Religião

Ser brasileiro e ser católico não é mais a mesma coisa. Quais serão os impactos desta mudança?

Perto de metade da população brasileira já não se considera rebanho do papa; grande parte de quem ainda é filiado à Igreja Católica não pratica - e mal conhece - a religião

09/04/2016 - 08h58min | Atualizada em 10/04/2016 - 15h16min
Ser brasileiro e ser católico não é mais a mesma coisa. Quais serão os impactos desta mudança? Carlos Macedo/Agencia RBS
Na Paróquia São Pedro, na Capital, o vigário Tarcísio Scherer lamenta: "As igrejas enchiam duas, três vezes no mesmo dia. Era feio não expressar publicamente a fé"  Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS  

Pedro Álvares Cabral ordenou que se erguesse um altar na praia da Coroa Vermelha, convocou seus capitães a passar das caravelas para batéis e desembarcou na faixa de areia. Era um domingo, dia do Senhor. Sob a bandeira de Cristo, cercado pela exuberante vegetação tropical, o frade franciscano Henrique Soares de Coimbra pregou o Evangelho, falou da cruz e da nova terra na qual ela acabara de chegar e entoou missa – a primeira celebrada nesta parte do mundo. Era 26 de abril de 1500. O Brasil nascia ali, sob a égide da Igreja Católica.

Durante a maior parte dos cinco séculos seguintes, o país e a religião permaneceriam indissociáveis. Como a licença papal concedida aos portugueses para explorar o Novo Mundo estava condicionada à expansão da fé, colonização e evangelização confundiam-se. Com o conquistador, vinha o padre. O amálgama entre Brasil e catolicismo foi tal que, até a proclamação da República, em 1889, Estado e Igreja mantiveram-se fundidos no regime conhecido como padroado. 

O país se fez ao redor de igrejas construídas na praça central de cada cidade ou vilarejo, aprendeu as primeiras letras em escolas geridas por padres e freiras, formou seu imaginário escutando as histórias dos personagens do Antigo e do Novo Testamento, construiu toda uma cultura baseada no alicerce dos valores católicos. Em 1940, meio século após a separação entre Igreja e Estado, 95% dos brasileiros se declaravam seguidores do Papa.

Agora, passados 516 anos do primeiro domingo de missa, esse país não existe mais. A maior nação católica do mundo já não é tão católica assim. Pela primeira vez na história, talvez já nem se possa mais dizer que o Brasil é um país católico.Essa é uma transformação significativa, que vem se anunciando nas estatísticas há mais de 40 anos. Durante esse período, a proporção de membros da Igreja na população despenca cerca de 10 pontos percentuais a cada década. Em 1980, eles ainda eram 89%. Passaram rapidamente a 83,3% (1991), 73,6% (2000) e 64,6% (2010). O próximo Censo ocorre apenas daqui a quatro anos, mas especialistas acreditam que ele vai flagrar a continuidade dessa tendência – a dúvida é apenas quanto ao tamanho do tombo.

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Algumas pesquisas recentes sugerem que pode ser robusto e que a maioria católica possa estar ameaçada. O Datafolha, que mede a religiosidade do brasileiro desde 1994, detectou apenas 57% de católicos em 2013 – no levantamento anterior, em 2010, o índice foi de 63%, quase igual ao do Censo. Na avaliação do Pew Research Center, uma instituição norte-americana, o declínio se confirma, mas em ritmo menos alucinante: em 2014, 81% dos brasileiros diziam ter sido criados como católicos, mas só 61% afirmavam ser católicos.As pesquisas que chamam mais atenção e que permitem prever um Brasil não-católico são aquelas centradas nas faixas etárias mais baixas – grupos que serão os brasileiros de amanhã e sob cuja orientação vai ser moldada a religiosidade das próximas gerações. Para a maior parte desses jovens, a igreja apostólica romana dos seus pais e avós significa pouco. Levantamento feito três anos atrás pelo Instituto Data Popular apontou que só 44% dos brasileiros de 16 a 24 anos definiam-se como católicos. Em alguns estratos, há indícios de que os crentes sejam ainda mais minoritários. Em 2015, a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) realizou uma pesquisa, em todas as unidades da federação, com pessoas de 18 a 34 anos. A amostra não refletia o perfil exato do brasileiro, privilegiando pessoas de classes B e C e com instrução acima da média. Mesmo com esse reparo, o dado espanta: só 34,3% disseram seguir o catolicismo.

