Na taça

Tintos espanhóis ressurgem das sombras

O universo do vinho se expandiu a um ritmo acelerado na última década, e nenhum lugar ilustra isso melhor que a Espanha

26/03/2013 | 17h02
Tintos espanhóis ressurgem das sombras Tony Cenicola/NYTNS
Foto: Tony Cenicola / NYTNS


O universo do vinho se expandiu a um ritmo acelerado na última década, e nenhum lugar ilustra isso melhor que a Espanha. Novas denominações se juntaram a nomes históricos. Regiões esquecidas se reinventaram. E em todos os lugares, apesar da fraca economia do país, os novos produtores começaram a concorrer em âmbito internacional.

Essa internacionalização é o ponto principal. A produção de vinho não é novidade em nenhuma das regiões espanholas. Ela faz parte da cultura há séculos, se não milênios. Mas ao contrário do que ocorria nos primeiros mil e tantos anos da vinificação no país, quando o consumo era essencialmente doméstico, ela é hoje um empreendimento de alcance mundial, que tem exigido novas formas de pensar e trabalhar.

Um dos exemplos mais importantes da transformação da Espanha é Montsant, uma pequena região da Catalunha situada sob as sombras dos morros de ardósia do Priorato.

O próprio Priorato é ao mesmo tempo velho e novo, uma antiga região da qual poucos de fora da Catalunha já tinham ouvido falar 30 anos atrás. Hoje ela é conhecida por belos vinhos tintos que conseguem combinar potência e densidade com estrutura, forma e um sentido característico do lugar. Naturalmente, eles têm preços elevados.

Montsant é uma descoberta ainda mais recente. Somente em 2001 ela se destacou na ampla denominação Tarragona e recebeu aprovação oficial como uma zona independente. Desde então, ela tem sido bastante valorizada pela sua proximidade com o Priorato, uma associação que tem revelado prós e contras.

Por um lado, como todo o mundo valoriza muito os vinhos do Priorato, o Montsant chamou atenção por produzir vinhos tintos que se assemelham aos do Priorato, mas que custam um preço bem mais acessível. Isso, claro, é bom para os negócios. Por outro lado, a constante comparação aos vinhos do Priorato tem dificultado que o Montsant desenvolva a sua própria identidade. E é possível que isso faça mal para a essência do vinho.

De que modo, então, as regiões se assemelham? A proximidade é uma coisa, mas a julgar pelos muitos châteaux comuns de Bordeaux que gostam de reiterar constantemente que estão perto dos renomados Latour ou Margaux, isso nem sempre quer dizer muito.

O vinhos de Montsant e do Priorato de fato usam muitas das mesmas uvas. Estandes de vinhas velhas de garnacha e carignan, conhecida em catalão como samso, e em castelhano como mazuelo ou cariñena, permanecem entre o que foi plantado na região ao longo da história. Eles foram complementados por uvas internacionais como syrah, cabernet sauvignon, merlot e até mesmo tempranillo.

As duas regiões também compartilham uma perspectiva catalã, e ao contrário de geografia, o papel da cultura nunca devia ser subestimado.

No entanto, as diferenças separam as regiões. O solo é o fator mais significativo. As melhores vinhas do Priorato são plantadas em encostas íngremes em solos incomuns, porosos, de ardósia, conhecidos em catalão como "llicorella", que tem rendimentos naturalmente baixos de uvas concentradas. Em Montsant, o solo é mais variado, embora seja predominantemente de uma areia granítica. Os microclimas também diferem.

Embora os produtores da área de Montsant geralmente se esforcem para fazer os mesmos estilos de vinho produzidos no Priorato, eu, pessoalmente, não acho que eles têm a mesma paixão, intensidade ou mineralidade característica dos vinhos do Priorato. No entanto, eles não deixam de ser deliciosos a seu próprio modo. No fim das contas, não é exagero compará-los ao vinhos do Priorato, desde que fique claro que os vinhos são relacionados, mas não idênticos.

Isso nos leva à questão da essência do vinho. O que os vinhos de Montsant nos oferecem, desconsiderado o peso da comparação? O painel de vinhos experimentou 20 garrafas de safras recentes, a maioria de 2009 e 2010, junto a outras de 2006, 2007, 2008 e 2011. Florence Fabricant, do New York Times, e eu nos reunimos com dois convidados de restaurantes de Manhattan: Hector Perez, diretor de vinhos da Casa Mono, e Jill Roberts, diretor de vinhos do Marrow.

Nós todos apreciamos o equilíbrio dos melhores vinhos, particularmente porque as uvas principais, garnacha e carignan, podem facilmente passar para o domínio dos doces e frutados se não forem geridas com cuidado. O que encontramos em vez disso foi uma profunda conexão temática entre muitos dos vinhos, compreendendo sabores de alcaçuz, terrosos e minerais com ocasionais componentes de ervas. Nós também ficamos surpresos ao encontrar tão poucos vinhos em que o carvalho ficava evidente, muitas vezes uma indicação de regiões emergentes ambiciosas.

"Eu esperava muito mais álcool, madeira, geleia e suco", disse Jill depois. "Deu para sentir que foi empregado um verdadeiro artesanato na produção desses vinhos."

Sejamos claros: esses vinhos são fortes, sendo que a maioria têm de 14 a 14,5 por cento de álcool, mas esse é um atributo natural no contexto de onde vêm.

Essa característica artesanal estava certamente evidente na nossa melhor garrafa, a 2010 Orto Vins, um vinho extremamente integrado que era basicamente uma mistura de carignan e garnacha, com quantidades menores de tempranillo (conhecido em Catalão como "ull de llebre") e cabernet sauvignon – que não tem um pseudônimo catalão, pelo menos não por enquanto. Ele era puro, harmonioso, até mesmo elegante, e mesmo que eu duvide de que ele poderia ser confundido com um vinho do Priorato, é um vinho que certamente poderia representar muito bem a identidade da região de Montsant.

Acontece que o viticultor do Orto, Joan Assens, trabalhou durante 15 anos para Alvaro Palacios no Priorato antes de seguir seu próprio caminho. Ele cultiva uvas de modo biodinâmico e, além do "blend" mais barato que nós experimentamos, produz quatro vinhos de vinha única, cujos preços definitivamente se aproximam mais dos cobrados por vinhos do Priorato: de 85 a 125 dólares a garrafa.

A garrafa que consideramos a segunda melhor era de um Coca I Fito de 2007, um vinho estruturado, tânico, com sabores fortes de anis e mentol. O vinho tinha 30 por cento de garnacha, 20 por cento de carignan e 50 por cento de syrah. Na verdade, vários dos outros vinhos dos quais mais gostamos tinham fortes componentes syrah, incluindo o quarto melhor, o Faunus da Ediciones i-Limitadas, de 2010 (30 por cento). Eu sempre dou preferência a uvas indígenas. Ainda assim, esses vinhos me parecem ser uma expressão clara da região de Montsant, apesar da presença de outras uvas, de modo que é difícil reclamar.

Ao mesmo tempo, o vinho que ficou em terceiro lugar em nossa lista, o Clos de Noi de 2009, foi produzido apenas com carignan. Era um vinho vivaz, com sabores terrosos de alcaçuz, e com preço de 19 dólares, o mais barato que experimentamos.

No geral, tratava-se de um impressionante conjunto de vinhos. Dada a sua localidade, a região de Montsant nunca poderá ser fisicamente dissociada da sombra do Priorato. Mas já é hora de pensarmos nos vinhos de Montsant considerando suas características específicas.

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