Kyoto de braços abertos

Terra natal da cerimônia do chá, do quimono e da meditação Zen agradece a volta dos visitantes

Pouco mais de um ano depois do desastre que arrasou parte do país, os visitantes podem aproveitar todas as belezas intocadas do Japão

05/07/2012 | 08h10
Terra natal da cerimônia do chá, do quimono e da meditação Zen agradece a volta dos visitantes Kosuke Okahara/NYTNS
A quieta magnitude, que é uma das graças especiais do Japão, ganhou um novo significado este ano Foto: Kosuke Okahara / NYTNS

Durante uma iluminada manhã de primavera em março, eu fui ao Ryoanji, o templo em Kyoto que abriga o jardim de pedra mais famoso do mundo. Não havia qualquer outro estrangeiro no local. Nem mesmo muitos japoneses podiam ser vistos nos 50 hectares da área (agendei minha visita para as férias de primavera, quando as barulhentas excursões escolares não ficam tanto em evidência).

Então, enquanto estava sentado sobre um enigmático arranjo de 15 pedras dispostas de forma aparentemente aleatória sobre uma ampla superfície de areia remexida, não conseguia ouvir nada além do canto dos pássaros vindo das cerejeiras ao meu redor. Um fio de água caindo de uma calha fina de bambu sobre uma bacia de pedra logo ali ao lado aprofundava e, ao mesmo tempo, intensificava o silêncio. Os caracteres em torno da bacia diziam: "O que você tem é tudo que você precisa".

Silêncio, amplidão e quietude eram tudo o que eu tinha naquele momento. Apesar do número de turistas estrangeiros ter caído, no total, cerca de 50% nos três meses que se seguiram ao terremoto de março do ano passado, em janeiro de 2012 ele era apenas 4% mais baixo, de acordo com a Organização Japonesa de Turismo.

Apesar disso, a quieta magnitude, que é uma das graças especiais do Japão, ganhou um novo significado este ano. À primeira vista, o país é incrivelmente parecido com o lugar que você teria visto há dois anos, a despeito da catástrofe do ano passado. Mas, lá no fundo, o Japão parece estar mais vulnerável e, portanto, mais aberto do que nunca. Há muito tempo, o Japão é o que a revista globalmente consciente Monocle chamou, em uma recente edição, de "A nação mais encantadora do mundo" — mas, agora, o país também é um dos mais agradecidos a seus visitantes.

Em outras palavras: em um dia típico de março, você poderia ver enormes arranjos iluminados de flores no parque Maruyama, no centro de Kyoto, enquanto velas eram carregadas pelas águas de um córrego nas redondezas; você poderia se juntar a mulheres de quimono caminhando por um trajeto de 2,5 mil lanternas ao longo das colinas ao leste da antiga capital, e assistir a uma maiko, uma aprendiz de gueixa, realizando danças cerimoniais, gratuitamente, no santuário de Yasaka. Você poderia pegar um ônibus ou um trem para ir ao impressionante museu Miho, projetado por I. M. Pei, a única construção de um parque natural deserto a 70 minutos da estação de Kyoto, que tem um túnel da era espacial em sua entrada; ou você poderia se juntar a outras 15 mil pessoas correndo a primeira maratona de Kyoto.

Cultura e tradição


Foto: Kosuke Okahara/ NYTNS

Por todos os lados podem ser vistas as qualidades que, há muito tempo, fazem do Japão um país diferente e que desperta nossa humildade. No aeroporto, os taxistas pulam de seus carros para ajudar a carregar os porta-malas dos carros da frente. Nas lojas de conveniência, garotas de cabelo loiro com sombras fantasmagóricas nos olhos provam ser tão atenciosas e educadas quanto estudantes recém-formados. Como todos os anos, no dia 3 de março, famílias mordiscavam bolinhos de arroz em forma de diamante com camadas cor-de-rosa, azuis e verdes e enviavam bonecas de palha pelo rio em homenagem ao Hina Matsuri, o dia das meninas.

Durante os 25 anos em que tenho vivido nos arredores de Kyoto, vi a cidade dos 1,6 mil templos se tornar ainda mais festiva, internacional e colorida. É verdade que construtores desavergonhados continuam a destruir edifícios de madeira para dar lugar a horrorosos blocos de concreto, e que as ruas apertadas ficam cada vez mais cheias de automóveis.

Ainda assim, de outras maneiras, o coração da cultura japonesa está mais jovem e mais descolado do que nunca — sua cultura estudantil (há 38 centros de educação superior ao redor de Kyoto) era evidente nas apresentações de dança improvisadas e nas mostras de arte no centro da cidade, novos hotéis de designer surgem a cada nova estação e os templos agora abrem seus portões depois do pôr do sol para que você possa caminhar por esses mundos encantados quando a noite cai.

Chá e mangá

Kyoto ainda é a terra natal da cerimônia do chá, do quimono e da meditação Zen, mas também é um local estiloso, que abriga o primeiro museu japonês do mangá, um cubo futurista de 15 andares em uma estação de trem e o quartel general da Nintendo.

As placas agora estão escritas em inglês (não era assim quando cheguei), e os anúncios nas estações e nos ônibus também.

Para quem anda com dólares, o iene fortalecido deixa os preços 50% mais altos do que há cinco anos, mas o Japão ainda é mais barato que a Inglaterra e boa parte do norte da Europa, em especial se você usa um Japan Rail Pass e é cuidadoso com os lugares aonde vai (uma pizza na cafeteria do meu bairro custa menos de US$ 5, e você não precisa se preocupar com impostos ou com gorjetas — e uma xícara de cappuccino de primeira qualidade custa US$ 1,50 nas máquinas de café). O mais importante é que o Japão continua sendo mais diferente que qualquer outro lugar que eu conheço.

Lição de vida

Nos dias de hoje, os visitantes podem aproveitar todas as belezas intocadas do Japão, oferecendo, ao mesmo tempo, um apoio moral e, até mesmo, prático. Um passeio para descobrir Tohoku oferece excursões de quatro ou seis dias para lugares de beleza natural, próximos ao centro da tragédia do ano passado, entre os quais a clássica baía repleta de pequenas ilhas ao redor de Matsushima e os templos de Hiraizumi, considerados Patrimônios da Humanidade.

Em Pieces, de Mitsuyo Kakuta, provavelmente a história mais sutil e bela publicada no livro March Was Made of Yarn (Março foi feito de fios, inédito no Brasil), uma antologia de contos publicada em homenagem ao desastre do ano passado, uma mulher de meia idade revê sua vida após descobrir que seu marido tinha uma amante mais jovem na época do Grande Blecaute de Tóquio.

"Adquirir não traz felicidade", foi o que ela aprendeu durante os anos de crescimento do Japão, e agora ela vê que a perda não é a raiz da infelicidade. Quando as luzes voltam à cidade, ela pensa que os momentos felizes de sua vida não são capazes de apagar as perdas pelas quais ela passou. Nem essas perdas a impediram de conhecer a felicidade.

Neste momento, flores de cerejeira feitas de papel tremulam sobre as barracas que levam ao grande Templo Kannon, no bairro de Asakusa, em Tóquio, e em Nara, a capital do século 8, as meninas carregam sombrinhas sob as flores de ameixeira para proteger o rosto do sol de primavera.

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