O bispo auxiliar de Porto Alegre Leomar Antônio Brustolin, que coordena a pós-graduação em Teologia da PUCRS, reconhece: o Brasil já não pode mais ser definido como um país católico. Ele avalia o encolhimento do rebanho como parte de algo mais amplo, um enfraquecimento dos valores cristãos.

– Temos feito há anos essa reflexão na Igreja Católica. Constata-se, e essa é inclusive a posição da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos dos Brasil), que vivemos numa sociedade pós-cristã. Permanecem, por exemplo, os feriados nas datas do cristianismo, mas eles não têm mais o mesmo significado e a mesma vivência – diz o bispo, que relata ter provocado controvérsia, durante uma celebração de Corpus Christi, por defender a ideia de que certos feriados católicos deveriam ser revistos no Brasil, uma vez que seu sentido se perdeu para grande parte da população. – Quando o nosso pai morre, a gente não continua celebrando o aniversário dele – compara.

Os jovens guardiões

Na arquidiocese de Porto Alegre, onde Brustolin atua, dados sobre a administração dos sacramentos oferecem um vislumbre da "descatolização" em curso. Segundo a edição de 2015 do guia do arcebispado, a quantidade de batizados, primeiras comunhões, crismas e casamentos nos 29 municípios da jurisdição é pouco expressiva e, além disso, recuou de forma acelerada. Em 2008, foram batizadas 26,8 mil crianças. Mas o número diminui ano após ano, até chegar à marca dos 20,8 mil em 2013. No mesmo período de apenas seis anos, verificaram-se quedas ainda maiores na primeira eucaristia (de 14,9 mil para 8,2 mil), nas crismas (de 7,6 mil para 4,8 mil) e até nos casamentos (de 3,1 mil para 1,8 mil).

Quando as pessoas deixam de ser batizadas, de fazer a catequese e de se crismar, corre-se o risco de uma ruptura cultural e sociológica. Até uma ou duas gerações atrás, ser brasileiro significava, em larga medida, crescer em um lar decorado com imagens de Cristo e dos santos, ter uma avó ou tia devota que exigia a presença semanal na missa, absorver uma série de costumes, superstições e narrativas de origem católica e ter nos sacramentos uma espécie de formação obrigatória. Os referenciais de um indivíduo tinham origem nesse contexto religioso. No momento em que a igreja saiu de dentro das casas e em que as pessoas saíram de dentro das igrejas, esses referenciais se esmaecem. É mais ou menos como se, na Grécia Antiga, os helenos deixassem de conhecer sua mitologia.

Essa realidade aparece com frequência diante de Deonira Viganó La Rosa, 75 anos, que há três décadas coordena encontros para formação de casais decididos a celebrar o matrimônio na igreja. No passado, diz ela, esses cursos tinham como foco os ensinamentos de biologia humana, de métodos anticoncepcionais e de economia doméstica. Na atualidade, quando em geral os noivos já vivem juntos e já têm experiência sexual, tais tópicos perderam a razão. O que antes era desnecessário, falar sobre princípios fundamentais do cristianismo, passou para o primeiro plano.

– Quase sempre, esses casais têm formação superior, porque os pobres não casam na Igreja. Moram juntos e, quando decidem ter filhos, resolvem casar. Pensam que o casamento na igreja é uma bênção. Não desmerecemos, mas explicamos que não é isso, fazemos compreenderem que é uma opção mútua de amar e respeitar pela vida toda. Ele dizem que nunca vão à missa. Perguntamos: o que vocês acham que é ser cristão? Quem é Jesus Cristo? Quais são os mandamentos que ele trouxe? Daí, a gente se choca. Eles não sabem – conta Deonira.

A abordagem de Deonira, além de falar do Evangelho, consiste em argumentar que, mesmo estando afastados da Igreja, os noivos são cristãos, porque compartilham dos valores trazidos por Jesus. 

