
Seduzidos pela promessa de anonimato, usuários sucumbem ao apelo do aplicativo para celulares e tablets mais comentado dos últimos dias: falar o que quiserem sem serem identificados. O Secret permite a conexão com amigos e desconhecidos, que interagem por meio de curtidas e comentários, sem que as identidades sejam reveladas.
Lançado nos Estados Unidos, o app nasceu com a proposta de "incentivar as pessoas a compartilhar seus pensamentos e sentimentos mais profundos, gerando conversas genuínas que seriam impossíveis de outra forma", como explica sua apresentação. Exibe confissões (a sexualidade é um tema recorrente) e amenidades, mas se transformou em ambiente propício para a disseminação de mentiras e preconceitos. Entre adolescentes, é a mais nova plataforma para o bullying.
Bruno Henrique de Freitas Machado, 25 anos, consultor de marketing de São Paulo, despontou como um dos primeiros a se rebelar, entrando na Justiça com uma ação que pede o bloqueio do serviço (leia mais na página ao lado). Em escolas da Capital, multiplicam-se os casos de estudantes vítimas de postagens maldosas - nos episódios mais graves, meninas nuas são muitas vezes identificadas pelo nome. Juliana*, 16 anos, teve uma foto roubada do celular por um colega. Na imagem publicada no Secret na última semana, aparece submersa em uma banheira, com a nudez se revelando parcialmente. "Caiu na rede é peixe", debochava a legenda. A mãe decidiu prestar queixa na delegacia e procurar a direção do colégio para exigir providências:
- Ela ficou dois dias chorosa, com vergonha. Disse que se sentiu abusada. Eu fiquei muito furiosa. A imagem de uma pessoa é sagrada.
Comportamento impulsivo do jovem provoca consequências
Mariana*, 16 anos, também de Porto Alegre, ficou sabendo por intermédio de amigos que o tamanho do seu nariz tinha virado assunto no aplicativo.
- Fiquei chocada. Me senti mal. Minha autoestima já é baixa. É uma covardia, uma agressão - relata a menina.
Psicóloga do Grupo de Estudos Sobre Adições Tecnológicas e do Centro de Estudos, Atendimento e Pesquisa da Infância e Adolescência, Aline Restano destaca que essa fase do desenvolvimento é marcada pela impulsividade. Ainda em formação, o jovem, muitas vezes, age sem pensar, o que na internet pode ter consequências imprevisíveis.
- O cyberbullying é considerado pior do que o bullying "real" porque as vítimas têm a sensação de que todo mundo sabe, não adianta mudar de escola ou cidade para ter uma nova chance. O impacto é muito maior. Algumas se isolam, têm depressão ou até se suicidam - alerta Aline.
Entusiasta das redes sociais por fortalecerem os laços entre famílias e escola, o professor de filosofia Betover Santos costuma debater os riscos da superexposição. Recentemente, aproveitou conceitos previstos no plano de aula da disciplina, como ética e moral, para orientar turmas de Ensino Médio sobre o comportamento online.
- Quais as consequências daquilo que torno público? Tudo no mundo virtual, mesmo que anônimo, possui implicações morais e éticas. As redes exigem uma relação de zelo, cuidado, reciprocidade. Posso postar qualquer coisa, mas isso está passível de inúmeras interpretações. Qual o limite do que posso tornar público? O que ainda precisa permanecer no privado? Quanto mais idôneo, consciente, racional eu for, melhor será o uso da internet na minha vida - analisa o professor de filosofia.
* Nomes fictícios para preservar a identidade das entrevistadas
Como funciona o Secret
- Lançado em janeiro nos Estados Unidos e em maio no Brasil, o aplicativo permite a publicação de textos e fotos de forma anônima. Está disponível para download na Apple Store e na Google Play Store.
- Para se cadastrar, é necessário informar o e-mail e o telefone. É possível também fazer o login via Facebook. O app afirma que o sigilo do usuário será garantido.
- Pode-se fazer uma busca entre pessoas de sua lista de contatos e convidá-las a integrar a rede, a partir de um e-mail anônimo. Você estará publicando conteúdo para esse grupo de amigos e para amigos de amigos, mas sem saber exatamente quem são eles, e também para desconhecidos, se optar por essa alternativa.
- Cada post pode ser comentado ou "curtido", sendo sinalizado com corações. Um ícone específico indica o autor do post no caso de ele interagir com os demais usuários que se manifestarem ali.
- Se encontrar conteúdo que julgue inadequado, o usuário pode denunciá-lo. O app também permite bloquear o autor da postagem.