Pelo bem comum

"Pepino" na mão: veja histórias de síndicos de condomínios de Porto Alegre

Conheça Gilda, Paulo Cezar e André, que fizeram da tarefa uma fonte de satisfação e aprendizado

26/07/2014 | 12h02
"Pepino" na mão: veja histórias de síndicos de condomínios de Porto Alegre Fernando Gomes/Agencia RBS
Gilda Antunes Pinto atua como síndica de um condomínio de 563 casas há 15 anos Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

Na companhia de um celular e um walkie-talkie sempre ligados, dormir tornou-se uma tarefa ingrata para o aposentado Argeu Varnieri, 86 anos. A mulher dele, Gilda Antunes Pinto, 69 anos, síndica de um condomínio aberto de 563 casas no bairro Santa Tereza, em Porto Alegre, acompanha tudo o que acontece na comunidade de 2 mil moradores que mais parece uma pequena cidade do interior.

Os aparelhos tocam na madrugada com reclamações sobre música em alto volume, cachorros latindo, desavenças entre vizinhos, ou simplesmente a cada conversa via rádio entre os seguranças que circulam na ronda. Inconformado com as interrupções no sono, há alguns anos Argeu apresentou o ultimato.

– Desliga o rádio ou eu saio do quarto – ameaçou o marido.

– Então sai do quarto – resolveu a companheira. 

Apesar das camas separadas, o casamento continuou, e o trabalho de Gilda à frente do Jardim Medianeira também. Há 15 anos no posto, a aposentada começou como muitos outros síndicos: contrariada. Função que a maioria refuga, a administração de prédios e conjuntos residenciais acaba recaindo sobre o resignado que aceita o inconveniente em nome do bem comum. Gilda logo se apaixonou, profissionalizou-se e passou a ser remunerada pela tarefa. Comanda uma equipe de 12 funcionários em sistema de autogestão (sem auxílio de imobiliária).

Passa os dias às voltas com a manutenção da rede de esgoto, sinalização, iluminação, asfalto e podas. Envolve-se até com serviços que não constam da sua longa lista de atribuições, como eventuais atrasos na linha pública de ônibus criada para atender o condomínio e na coleta de lixo. Orgulha-se por ter implantado quadras esportivas e academia ao ar livre.

– Conheço todo mundo pelo nome. Sou síndica 24 horas. Incentivo que os moradores me liguem porque prefiro saber e resolver a deixá-los passar a noite com problemas. Dou atendimento até dentro do supermercado – diverte-se a ocupante do número 225 do Acesso das Rosas há três décadas.

Solidários, sim, até estourar um cano

Em “Você já foi síndico?”, texto publicado na página 2 de Zero Hora em 10 de julho, o colunista Mário Corso fez uma reflexão bem-humorada sobre as repetidas vezes em que integrou o “clube”. Considera-se um sobrevivente. “Similares às neuroses de guerra, existem as neuroses de síndico”, descreveu o psicanalista.

“Só um síndico percebe que um xixi de cachorro no corredor envolve uma semiologia ecológico-política e sua resolução requer a intervenção firme de quem poderia ser mediador da ONU. Dizem que a política é a arte do possível, sim, mas, no caso do síndico, com todos contra. Não existe piedade nem compaixão pelo síndico. Todos são solidários até que estoura um cano, cai um disjuntor, emperra o portão. Subitamente a retaguarda some. Ser síndico é uma aula de solidão”, acrescentou Corso.

Gilda é saudada pela vizinhança, mas garante não ter dificuldades para lidar com críticas. Em uma área tão grande, explica ela, é impossível trabalhar sem a ajuda dos demais apontando o que exige reparo. Mesmo sem tirar férias desde que assumiu, ela não tem planos de abandonar o emprego.

– Você se envolve tanto com os problemas das pessoas, que amadurece. Cresci muito como ser humano. Só vou parar quando morrer – projeta a aposentada. – Costumo dizer: “Vocês estão proibidos de cruzar minhas mãos no caixão”. Me coloquem um tablet numa delas e um celular na outra – brinca.

Por que assumir o "pepino"

- A tarefa motiva a cara feia da maioria, mas alguém precisa abraçá-la. Você pode se surpreender positivamente ao se descobrir um bom administrador.

- Apesar do trabalho extra, as benfeitorias serão para todos os moradores, incluindo a sua família. Que tal aceitar o cargo e dar início ao processo para implementar aquela tão sonhada área de lazer?

- Assumir a administração do condomínio não é só encarar problemas. Com uma gestão eficiente, você poderá ter o reconhecimento dos demais e ser lembrado como um gestor criativo e responsável.

- Em muitos condomínios, o síndico recebe alguma remuneração ou isenção de tarifa, o que pode beneficiar o seu orçamento doméstico.

Fontes: Newton Nunes, diretor de condomínios da Guarida Imóveis, Simone Camargo, vice-presidente de Condomínios do Sindicato da Habitação (Secovi-RS), e SíndicoNet 

Oito prédios, quatro mil histórias

Síndicos costumam colecionar uma numerosa relação de episódios curiosos e dificuldades contornadas que, com o passar do tempo, transformam-se em histórias divertidas. Acumulam experiências diversas que acabam credenciando-os para gestões consecutivas. Quando driblam bem as adversidades, são incentivados a continuar.

– Já fui engraxate, jornaleiro, gerente de loja. Sempre tive contato com o público. Você aprende a lidar com conflitos. Gosto de encrenca, desde pequeno – justifica Paulo Cezar Vieira, 62 anos, 25 deles revezando-se como síndico e vice-síndico do Condomínio Conjunto Residencial Felizardo Furtado, entre os bairros Jardim Botânico e Petrópolis, na Capital.

Vieira dirige uma imensidão de oito prédios, 952 apartamentos e 4 mil moradores. Afirma conhecer cada recanto – já sabe de cor as particularidades das redes elétrica e hidráulica, dispensando a consulta às plantas. Entre as ocorrências mais inusitadas de seus turnos de trabalho, o síndico destaca duas: uma vez, testemunhou um triângulo amoroso se desfazendo.

O amante da moradora colocou o marido dela para fora de casa, e o cônjuge recém-expulso pediu que Vieira o ajudasse a retomar o comando como proprietário do apartamento. Em outra ocasião, o síndico flagrou um rapaz pulando de uma janela do terceiro andar. “O que houve? É ladrão?”, questionou Vieira, apressando-se para ajudar. O desconhecido apenas correu, sem revelar por quais apuros estava passando.

Os problemas mais frequentes envolvem barulho, causado principalmente por grupos de jovens que se reúnem no pátio. Vieira já se arriscou em nome da manutenção da ordem, desafiando bagunceiros:

– Briguei, apanhei, bati, corri de facão atrás de muita gente.

Na antevéspera de um Réveillon recente, um acidente quase comprometeu os festejos da família de André Didoné, do Condomínio Horizontal Conde da Figueira, na Vila Jardim. Ele se viu enredado com um imprevisto que se tornou múltiplas vezes mais complexo por ocorrer em pleno feriadão.

Um motorista colidiu o carro no portão de entrada, derrubando a estrutura e pondo em risco a segurança. Apesar do trabalho extra, Didoné, que se afastou do cargo depois de duas gestões e se viu impelido a voltar ao comando, afirma ter aprendido a exercitar a tolerância ao atuar como síndico. Hoje, gosta dos afazeres.

– Sou publicitário, sou síndico e sou chato – apresenta-se, rindo. – Ninguém quer pegar o pepino. Todo mundo reclama, mas ninguém assume. Gosto das coisas certas. Se existe uma regra, ela tem de ser cumprida – completa.

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