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Vai e vem

O centenário bondinho ajudou o Rio de Janeiro a conquistar o título de Patrimônio Cultural da Humanidade

A construção do teleférico foi um projeto ousado, em uma época de poucos recursos nessa área

11/07/2012 | 08h05
O centenário bondinho ajudou o Rio de Janeiro a conquistar o título de Patrimônio Cultural da Humanidade Ver Descrição/Agencia RBS
A construção do teleférico foi um desafio tecnológico no início do século 20 Foto: Ver Descrição / Agencia RBS

Há 100 anos, um grupo de operários trabalhava no alto de um morro no Rio de Janeiro, a então capital do Brasil. Provavelmente, eles não sabiam, mas a complexa engenhoca para a época se tornaria um dos monumentos mais famosos do mundo: o teleférico do Pão de Açúcar, carinhosamente apelidado de bondinho. O monumento, que já abrigou o charmoso agente secreto 007, a célebre ladra Carmen San Diengo, e foi palco do revezamento da tocha olímpica em 2008, foi inaugurado em 1912. Há um século, uma das mais complexas e belas obras de engenharia moderna era erguida, mudando para sempre a paisagem carioca e a imagem internacional do Brasil.

O bondinho não se resume a um simples ponto turístico. Fortemente na memória afetiva dos brasileros, o teleférico se tornou um símbolo do Brasil e ajudou o Rio de Janeiro a conquistar o inédito título de Patrimônio Cultural da Humanidade, na semana passada. "Seria impossível pensar no Pão de Açúcar separado do Morro da Urca e sem o bondinho", afirma Luiz Fernando de Almeida, presidente do Instituto Nacional do Patrimônio Artístico e Arquitetônico (Iphan). "É nessa única apropriação dos espaços e na interação com o ambiente natural que reside o maior patrimônio cultural do Rio", completa.

Apesar da beleza incontestável da vista que proporciona, construir o até então maior teleférico do mundo era um desafio tecnológico, a julgar pelas ferramentas disponíveis no início do século 20, quando o engenheiro brasileiro Augusto Ferreira Ramos teve a ideia, durante a Exposição Nacional de 1908. Depois de encontrar patrocinadores para a empreitada - o empresário Manuel Antônio Galvão e o comendador Fridolino Galvão - e receber a autorização da Prefeitura do Rio de Janeiro, pôde, então, passar para o próximo e mais difícil passo: o projeto.

Na época, só existiam dois teleféricos no mundo: o do Monte Ulia, na Espanha, construído em 1907; e o de Wetterhorn, na Suíça, erguido um ano depois. Por isso, a ausência de tecnologias e experiências fez com que os dois trechos da subida - da Praia Vermelha ao Morro da Urca, e do Morro da Urca ao Pão de Açúcar - fossem construídos de maneira quase artesanal. No projeto original elaborado por Ramos, haveria ainda um terceiro trecho, da Urca ao Morro da Babilônia. Como a área já pertencia ao Exército naquela época, o trecho não saiu do papel.

Para que o primeiro teleférico, com a capacidade de carregar 24 privilegiados passageiros, pudesse ser construído, experientes alpinistas subiram no alto dos morros e construíram uma pequena base com equipamentos para uma versão provisória. Depois dessa etapa concluída, o cabo de aço pelo qual o bondinho transita foi içado para o topo da montanha, com a ajuda de uma corda. Em seguida, foram construídas as estações de apoio. Em 27 de outubro de 1912, o primeiro trecho do bondinho de passageiros entrava em circulação. Uma operação semelhante foi feita para instalar a segunda etapa da viagem, entre a Urca e o Pão de Açúcar, inaugurada três meses depois, em 18 de janeiro de 1913 (veja arte).

O modelo atual, muito mais moderno e complexo, entrou em funcionamento em 1972, quando todo o sistema foi remodelado. Dois cabos são responsáveis pela movimentação do teleférico. O primeiro, feito de aço flexível, que dura cerca de seis anos é responsável pela tração do conjunto. "Em um sistema conhecido como vai e vem, o cabo passa por polias nas duas extremidades do percurso. Quando elas giram para um lado, uma das cabines sobe e a outra desce; quando ele gira para o outro, o movimento se inverte", explica Diego Scofano, gerente técnico da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar, empresa que desde a inauguração administra o teleférico. O sistema descrito por Scofano funciona de maneira semelhante a uma corrente de bicicleta, ou um varal de roupas, onde duas roldanas controlam a trajetória de um cabo.

O segundo cabo, rígido e também feito de aço, serve como trilho para o bondinho. Sem se mexer, ele sustenta o peso do teleférico e seus atuais 65 passageiros, e guia qual caminho o teleférico deve seguir. "Feito de aço rígido, totalmente impermeável, esse cabo dura, em média, 30 anos. Em 2002, o atual foi instalado e está em ótimas condições, já que um sistema de vedação impede que a umidade chegue ao seu interior e o corroa", relata Diego Scofano. Para dar ainda mais segurança, eventualmente, um técnico percorre todos os trechos do teleférico do lado de fora do bondinho, verificando a conservação dos cabos e fazendo a manutenção do sistema.

Semelhança

O Brasil é o único país onde as cabines dos teleféricos são apelidadas de bondinhos. Isso acontece porque, quando o monumento carioca foi inaugurado, os bondes dominavam o transporte público do Rio de Janeiro. As "caixas de madeira" bastante semelhantes às que passaram a alçar turistas nos morros do Pão de Açúcar e da Urca conferiram o apelido.

Passageiros

A terceira geração de cabines que levam os turistas nos caminhos de subida e descida da Urca e do Pão de Açúcar entrou em funcionamento em 2008. O modelo atual comporta 65 pessoas, enquanto a geração anterior transportava 75. A redução não se deve a uma diminuição na capacidade de carga dos teleféricos - ambos carregam 4.875kg - mas, sim, a um aumento de peso da população. Há 40 anos, quando o modelo anterior começou a circular, o peso médio da população era 65kg. Na renovação de 2008, o padrão havia aumentado para 75kg.

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