco-íris artesanal

Das portas e janelas das casas, nos dois lados de uma comprida rua, transbordam cores vibrantes nos mais variados formatos. Assim é Pontal da Barra, também conhecido como Bairro das Rendeiras, localizado logo na entrada de Maceió. O local tornou-se internacionalmente famoso pela confecção do filé, o tipo de renda mais tradicional de Alagoas, feito de fios trançados pelas mãos habilidosas das artesãs sobre uma tela com rede de pesca. As principais características são o colorido e a infinita variedade de pontos e formas geométricas.

Herança da colonização portuguesa, o artesanato que servia como distração para as mulheres do período colonial atravessou os anos sendo passado de mãe para filha. Sentada à beira da calçada, a pernambucana Cilene Coutinho, 29 anos, leva a tradição adiante. Morando em Maceió há um ano, ela pratica a técnica de confecção acompanhada da pequena Jhennifer Rebeca Coutinho, que já ensaia seus primeiros laços.

— Ela tem só dois anos e meio, mas já tem o desejo de aprender o filé. Aqui (a técnica) vai para os filhos, netos e assim sucessivamente — declara Cilene.

Hoje, os homens também trabalham na produção e comércio da renda, que é a principal fonte de sustento para muitas famílias _ só no Pontal existem 426 lojas.

A artesã Rosângela Vital, 53 anos, trabalha há três décadas com o filé, e diz que a criatividade é o que determina o tipo de peças fabricadas.

— A gente faz paninho de mesa, toalha, vestido, cachecol, echarpe... Tudo que você imaginar dá pra fazer com filé — comenta.

Além do Pontal da Barra, quem quer levar um pedacinho da cultura alagoana para casa têm à disposição pelo menos outras três ótimas opções. No centro de Maceió, o Mercado do Artesanato reúne cerca de 100 artesãos que produzem peças em barro, couro, palha e até a partir de palitos de fósforos.

Na orla da praia de Pajuçara, o Pavilhão do Artesanato e a Feirinha do Artesanato oferecem painéis, louças, vestidos, bolsas, camisetas, bonés, toalhas, bordados, filé, esculturas, e incontáveis lembrançinhas com motivos da cultura local.

 
Foto: Carlos Ismael Moreira


Oásis de sabores

A gastronomia de Maceió vale uma viagem com dedicação exclusiva a experimentar a riqueza dos sabores regionais, mistura de heranças indígenas, portuguesas e africanas. Mas durante uma passagem breve, alguns pratos são fundamentais para assimilar o básico do paladar alagoano.

Dos índios nativos, ficou preservada a tradição da tapioca (massa feita com a goma da farinha de mandioca, mais conhecida na região como macaxeira), muito apreciada no café da manhã ou no fim de tarde na orla. Na praia de Pajuçara, várias barracas vendem tapioca de todos os tamanhos e recheios — desde doces como chocolate e brigadeiro até outros mais exóticos como camarão e carne de sol — por preços entre R$ 6 e R$ 12. A madioca também é o ingrediente principal do Patim, combinado ao charque e cubos de queijo coalho ao molho branco.

O sururu é um dos pratos típicos. O molusco prolifera nas partes mais rasas das lagoas e cresce conforme o teor de salinidade da água, que não deve ser nem muito doce, nem muito salgada. Presente na mesa de praticamente todos os bares e restaurante da região, as opções de preparado vão desde o sururu de capote — cozido na casca em seu próprio caldo, com tomate, cebola, coentro, cebolinha e pimenta — até o sururu ao leite de coco.

Os doces regionais são outro deleite ao paladar. Cocadas, bolos, beijus, pés de moleque, rapaduras e balinhas de caju ficam ainda melhor em contraste com o gosto forte e flamejante da cachaça Azuladinha, uma das bebidas mais tradicionais de Maceió. A água de coco dispensa comentários. Nas praias, basta estender o braço para alguém oferecê-la por apenas R$ 1.



Patrimônio à mesa

Esquecido por quase uma década, uma das maiores referências da culinária da Capital alagoana voltou à mesa dos maceioenses, com direito a lugar de honra. Em agosto de 2011, o Camarão Bar das Ostras foi tombado como patrimônio imaterial do Estado, igualando-se em representatividade ao acarajé, na Bahia, e ao bolo de rolo, no Recife.

O prato leva o nome do local onde se tornou nacionalmente famoso, entre a década de 1950 e os anos 2000. A receita do camarão na manteiga, criada por Dona Oscarlina, tornou-se um ícone da gastronomia regional, servido no Bar das Ostras, à beira da Lagoa do Mundaú — tão perto que durante as marés mais altas do ano os clientes saboreavam a iguaria com água pelas canelas.