– Eles chegam para a formação amedrontados, acham que vai ter um padre passando moral e fazendo proibições. Essa é a imagem que as pessoas têm da Igreja, uma imagem doutrinária. Veem a Igreja como uma coisa arcaica. Eu digo que, toda vez que amam o próximo, eles estão sendo católicos – afirma.

Essa forma de pensar não é consensual. Se Deonira entende que mesmo aqueles que nutrem dúvidas sobre a própria ligação com a Igreja podem se considerar católicos, caso compartilhem de determinados valores, muitas figuras dentro da hierarquia eclesiástica apresentam um ponto de vista oposto: o de que grande parte dos que ainda afirmam ser católicos, no Censo e nas pesquisas, na verdade não o são. O padre Leandro Chiarello, pároco da Igreja do Rosário e professor da PUCRS, fornece um exemplo:

– Vinte ou 30 anos atrás, a pessoa que se divorciava sofria restrições na família e na sociedade. Hoje, quem sofre a restrição social é quem está casado. Quando a pessoa diz que está casada há 20 anos, a reação dos outros é de espanto. E o cara ainda acha necessário acrescentar: "E casado com a mesma mulher". Existe uma contradição entre teoria e prática. Se tu perguntares qual religião segue, a pessoa responde: "Sou católico". Mas ela não vai à missa, não se compromete com a comunidade, não se envolve. Dos 100 milhões de brasileiros que se dizem católicos, muitos não levam a sério os ensinamentos de Cristo e da Igreja. Na época em que 85% das pessoas se diziam católicas no país, o cardeal Aloísio Lorscheider costumava usar uma frase interessante: "Na verdade, católicos mesmo são só 6%".

O fenômeno mencionado por Chiarello é algo já documentado em uma série de pesquisas. Elas mostram que a quantidade minguante de brasileiros que se define como católica expressa opiniões e crenças frontalmente contrárias à doutrina. Em 2011, como parte de seu mestrado em Teologia, Edson Frizzo entrevistou 1.104 alunos de Humanismo e Cultura Religiosa, disciplina obrigatória nos cursos de graduação da PUCRS. A maior fatia (61,2%) definia-se como católica, mas a crença era de fachada. Apenas 19,2% acreditavam na ressurreição, menos do que os crentes na encarnação (44%). No que dizia respeito a valores, revelou-se um festival de anticatolicismo: os estudantes eram a favor do divórcio (90,9%), da eutanásia (64,1%), do aborto (56,6%), da pena de morte (50,7%), do controle artificial de natalidade (72%), do sexo antes do casamento (92,9%) e da união homossexual (52,5%).

– A doutrina católica não mudou, continua a mesma. Mas as pessoas começaram a pensar diferente. Virou comum dizer: "Sou católico, mas em tal questão sou contra a Igreja" – observa Frizzo.

Ele atua no Curso de Liderança Juvenil (CLJ), um dos grupos de jovens mais importantes da estrutura católica, e observa que está cada vez mais difícil arrebanhar – nas escolas e nas famílias – gente interessada em participar: 

– Em paróquias nas quais, algum tempo atrás, teríamos seis ou sete jovens entrando por semestre, agora são três ou quatro. Hoje eles têm outras ofertas, têm o shopping, a praia, a praça, os amigos, a diversão. Parece que a Igreja vai na contramão da modernidade. Alguns chegam sem a primeira comunhão, sem a crisma. Estão meio perdidos. O que sabem de Jesus é só o que viram em filmes.

Mariana Endres, 20 anos, sente-se discriminada na faculdade: "É muito difícil falar em Deus. Todo mundo diz que é ateu"  Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Uma dificuldade adicional é que os identificados com a Igreja passaram a ser vistos como E.T.s. Segundo Frizzo, os jovens católicos relatam ser alvo de preconceito, de piada, de bullying. Alguns se retraem e preferem esconder a própria fé, para não serem vistos como criaturas esquisitas. Estudante de Pedagogia na UFRGS e vice-presidente do CLJ no vicariato de Porto Alegre, Mariana Endres, 20 anos, considera-se um pouco isolada entre os colegas de faculdade. Confessa sentir alguma discriminação por ser religiosa e conta que, com frequência, embarca em discussões durante as aulas – como quando algum professor defende a legalização do aborto.

