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New York Times

Praia de Chipre lembra conflito sem solução

Depois de ser isolada durante décadas, Varosha é hoje um símbolo potente da aparente intratabilidade do conflito

20/08/2012 | 19h30
Praia de Chipre lembra conflito sem solução Ed Ou/NYTNS
Praias imaculadas e hotéis que já atraíram astros do cinema como Elizabeth Taylor e Richard Burton agora são transformados em terra de ninguém Foto: Ed Ou / NYTNS

 

Cobras deslizam pelo interior de casas dilapidadas no balneário marítimo de Varosha, cidade fantasma com carros antigos apodrecendo e mansões desmoronando onde o tempo parou em agosto de 1974.

Foi nesse ano que a Turquia, após uma tentativa de golpe de inspiração grega no Chipre, invadiu a ilha, dividindo-a em duas: uma fatia grega, ao sul, e outra ocupada pelos turcos, ao norte. Dos 15 mil moradores de Varosha que entraram em pânico e fugiram — a maioria de origem grega — quase todos esperavam voltar para suas casas em questão de dias.

Em vez disso, foram submetidos a um exílio de décadas pelo exército turco que protegeu Varosha, cercando-a com arame farpado e permitindo apenas a ação da natureza.

—Perdi tudo depois que os turcos invadiram: minha casa, minha fábrica, meu laranjal— disse Harris Demetriou, 71 anos, cipriota grego cuja família fugiu de sua bela mansão e deixou para trás uma empresa de sorvetes em Varosha. —Eu tento não viver no passado, nem pensar nas minhas aflições. Já desisti. — explica. Depois, Demetriou reconstruiu a vida num subúrbio nos arredores de Nicósia, a capital do Chipre.

Após a invasão, centenas de milhares de pessoas de ambos os lados foram expulsas de suas casas, deixando um legado de ressentimento e recriminação mútua. Contudo, outros povoados habitados por cipriotas de origem grega e turca que foram abandonados terminaram sendo transferidos ou ocupados. Varosha é uma anomalia, mantida como um museu urbano petrificado, cercado, fechado com tábuas e congelado no tempo.

Com suas praias imaculadas e hotéis que já atraíram astros do cinema como Elizabeth Taylor e Richard Burton agora transformados em terra de ninguém, Varosha tornou-se um símbolo potente da aparente intratabilidade do conflito. Para os gregos, Varosha espera em animação suspensa que os turcos a usem como moeda de troca nas negociações. Já os turcos culpam os primeiros pela intransigência.

Um plano de paz da ONU, de 2004, propôs a devolução de Varosha ao controle dos cipriotas gregos dentro de uma confederação flexível que os cipriotas turcos aceitaram. Porém, os cipriotas gregos rejeitaram a reunificação da ilha.

E assim, Varosha, um trecho da cidade de Famagusta, ao norte da ilha, continua presa num túnel do tempo. Seus hotéis ficam em praias vazias, sem janelas e crivados de balas. Na praia que margeia a área, moças de biquíni brincam com bolas e bebem coquetéis, parecendo não perceber os grandes prédios bombardeados atrás delas. Um militar turco olha com severidade do alto de uma torre de vigia, um sinal próximo de que os invasores podem ser baleados.

Os poucos que conseguiram espiar Varosha após a invasão, bem com os cipriotas turcos que prestaram serviço militar nela, contam ter testemunhado um lugar que parecia um estúdio de cinema. Okan Dagli, cipriota turco de Famagusta que observou a área ao servir o exército, disse ter se sentido numa distopia.

—Tudo fora pilhado e estava desmoronando. Dava a impressão de o tempo ter parado. Era a um só tempo muito triste e muito perturbador — relatou Dagli.

Cipriotas que vislumbraram um relance raro atrás do arame farpado descreveram árvores subindo pelos telhados das casas abandonadas e manequins vestindo calças bocas de sino, da década de 1970, olhando por vitrines destroçadas. Os poucos pianos de cauda que não foram pilhados pelos soldados turcos aguardavam em silêncio em salas de estar abandonadas.

Para alguns turcos cipriotas da área, a ocupação de Varosha — ainda sob patrulha pesada pelos soldados turcos — causa indignação e vergonha.

