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Às vésperas do leilão que pretende levar internet de altíssima velocidade a pequenas cidades e áreas rurais do país - sistema que funcionará a pleno, na prática, só em 2019 -, o 4G segue como artigo de luxo mesmo nas capitais.
Além de os pacotes de dados e smartphones capazes de usar a internet de quarta geração custarem até 30% a mais do que o serviço 3G, usuários relatam dificuldade de assistir a vídeos e baixar arquivos pesados com a nova tecnologia.
O site Reclame Aqui aponta mais de duas mil reclamações contra operadoras por lentidão ou ausência de sinal. Uma pesquisa realizada em julho pelo portal mostrou que 76% dos usuários estavam decepcionados com o serviço.
- Na pressa em disponibilizar o 4G para a Copa do Mundo, o governo ofereceu uma frequência pouco atraente às operadoras. Muitas fizeram propostas no leilão para garantir mercado, mas não investem o que poderiam - explica Luis Mateus da Silva Matos, especialista em telecomunicações e professor da Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap).
No Rio Grande do Sul, 174 mil pessoas utilizam a quarta geração do acesso a dados, disponível em nove cidades do Estado. No Brasil, são 3,3 milhões de usuários. Muitos adquiriram pacotes às vésperas do Mundial, sedentos por compartilhar nas redes sociais vídeos e fotos feitos nos estádios.
- Quando pega, o 4G é ótimo. O problema é que em alguns pontos de Porto Alegre e, principalmente, na Região Metropolitana, o sinal cai para 3G e até para Edge (rede de dados anterior ao 3G) - reclama o empresário Francisco Cantarutti, mensalista de plano 4G desde junho.
Para entender os problemas enfrentados pelos usuários hoje, é preciso retroceder a 2012, quando um primeiro certame ofereceu às operadoras a faixa de 2,5 gigahertz (GHz) para trafegar o sinal de 4G. Embora estivesse desocupada, essa frequência exige investimentos em antenas e redes de transmissão mais altos do que as frequências menores. A banda mais indicada, de 700 megahertz (MHz), será leiloada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em 30 de setembro - mas as redes só começam a ser ocupadas cinco anos depois.
- Até que a transmissão em 700 MHz comece, as operadoras devem continuar investindo na ampliação do 3G, que ainda tem bom espaço para avançar no Brasil - afirma Eduardo Tude, diretor da consultoria Teleco.
Preço do serviço não deve cair nos próximos anos
A migração de usuários para o 4G deve ocorrer principalmente nas capitais, onde a conexão já é relativamente boa. Conforme a consultoria em telefonia Teleco, 100 milhões de brasileiros contarão com pacotes de 4G até 2019. O interesse pelo serviço não garante que a qualidade vá melhorar.
- A tendência é de que as operadoras façam os investimentos mais pesados em 4G quando a frequência de 700 MHz estiver livre - afirma Matos, da Fiap.
Enquanto isso, reclamações como as de Cantarutti não devem cessar. O empresário de Porto Alegre questiona a velocidade de conexão: a operadora oferece acesso a até 100 megabits por segundo (Mbps), mas a velocidade raramente passa dos 10 Mbps, segundo ele.
E, mesmo com a previsão de que a instabilidade de sinal persistirá, o preço não deve mudar muito. Como a quarta geração consome um volume muito maior de dados, especialistas preveem que o serviço continue mais caro - hoje, os pacotes custam cerca de 30% mais em relação ao 3G. O valor dos aparelhos de telefone tende a cair, com a chegada de mais concorrentes. O que não chega a ser um alento, afinal o consumidor seguirá tendo de trocar de aparelho em espaços curtos de tempo.
Nova frequência, só em 2019
A transmissão do 4G pela rede de 700 MHz depende do fim da TV analógica, cujo sinal transita pela mesma frequência. O governo marcou a desativação para 2018, e apenas um ano depois as operadoras poderão oferecer internet nessa faixa. Com isso, uma frequência que atualmente é utilizada gratuitamente pelos espectadores da TV aberta será "comprada" pelas empresas de telefonia. E terá o uso cobrado. Até lá, o tráfego continuará ocorrendo na faixa 2,5 GHz, onde as antenas de telefonia têm um alcance menor - o que explica os pontos cegos em cidades como Porto Alegre.
O desligamento das TVs analógicas repete procedimento feito em outros países. No Brasil, o custo será pago pelas operadoras no leilão da Anatel, que deve movimentar R$ 11,8 bilhões.
Quem usa o 4G hoje terá de comprar outro aparelho quando a nova faixa ficar disponível. O motivo é que os smartphones atuais estão homologados para utilizar o 4G apenas na faixa de 2,5 GHz, para não interferir no sinal das TVs. Com o novo leilão, os celulares poderão usufruir das duas faixas e serão compatíveis com sinais de mais 20 países. E pode ser a chance de Francisco Cantarutti receber o que contratou:
- Pago por 4G, mas uso muitas vezes o 3G.
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No rastro dos desenvolvidos
Curiosamente, o Brasil não está muito atrás de países desenvolvidos na propagação da telefonia de quarta geração. Como os investimentos na ampliação do 3G foram maciços nos últimos anos, atendendo ao uso efusivo dos smartphones, Estados Unidos e países europeus e asiáticos não se apressaram em dar os primeiros passos para a geração seguinte.
- Em muitas cidades desenvolvidas, empresas e operadoras têm investido em wi-fi para desafogar o tráfego da internet e contemplar usuários de diferentes operadoras, caso dos turistas. O 4G é promissor para daqui a alguns anos, mas hoje ainda é pontual em algumas metrópoles - explica Luis Minoru Shibata, diretor da consultoria de Telecom Promon Logicalis.
No mundo, são 245 milhões de usuários do 4G, especialmente em países que puxam as tendências da tecnologia, como EUA, Japão, Coreia do Sul e nações europeias, conforme a consultoria Opensignal. É pouco menos de 20% do público do 3G: até o final do ano passado, as conexões da terceira geração chegavam a 1,7 bilhão no planeta, conforme um estudo da Teleco.
Como o 4G vai mudar a sua rotina (daqui a 5 anos)
Na quarta geração, praticamente todas as funções de smartphones passam a depender da internet e não mais da rede telefônica
- Mensagens de texto e ligações vão evoluir para áudio e vídeo. Dessa forma, chamadas deixam de ocupar a rede telefônica e migram para internet, como ocorre hoje com VoIP.
- Smartphones rodarão vídeos em alta definição e baixarão arquivos pesados sem a ajuda de wi-fi.
- Jogos no celular vão ser cada vez mais sofisticados e ainda mais interativos com outros usuários.
- Os arquivos estarão todos na nuvem (ambiente de armazenamento online), independentemente do formato e tamanho.
- Redes sociais mais ricas: o Facebook poderá ser inundado de vídeos, e nem por isso travará.
- Tablets e smartphones serão mais usados nas áreas de saúde e educação para atendimento e procedimentos à distância.
Fonte: Eduardo Arruda, vice-presidente da Assespro-RS