Uma das questões que geram incredulidade entre seus colegas é sua decisão de não ter relações sexuais antes do casamento. Ela namora um rapaz há quatro anos. "Como assim? Tu não vais experimentar? Como é que sabes que depois vais gostar?", questionam os colegas. Mariana não cala o que pensa:

– Defendo valores, defendo a castidade, defendo a Igreja e me oponho ao casamento gay em uma sala de aula onde todo mundo pensa o contrário. Como é que não vou defender as coisas que mais amo? Mas é muito difícil falar em Deus. Na faculdade, todo mundo diz que é ateu. É como se eu vivesse em dois mundos. Um durante a semana, entre pessoas sem Deus, e outro nos fins de semana, que dedico à Igreja.

No caso do estudante de Direito da UFRGS Michael Jacques, 22, o pensamento diferente também está dentro de casa. Vindo de uma família sem prática religiosa, não foi batizado, não fez a primeira comunhão e nunca frequentou missa. Aos 18 anos, amigos do colégio convidaram-no a fazer parte do CLJ. Ele resistiu, mas acabou aceitando, motivado pela curiosidade e pela amizade. Foi conquistado. Como já era adulto, teve de fazer a catequese junto a uma gurizada de 13, 14 anos.

– Eu tive de partir do zero, porque não sabia praticamente nada – conta.

Na faculdade, Jacques não esconde seu catolicismo, mas também não costuma se posicionar:

– Em uma turma de 35 alunos, só uns cinco praticam. Acredito que, se eu falasse sobre religião, seria mal recebido. As pessoas estão muito apegadas a ideias materialistas. Negam a realidade de Deus.

Michael Jacques, 22 anos, sente-se isolado na universidade: "Em uma turma de 35 alunos, só uns cinco praticam o catolicismo"  Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Diante desses jovens que crescem em famílias sem prática religiosa e dos noivos que procuram a bênção sem saber direito quem é Jesus, a Igreja se vê forçada a voltar ao be-a-bá. Na arquidiocese de Porto Alegre, está em andamento uma iniciativa para duplicar o tempo de duração da catequese e do curso de preparação para a crisma. A formação total, de dois anos, passará para quatro. O bispo Brustolin observa:

– Em uma sociedade na qual a maioria é cristã, basta nascer que você vai aprendendo tudo naturalmente, olhando para o pai, para a mãe e para os irmãos. Agora é como se alguém chegasse de uma outra cultura, como a japonesa, e dissesse: eu gostaria de ser cristão. Tem de começar da base.

O próprio diálogo entre gerações ou com o passado pode se tornar difícil. A laicização significa, por exemplo, que um brasileiro deste início de milênio provavelmente se sentirá em território estranho quando percorrer os clássicos de nossa literatura. Tome-se Machado de Assis, geralmente considerado um ateu niilista. Mesmo que desprovido de fé, ele estava mergulhado em um cultura católica, que transparecia em cada uma de suas páginas. Esse imaginário era compartilhado com seus contemporâneos, que não teriam dificuldade para compreender um parágrafo como o seguinte, do Dom Casmurro: "Como Abraão, minha mãe levou o filho ao monte da Visão, e mais a lenha para o holocausto, o fogo e o cutelo. E atou Isaac em cima do feixe de lenha, pegou do cutelo e levantou-o ao alto. No momento de fazê-lo cair, ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do Senhor: 'Não faças mal algum a teu filho; conheci que temes a Deus'. Tal seria a esperança secreta de minha mãe. Capitu era naturalmente o anjo da Escritura". Ao leitor médio de hoje, essa passagem pode parecer impenetrável.

As tradições abandonadas

A mudança de pontos de referência e de mentalidade é algo que pode ser verificado dentro das famílias brasileiras. O padre Attilio Hartmann, diretor da Livraria Padre Reus, é um entre 11 irmãos. Sete deles abraçaram a vida religiosa: dois como sacerdotes e cinco como freiras. Na geração seguinte, já não é possível encontrar tanta devoção na família. 