O modo de preparo do camarão, guardado a sete chaves por Dona Oscarlina, era compartilhado apenas com as filhas, que assumiram o bar depois da morte da cozinheira. Em 2002, o estabelecimento fechou as portas e as donas se mudaram de Maceió, levando consigo o segredo.

O sabor do prato ficou registrado apenas na memória dos maceioenses até o ano passado, quando a Sococo, empresa local do ramo alimentício, conseguiu localizar as filhas de Dona Oscarlina, em Natal (RN), e fechou um acordo para a compra da receita. Por ocasião de seus 45 anos, a Sococo protolocou junto ao Estado a solicitação de tombamento do Camarão Bar das Ostras. O pedido foi aprovado e, desde então, a receita ficou a disposição dos restaurantes como forma de reintroduzir o prato entre os símbolos da culinária alagoana.

 
Foto: Carlos Ismael Moreira


Dicas do repórter

- Para qualquer viagem ao Nordeste, especialmente no litoral, a recomendação já é óbvia, mas nunca é demais repetir: o protetor solar é o item mais importante da sua bagagem. Não importa a programação que escolher, não sempre com um tubo a mão.

- A duração dos dias em Maceió é bem diferente a que nós gaúchos estamos acostumados. Para aproveitar bem o passeio, acorde o mais cedo que conseguir. Por volta de 5h30min, o sol brilha alto e ilumina toda praia. Em compensação, 12 horas depois já está tudo escuro. Após as 18h, a dica é aproveitar os bares e barracas na orla para saborear uma tapioca ou um sorvete.

- Generosidade é um dos traços mais marcantes do povo alagoano, inclusive quando se trata de por a mesa. As porções médias satisfazem tranquilamente. Peça as grandes só se você estiver realmente com muita fome. O consagrado cafezinho, por exemplo, que geralmente é servido em xícara pequena, em Maceió vem em uma caneca grande e cheia _ o que, particularmente, deixa este repórter muito contente.

- Apesar da variedade gastronômica local, vá com calma na comilança. A maioria das receitas leva bastante tempero. Leite de coco, creme de leite e manteiga conferem um sabor marcante. Se você exagerar na medida em um só prato, vai se saciar rapidamente e perder a oportunidade de experimentar outras delícias. O segredo é provar um pouquinho de cada gosto. Em Maceió, sobram opções de restaurantes com boa mesa, mas dois lugares são ótimos para conhecer a culinária local. O Bodega do Sertão é todo decorado com motivos da cultura regional, com móveis de madeira e paredes texturizadas em barro que imitam as construções de taipa. Parte da fachada do prédio foi erguida no formato de um bule gigante, decorado na parte interna por uma coleção bules e chaleiras antigas. As garçonetes são uniformizadas com vestidos de chita e até uma Maria Bonita circula pelo salão. O bufê é a quilo. O restaurante Maikai fica na avenida à beira da praia, com uma roupagem urbana mas não menos acochegante, com opções de bufê e a la carte. Nos dois estabelecimentos, a comida típica é servida a partir de R$ 4,79 (100g), conforme o dia da semana e horário.

- Na medida do possível, procure uma hospedagem entre as praias de Pajuçara e Ponta Verde. A partir delas, você vai estar bem perto da Feirinha e do Pavilhão de artesanatos, e a meio caminho do centro histórico e do bairro de Pontal da Barra. Esta área também tem acesso facilitado para as praias em cidades próximas, como a do Francês, em Marechal Deodoro (25 km), e a do Gunga, em Barra do São Miguel (30 km).

- Se você estiver de carro e pegar a rodovia AL-101 para conhecer as cidades da região, vá com calma. Com a duplicação da estrada, canteiros de obras estão em plena atividade em quase todos os trechos. Por isso, é importante respeitar os limites de velocidade e redobrar a atenção ao volante.

- O bairro de Pontal da Barra é visita obrigatória para os amantes do artesanato. Mas a fama internacional fez subir o preço da renda de filé produzida no local. A Feirinha e o Pavilhão de artesanatos, na orla da praia de Pajuçara, oferecem peças igualmente lindas a preços bem mais em conta. Na hora de comprar as lembrancinhas de viagem, seja no Pontal ou nas feiras, é importante ir com tempo para pesquisar e pechinchar. A correria pode pesar no bolso.

Notícias Relacionadas

Em família 13/05/2012 | 09h03

Dicas para aproveitar melhor a viagem com ou sem os filhos

Pequenos macetes ajudam a tornar a viagem das mães, na companhia ou não dos filhos, mais prazerosa

VEJA TAMBÉM

     
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.