—Eu fico envergonhada e com raiva — afirmou Selma Caner, 28 anos, professora de filosofia cipriota de origem turca, enquanto se bronzeava na praia ao lado da cerca de arame farpado bloqueando Varosha. —É meio assustador vir aqui, mas depois de um tempo, a anormalidade fica normal.

Demetriou, o cipriota grego que morava em Varosha, disse que sonhava reabrir sua sorveteria no Chipre no final da década de 1970. Porém, como sua casa e a fábrica foram pilhadas e ocupadas pelos turcos, os bancos cipriotas se recusaram a lhe conceder um empréstimo porque ele não podia oferecer garantias. Ele e a esposa sobreviveram com o salário modesto de professora dela.

Em 2003, quando as fronteiras entre norte e sul foram abertas — criando um período de otimismo de curta duração no qual ambos os lados se aproximaram da reconciliação —, Demetriou e a irmã voltaram a Famagusta e visitaram a escola onde o pai deles lecionou, e choraram. Segundo conta, quando foi ver a casa da família do outro lado da cerca de arame farpado e perguntou a um soldado turco se poderia visitá-la, este respondeu: "Vá embora ou atiro em você."

De acordo com seu relato, a Varosha de sua mocidade era um local de praias douradas ao lado de um mar azul-celeste nas quais cipriotas gregos e turcos viviam em grande medida separados. Quando seu tio, um militar que falava turco, lhe disse que os cipriotas turcos eram compatriotas, ele se recorda de haver respondido cheio de indignação juvenil: —Não, nós somos gregos!.

—Não havia lugar melhor do que Varosha. Eu me lembro de pensar na sorte que tínhamos por vivermos nesse paraíso.

Demetriou não é otimista em recuperar a casa e o negócio. Entre dois terços e três quartos das propriedades no norte de Chipre pertenciam a cipriotas gregos em 1974, de acordo com a ONG International Crisis Group. Segundo ela, qualquer tentativa de encontrar uma resolução negociada deve tratar dos direitos de propriedade das 210 mil pessoas de ambos os lados que foram desalojadas na ilha. Muitos cipriotas gregos buscaram a restituição por meio de tribunais internacionais ou por um fundo de liquidação administrado pelo Chipre do Norte.

Cipriotas turcos argumentam que somente devolvendo o local aos cipriotas gregos a ilha pode resgatar sua antiga joia. Segundo urbanistas, demoraria dez anos, a um custo de US$ 12 bilhões, para restaurar Varosha.

Dagli, o cipriota turco de Famagusta, que participa de um grupo que promove a reconciliação, disse esperar que a economia vencesse o nacionalismo e que Varosha pudesse ser devolvida ao controle dos cipriotas gregos. Ele deseja vê-la novamente como ponto turístico sofisticado, gerando vantagens econômicas para a ilha inteira. Ele se lembra de entrar escondido na área quando criança atrás de artigos desejados, como refrigerante e sorvete, que eram proibidos no murado enclave turco nos arredores.

—Quero que Varosha seja uma cidade viva, não uma cidade fantasma— afirmou Dagli. —Não temos chance se permanecermos divididos para sempre.

Contudo, nem todos os cipriotas turcos desejam devolver Varosha. Depois da invasão de 1974, estima-se que 150 mil colonos turcos tenham chegado ao norte de Chipre, boa parte formada por agricultores pobres do continente, os quais, para os cipriotas gregos, são imigrantes ilegais usados pela Turquia como arma demográfica.

Satilmis Sisli, enfermeiro de Esmirna, costa ocidental da Turquia, mora em Famagusta, em frente à alta cerca de arame farpado que bloqueia as casas destroçadas e as igrejas ortodoxas gregas de Varosha. Ele mora há 33 anos na antiga casa de um cipriota grego, a qual enfeitou com limoeiros. O enfermeiro não pretende sair.

—Eu sou turco, então não sei se as coisas melhorariam se fôssemos reunidos - a maioria das pessoas pensa que vão piorar— declarou Sisli, parado de pé em seu perfumado jardim. —Os cipriotas gregos não voltarão enquanto os turcos mandarem aqui. E se eles voltarem, nós vamos perder tudo.

 
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