– Nem precisa fazer pesquisa para ver como mudou. Para meus irmãos que têm filhos, é muito difícil fazê-los ir à missa. São gente muito boa, mas a religião não fala para eles – diz Attilio.

Entre os irmãos de Attilio que enfrentam essa dificuldade está Alice Hartmann Cornelius, 71 anos, ministra da eucaristia na paróquia de São Pedro da Serra, município a meio caminho entre Montenegro e Bento Gonçalves. Ela tem quatro filhos. Sonhava que um deles se tornasse padre, e de fato dois entraram para o seminário – mas acabaram desistindo. Hoje, a mãe já ficaria faceira se os filhos fossem católicos praticantes:

– Eles só vão à Igreja uma vez que outra. São adultos, então não posso obrigá-los. Fico triste, às vezes. Digo a eles que de vez em quando é bom ir à missa. Acredito que um dia eles vão acordar.

Irmã de padre, Alice Hartmann, 71 anos, despede-se dos filhos e vai sozinha à missa na paróquia de São Pedro da Serra  Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Um dos filhos que estiveram para realizar o sonho de Alice é o eletricista João Rodrigo Cornelius, 38 anos. Aos 13, ele ingressou no Seminário de Gravataí, em regime de internato. Estava empenhado em virar padre. Após três anos, concluído o Ensino Fundamental, transferiu-se para o Seminário de Bom Princípio. Lá, encontrou uma realidade bem diferente. A vocação não resistiu.– 

Em Bom Princípio, o seminário era no centro da cidade. Comecei a sair no fim de semana, a jogar futebol com outros jovens, a conviver com pessoas diferentes, a ter contato com outras formas de pensamento. Pedi para sair do seminário por um ano e não voltei mais – conta João Rodrigo, que se define como católico, mas diz não frequentar muito a igreja.

O outro ex-seminarista da família Hartmann é o irmão mais velho, o representante comercial André Francisco Cornelius, 41, que passou dois anos estudando para ser padre, antes de mudar de ideia. Ele também diz que continua a se considerar católico, mas nem isso, nem a formação como seminarista convenceu-o da importância de casar na Igreja. Ele e a mulher, pais de duas crianças, não tiveram matrimônio religioso.

– Isso é comum. O anormal hoje é casar na Igreja – afirma André.

Dotada de apenas 3 mil habitantes, São Pedro da Serra é dominada por uma igreja imponente, com cerca de 600 lugares, capaz de acolher um quinto da população local. Mas não é algo que costume acontecer. Alice, que comparece a todas as missas, queixa-se de que o templo está cada vez mais vazio:

– A igreja é quase uma catedral. Quando eu era criança, havia missa todo dia, sempre lotada. Hoje, é apenas na quarta, no sábado e no domingo, mas só enche no Domingo de Ramos, na Semana Santa e no Natal. No resto do ano, é muito, muito espaço vazio. Eu me entristeço bastante.

Às 19h de uma quarta-feira do final de março, ZH acompanhou Alice à missa. A idosa despediu-se dos quatro filhos, que ficaram em casa, e fez a pé o curto caminho até o templo. Na imensa nave, encontrou o padre, Isaías Colling, a concidadã responsável por tocar o órgão e mais oito fiéis, nenhum jovem entre eles. Todos se aglomeraram junto ao altar, deixando atrás de si um mar de bancos desocupados. No final da celebração, uma devota entrou, esbaforida. Não chegara no horário porque estava jogando vôlei.

O sacerdote reconhece que a sensação de rezar em uma igreja quase vazia é incômoda:

– A gente fica se questionando: será que preciso melhorar? Será que a mensagem não está boa? Será que o problema é o horário? Mas eu sempre acho que não posso trabalhar pensando nos que não vêm. Tenho de focar nos que vêm, mesmo que sejam poucos.

Às 19h de uma quarta-feira do final de março, Alice foi à missa e, na imensa nave, encontrou o padre, Isaías Colling, a concidadã responsável por tocar o órgão e mais oito fiéis, nenhum jovem entre eles Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Colling tem 27 anos, foi ordenado há um ano e meio e está há três meses à frente da paróquia. 

