Vale da Utopia

Como vive Vilmar, o homem que mora em uma caverna há 26 anos em SC

Justiça determinou desocupação do espaço onde o gaúcho de 58 anos mora sozinho, entre as praias Guarda do Embaú e Pinheira, depois de ter deixado a vida agitada de Porto Alegre

05/05/2016 - 03h00min | Atualizada em 05/05/2016 - 09h44min
Como vive Vilmar, o homem que mora em uma caverna há 26 anos em SC Betina Humeres/Agencia RBS
No meio do mato, Vilmar mantém uma vida ligada à natureza, até tem um celular, raramente em funcionamento Foto: Betina Humeres / Agencia RBS  

Viver em harmonia com o ambiente, retirar o alimento da terra e, em retribuição, proteger a natureza. Pode parecer um ideal distante. Mas durante mais de duas décadas, essa é a rotina de Vilmar Godinho, 58 anos. Ele é conhecido como Guardião do Vale pelo trabalho de preservação que realiza na Mata Atlântica, na Grande Florianópolis. Só que para o Ministério Público de Santa Catarina não há amparo legal para isso. Mesmo que esse lugar seja o Vale da Utopia. Trata-se de um local paradisíaco entre a Guarda do Embaú e a Praia da Pinheira, em Palhoça (SC). É ali que, há 26 anos, Vilmar decidiu viver. Ele habita uma caverna formada por quatro rochas, em uma cabana de madeira.

— Eu me sinto seguro aqui, protegido. Tem todo esse paredão entre o Vale e a civilização — diz.

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Em 29 de fevereiro, a vida idílica de Vilmar foi perturbada por uma decisão da Justiça que determinou a desocupação da caverna. A sentença gerou protestos da comunidade e despertou a atenção da imprensa nacional. Tudo porque a gruta fica no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, uma área de preservação estadual.

Vilmar nunca teve conta em banco, nem declarou imposto de renda, não tem habilitação, está com o CPF desatualizado e votou pela última vez em 1989. Não se preocupa se vai sobrar mês no fim do salário. Para o sistema, é como se ele não existisse nos últimos 26 anos. Mas parece que ele não tem como fugir: o sistema quer reintegrá-lo por meio dessa ordem judicial. A Justiça cobra uma multa diária de R$ 500 pela permanência na caverna, desde a quinta-feira da semana passada.

Um oficial de Justiça foi até o Vale da Utopia entregar a intimação, mas Vilmar não estava. Os documentos, que foram deixados na gruta, acabaram encharcados pela chuva e lá ficaram. Mas ele não está muito preocupado com isso. Desde jovem, não dava grande importância para essas coisas práticas. Até que na década de 1990 decidiu deixar a cidade para trás.

Vilmar morava com os pais Aníbal e Jacoba no bairro Lindoia. Trabalhava como artista plástico e publicitário. Organizava festivais e promovia shows de artistas regionais, como Frank Jorge, Nei Van Sória e Vitor Ramil. No verão de 1990, viajou para o Vale da Utopia e se deslumbrou. Resolveu ficar.

Um dos irmãos de Vilmar, Vitor Hugo Godinho, 67 anos, conta que o caçula nunca demonstrou interesse por dinheiro, nem tinha ambição com o trabalho. Quando resolveu morar no mato, não foi um choque tão grande para a família:

— Pela maneira que ele pensava, pelo comportamento dele, a gente sabia que era isso que ele queria. É claro que nossos pais sentiram muito. Mas acabaram aceitando, porque ele vinha periodicamente fazer visitas.

Pouco depois da mudança, a mãe desenvolveu doença de Alzheimer. Ela morreu em 2004. Além de Vitor Hugo, aposentado, ex-funcionário da Justiça, Vilmar tem outro irmão, que mora nos Estados Unidos, uma irmã e um irmão já falecido.