Se no passado qualquer um que decidisse ser padre tornava-se venerável de imediato, no caso dele, que fez a formação já neste terceiro milênio, a experiência foi distinta. Sua escolha era questionada a todo momento por pessoas de sua geração, especialmente a opção pela castidade:

– Quando optei por ser padre, parecia que o mundo estava em um caminho e eu seguia na contramão.

As migrações da fé

A mudança dos ares religiosos em São Pedro da Serra permite entrever que, quando se fala em "descatolização" do Brasil, há uma série de facetas a examinar. Uma delas, bastante evidente, é a da volatilidade do catolicismo nacional. Para muitos, declarar-se católico parece ter sido uma forma rebuscada de indiferença religiosa, a resposta a uma pressão social. Todo mundo ia à missa, observa o padre Attilio, mas era em grande parte por imposição. Surge assim essa figura insólita e tão brasileira, o "católico não-praticante", que ninguém sabe quantificar.

É esse universo não-praticante, supõe-se, que responde por uma parte muito expressiva das pessoas que deixaram de se considerar católicas. Há, nesse particular, pelo menos dois fenômenos. De um lado, encontra-se a perda de fiéis para outras agremiações, especialmente pentecostais e neopentecostais, um tema já estudado e explorado à exaustão. O segmento evangélico foi o que mais cresceu no país no passado recente. Em 1991, abrangia 9% da população. Em 2010, 22,2%. 

A maior parte desses adeptos saiu das hostes papistas. Segundo dados do Pew Research Center, 54% dos protestantes brasileiros foram originalmente criados como católicos. Nesse caso, o afastamento do catolicismo não implica saída da esfera cristã. Mas a Igreja de Roma também perdeu adeptos para a descrença total ou para a simples desvinculação de qualquer instituição. Os que se declaram sem religião passaram de 5% para 8% em duas décadas. Na pesquisa da PUCRS realizada no ano passado entre jovens, o ateísmo, o agnosticismo e a fé sem religião somaram 32,14% das respostas.

– A descatolização é, em grande medida, uma desdogmatização. Esse é o grande fenômeno. A questão do "é assim e pronto" não funciona mais com as novas gerações. Esse pessoal pergunta muito "por quê". Para os jovens de hoje, por exemplo, a família é um jogo de montar, é uma família Lego, mesmo que isso contrarie a doutrina religiosa. É por isso que há tanta gente dizendo que tem fé, mas não religião – comenta Ilton Teitelbaum, coordenador da pesquisa.

A transformação cultural também abriu caminho para a expansão dos que se declaram ateus – um tipo de posicionamento que até pouco tempo atrás era tabu no Brasil. Em 2008, o engenheiro civil Daniel Sottomaior, curitibano radicado em São Paulo, descobriu comunidades de ateus na internet e fundou a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), que combate a discriminação e o preconceito contra quem não tem fé. No final de 2010, a agremiação tinha 1,7 mil sócios. Passados pouco mais de cinco anos, tem 10 vezes mais: 17,4 mil. O Rio Grande do Sul se destaca. Apesar de responder por 5,5% da população brasileira, abriga 8,4% dos filiados à Atea. A página da entidade no Facebook acumula 485 mil fãs.

– Nosso crescimento foi enorme. As pessoas se sentem mais à vontade para se declarar ateias. Mas estão saindo do armário lentamente. Uma coisa é você se associar no recôndito do seu quarto. Outra coisa é vestir a camiseta. Vemos isso na nossa página do Facebook. Nas postagens, as pessoas dizem que gostariam muito de compartilhar, mas que não vão fazer isso porque vão ter problemas, porque a família é religiosa – observa Sottomaior.

Na avaliação dele, no grupo majoritário que se declara católico dentro da população brasileira há uma proporção considerável de pessoas que já não o são. É desse contingente que saem os que optam pelo caminho do fervor evangélico pentecostal ou, ao contrário, pela rejeição à fé ou pelo menos à fé institucionalizada. O teólogo Faustino Teixeira, do programa de pós-graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal Juiz de Fora (MG), assinala que o catolicismo virou uma espécie de doador universal, tanto para outras igrejas como para os sem religião. Ele vê esse fenômeno como parte de "um desencanto com as formas tradicionais de pertença religiosa e um aumento da sede espiritual, ainda que não vinculada a uma tradição específica". 