Vilmar Godinho não é um ermitão. Ele edita um jornal chamado Espinheira-Santa, com distribuição gratuita e sem fins lucrativos, que circula em Palhoça. A publicação funcionou de 1994 a 2007, foi suspensa, e voltou agora, em fevereiro. O dinheiro recolhido com anúncios serve para pagar a impressão. Ele acompanha notícias pela internet e tem um telefone celular que usa raramente, já que na caverna não há sinal de telefonia móvel. Participa da rádio comunitária da Pinheira. Para alunos de escolas e faculdades, ele confere uma espécie de palestra em que fala da natureza e da própria vida. Às vezes, trabalha com bioconstruções, casas ecologicamente corretas. Isso lhe rende algum dinheiro, embora não goste de depender da moeda.

Vilmar é um jovem de 58 anos em plena forma física. Sobe e desce morro todo dia. O caminho para chegar na caverna em que fica a casa não é nada fácil. O percurso começa depois da Praia de Cima, na Pinheira. São cerca de 15 minutos de subida, descida e desvios de pedras, lama e bois soltos pelo caminho. Mas a vista do Vale da Utopia recompensa. No final da trilha, fica a caverna. Quando chegou no local, em 1990, já havia uma estrutura debaixo das pedras, usada por outro antigo morador. Ele só precisou fazer alguns reparos e tirar o lixo.

No começo da vida no Vale da Utopia, comia peixes e outros frutos do mar, mas pela sobrevivência. Nunca se sentiu à vontade. Aos poucos, foi descobrindo na mata vegetais com os quais poderia se alimentar. Atualmente, a dieta é vegetariana. Há alguns anos parou de beber. Próximo à casa, ele mantém uma horta com grãos e ervas. Também mantém árvores frutíferas, cozinha outros grãos como arroz e feijão e assa pão.

— Sempre fico observando o que os animais estão comendo para ver se posso comer também — conta.

A rotina começa cedo, quando ele sai para buscar lenha e acender o forno da casa. Toma banho no riacho —sem xampu, nem sabonete, para não poluir. Dorme sobre quatro esteiras e usa um travesseiro. Se precisar, tem cobertor, mas não costuma sentir frio. Está quase sempre com os pés descalços, mas diz que raramente fica doente. Uma só vez foi parar no hospital por causa de um acidente na mata. Quebrou a tíbia e ficou um mês internado, esperando uma cirurgia. Depois da alta, voltou depressa para a caverna e não retornou ao hospital nem para tirar os pontos.

A vida na gruta não despiu o gaúcho de vaidades. Gosta de cuidar da barba e do cabelo comprido. Busca a própria imagem no espelho para conferir como está antes de ser fotografado. Fala bem baixinho, como se para não atrapalhar o som da floresta. O silêncio do lugar só é cortado pelo vento balançando as árvores, o cantar dos pássaros, coaxar dos sapos, a água vertendo da nascente e as ondas do mar. Nesse ambiente, ele costuma meditar. Na cabana também há vários livros. Lê muito sobre espiritualismo e história.

Uma referência entre os turistas

Foto: Marco Favero / Agencia RBS

A beleza, a tranquilidade e os cogumelos com poderes alucinógenos do Vale da Utopia costumam atrair muitos hippies. Mas é no Réveillon que o lugar lota de malucos. Na praia do Maço, depois de meia hora de trilha, há um bar que abre só no verão. O dono é Alvenir Silveira, o Mema, que cobra R$ 10 de quem quer acampar no local. Apesar do cuidado, sempre há quem deixe sujeira no caminho. Vilmar, o Guardião do Vale, é quem recolhe. Ele ainda orienta sobre onde é permitido acampar, fazer fogo e a não usar xampu no rio.

— Lá naquela pedra — mostra Vilmar apontando para o morro em frente — fica um pássaro raro, um urutau. É o único que tem por aqui. E ele se comunica com outro, lá na Guarda do Embaú. Então, quando o pessoal vai acampar ali, eu sempre aviso que não pode — explica.

O escritor e teatrólogo Wilson Rio Apa, com 91 anos, afirma que é o dono da área em que está a gruta de Vilmar. O homem foi jornalista em Curitiba e largou tudo para viajar o mundo como marinheiro e escrever. Anarquista, é um dos idealizadores do Vale da Utopia. Comprou um quinhão de terra do Mema, o dono do bar na praia do Maço. Queria fundar uma sociedade alternativa lá, mas acabou não dando certo. Por isso, não se importa com a presença do gaúcho. Ele, inclusive, chegou a dar um cavalo branco de presente para Vilmar. Kim, filho de Rio Apa, é o advogado do gaúcho.