– Os dados do último censo mostram com clareza que se fragiliza essa imagem de um Brasil profundamente católico. O que ocorre, como diz com acerto o antropólogo Pierre Sanchis, é que o catolicismo deixou de ser a religião dos brasileiros para se tornar a religião de boa parte dos brasileiros, mas, mesmo assim, estamos diante de um fenômeno impressionante de queda na declaração de crença dos católicos. Há por todo lado uma certa desafeição às instituições religiosas tradicionais, o que vem engrossar o caldo dos "sem religião", que hoje representam a terceira declaração de "crença" no país, em torno de 8% – relata Faustino. 

Para o sociólogo da religião Ricardo Mariano, professor da Universidade de São Paulo (USP), as migrações da fé ocorridas nas últimas décadas, com redução da proporção de católicos, podem ser vistas no contexto de uma concretização da liberdade religiosa, que, apesar de garantida desde o final do século 19 no país, só materializou-se de fato mais de 50 anos depois.

– Com o advento da República, ocorreu a formalização legal da liberdade religiosa. Mas ela não foi conquistada de imediato. A força da Igreja Católica era muito grande. Imprensa, delegacias de polícia, juízes, intelectuais e uma série de outras categorias, além do clero, criavam dificuldades para os outros credos, que foram discriminados e perseguidos. Nos anos 1940, 1950, 1960, muitos pastores pentecostais eram presos. Foi só na segunda metade do século 20, sobretudo a partir dos anos 1980, que a liberdade religiosa passou a vigorar na realidade, e não apenas na lei – historia Mariano.

No novo cenário de pluralismo, observa o professor, é natural que as pessoas façam algo que não era tão comum no passado: refletir sobre qual é a sua religião e tomar uma decisão diante das opções disponíveis. E uma dessas decisões, pode ser, naturalmente, não ter crença. Outra consequência do pluralismo seria a presente amplificação de conflitos, controvérsias e debates públicos envolvendo questões como feminismo, orientação sexual, aborto e direitos das minorias. Mariano complementa:

– Diferentes concepções de mundo existentes em uma sociedade tendem a gerar maior conflito. Hoje em dia, nem os evangélicos, nem os católicos, nem os representantes das minorias têm força suficiente para vencer as disputas no parlamento. Cada vez mais, a luta se judicializa. É por isso que a união de pessoas do mesmo sexo foi decidida no STF (Supremo Tribunal Federal). No parlamento, nenhum lado prevalece.

Em um cenário de pluralismo e secularização crescentes, vale evocar a transformação tremenda que ocorreu em mentalidade, valores, comportamentos e ética como consequência da transição ocorrida entre o mundo pagão da Antiguidade e o mundo cristão que emergiu de suas ruínas. Quando mudaram as crenças, mudaram também o homem e a sociedade. Se, como define o bispo Brustolin, realmente ingressamos em uma fase "pós-cristã", isso significa que a sociedade e o homem virarão outra coisa, mais uma vez? 

– O conjunto de valores com os quais a religião trabalha tem um impacto sobre a sociedade. Quando não queremos mais o cristianismo como norteador da experiência humana, esses valores se perdem. O que os substitui? Que projeto vem no lugar? – indaga Brustolin.

O bispo aponta que algumas instituições basilares nasceram no seio do catolicismo. Cita os hospitais, uma invenção católica, que na origem eram o lugar para hospedar os fracos e os doentes – e que ainda hoje, no Brasil, são em grande quantidade entidades vinculadas à Igreja. A universidade seria um caso parecido: surgiu no período medieval como um espaço essencialmente católico. Para Brustolin, quando a sociedade brasileira deixa de se identificar com a religião, essas instituições permanecem, mas perdem alguma coisa da sua essência:

– Elas podem ficar reféns de outros projetos, que não a humanização. Eu posso ter uma universidade, um hospital, uma escola que não estão mais preocupados em humanizar a sociedade. Elas passam a ter outro sentido, que pode ser o mercado, pode ser a ideologia. Até mesmo o conceito de pessoa pode ser afetado, porque o que temos hoje nasceu das primeiras disputas cristológicas, lá nos séculos 3 e 4.

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