— Quando ele chegou, eu estava morando na gruta. Achei ele muito mais cavernoso do que eu. Aí ele foi ficando lá, e eu voltei para casa. Esse foi o nosso primeiro contato. Eu acho que o Vilmar deveria era cobrar do governo a capacidade dele de preservar toda aquela região que me pertence. Eu, que deveria receber alguma notificação, não recebi nada da Justiça — afirma.

Mas o gaúcho não é o único habitante do Vale da Utopia. Figuras como Odenilson dos Santos, o Baiano, 45 anos, também escolheram a área como lar. Ele foi notificado pelo oficial de Justiça e disse que, se for o caso, vai deixar o local.

— Eu também não vou me esconder. Tenho de saber o que a Justiça tem para falar, mas acho que eles não vão tirar a gente de imediato — espera.

O promotor de Justiça José Eduardo Cardoso, responsável pelo Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, tem cinco processos em andamento contra pessoas que ocupam de forma ilegal a área de preservação, entre eles o de Vilmar. Ele explica que o parque não tem um único dono, que o Estado de Santa Catarina o criou em 1975 e, de lá para cá, desapropriou e indenizou 12% da área. O restante permanece em nome de particulares. Diz que a criação da área de preservação implicou em uma restrição muito severa àquele território. As pessoas não podem fazer uso em razão do regime que impede a exploração direta.

— O uso que é feito por Vilmar Godinho não é permitido pela legislação. O uso direto, mesmo de uma forma amigável, amistosa, não é possível. O modo de ocupação de Vilmar não é de muita agressividade, é talvez um micro dano. E por mais que seja pitoresco o estilo de vida dele, que ele tenha uma sintonia com a natureza, não existe uma hipótese legal de permissão do uso ou da residência que ele faz. Nós lamentamos por isso, porque o Vilmar é uma pessoa benquista na comunidade. O fato é que se for aberta uma exceção para ele, muitos outros, que têm uma situação completamente diferente do Vilmar, podem se aproveitar desse precedente perigoso, e isso regularizar uma situação totalmente contrária à lei — argumenta o promotor.

Vida interessante aos olhos do filho

O silêncio do lugar convida a uma rotina de meditação e sem pressa Foto: Betina Humeres / Agencia RBS

Vilmar Godinho é pai. Foi na Pinheira que conheceu Elizabeth Albrecht, a Dete, com quem teve um filho, Huanan, hoje com 15 anos.

— Eu conheci o Vilmar no ano em que ele foi para o Vale. Em 1990, por coincidência, eu fui morar na Pinheira. Uma amiga nos apresentou e a gente se identificou desde o início. Somos amigos desde aquela época. E a carência de inverno fez vir o Huanan, nosso tesouro — recorda.

O menino mora com a mãe na Pinheira e cursa o terceiro ano do Ensino Médio em Florianópolis. Acorda de madrugada e algumas vezes na semana tem aula à tarde. Nesses dias, só chega por volta das 20h em casa.

— A relação com o meu pai nunca foi muito próxima, mas também nunca foi distante. A gente se visita quando dá, uma vez por mês. Eu gosto muito dele. Já acampei do lado da caverna por uns três dias e acho o estilo de vida dele bem interessante. Às vezes até me passa pela cabeça, quem sabe no futuro, seguir o mesmo exemplo — diz o tímido Huanan.

Dete tem 62 anos. É arquiteta e maquetista. Também tem uma casa na Costa da Lagoa, em Florianópolis. Ela e Vilmar mantêm uma boa relação de amizade.

— Eu fiquei muito admirada com essa ação, porque com tantos crimes para se preocupar, como a retirada de areia no Sertão do Campo, as invasões no Parque do Tabuleiro, os loteamentos clandestinos, a falta de saneamento, uma série de situações importantes, o Ministério Público foca a atenção no Vilmar — protesta.

Ela tem, inclusive, ajudado na mobilização para manter o companheiro no Vale. "Deixem o Vilmar em Paz" é o movimento que ganhou a internet. Uma petição no site Avaaz já tem mais de 20 mil assinaturas.

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