The New York Times

A jornada solitária de um médico contra Madre Teresa

Por: The New York Times
05/09/2016 - 16h34min

Calcutá, Índia – Enfrentar um ícone internacional da paz, fé e caridade não é uma tarefa para qualquer um. Na verdade, essa é uma tarefa para quase ninguém. Mas é justamente o que o Dr. Aroup Chatterjee passou boa parte da vida fazendo, depois de se tornar um dos maiores críticos de Madre Teresa.Chatterjee, que é médico e tem 58 anos, reconhece que sua jornada é praticamente solitária. ¿Sou um indiano solitário. Dediquei muito tempo a ela. Teria tirado dinheiro do meu próprio bolso para fazer isso. Na verdade, eu realmente gastei meu dinheiro¿, afirmou durante uma entrevista recente.Agora, seu objetivo está prestes a se tornar ainda mais difícil, já que a Madre Teresa será canonizada em setembro.Na verdade, a crítica de Chatterjee tem tanto a ver com a forma como o Ocidente interpreta Madre Teresa, quanto com o trabalho que ela realizou. À medida que a canonização se aproxima, Chatterjee espera reviver o diálogo sobre seu legado em Calcutá, onde ela começou a trabalhar com ¿os mais pobres entre os pobres¿ em 1950.Quando era jovem, Chatterjee, nascido em Calcutá, se incomodava com a narrativa em torno de Madre Teresa, a começar pelo fato de exibirem a cidade como um dos lugares mais desesperados da Terra, um ¿buraco negro¿.¿Pra falar a verdade, eu nunca vi freiras nas favelas onde eu trabalhava. Acho que esse é um empreendimento imperialista da Igreja Católica contra a população oriental, contra uma cidade oriental, que realmente jogou nosso prestígio e nossa honra na lama¿.¿Por isso sempre achei que esse mito deveria ser questionado¿, acrescentou.Durante centenas de horas de pesquisa, quase toda catalogada em um livro publicado em 2003, Chatterjee conta que encontrou um ¿culto ao sofrimento¿ nas casas operadas pela organização de Madre Teresa, as Missionárias da Caridade, com crianças amarradas a camas e quase nada além de aspirinas para confortar pacientes perto da morte.Ele e outras pessoas afirmam que a Madre Teresa levou sua adesão à frugalidade e à simplicidade no trabalho a níveis extremos, permitindo práticas como a reutilização de agulhas hipodérmicas e tolerância a construções primitivas que exigiam que os pacientes defecassem uns na frente dos outros.Mas foi apenas quando ele se mudou para o Reino Unido em 1985, quando assumiu uma vaga em um hospital rural, que ele percebeu a que ponto havia chegado a reputação de Calcutá na maioria dos círculos ocidentais.Em 1994, Chatterjee entrou em contato com a Bandung Productions, uma empresa que pertence ao escritor e cineasta Tariq Ali. O que começou como uma ligação de 12 minutos, acabou terminando como um convite de um editor do Channel 4 para a realização de um filme expondo o trabalho de Madre Teresa. O crítico social Christopher Hitchens foi contratado para apresentar o filme que ganhou o nome de ¿Hell¿s Angel¿ (Anjo do inferno, em tradução literal), um documentário extremamente cético.Ao longo do ano seguinte, Chatterjee viajou pelo mundo todo para se encontrar com voluntários, freiras e jornalistas que conheciam por dentro as Missionárias da Caridade. Ao longo de mais de 100 entrevistas, ouviu voluntários descrevendo como trabalhadores com formação médica limitada administravam remédios vencidos há 10 ou 20 anos para os pacientes, além de lençóis sujos com fezes sendo lavados nas mesmas pias onde se lavavam os pratos.No passado, quando críticas desse tipo eram feitas, as Missionárias da Caridade geralmente não negavam os fatos, mas afirmavam que as freiras estavam trabalhando para melhorar a situação. Atualmente, os envolvidos afirmam que fonoaudiólogos e fisioterapeutas são frequentemente convidados a cuidar de pacientes com problemas mentais e motores. Além disso, as freiras contam que muitas vezes levam para os hospitais mais próximos os pacientes que precisam ser submetidos a cirurgias ou a tratamentos mais complexos.¿Na época da Madre, esses fisioterapeutas também vinham, mas não havia tantos profissionais na área¿, afirmou Sunita Kumar, porta-voz das Missionárias da Caridade.Atualmente, acrescentou Sunita, muitas freiras estudaram para ¿aprofundar sua formação médica¿, e a higiene também aumentou.Chatterjee concorda que depois da morte de Madre Teresa em 1997, as casas operadas pelas Missionárias da Caridade começaram a levar as práticas de higiene muito mais a sério. A reutilização de agulhas, por exemplo, foi eliminada.Ao longo dos anos, à medida que ele tentava mostrar seu ponto, realizando campanhas para melhorar os espaços da instituição de caridade, ele conta que começou a perceber que as pessoas se voltaram contra ele em Calcutá.¿Fui muito ingênuo e acreditei que iriam me receber com pompa e circunstância, especialmente em Calcutá, se eu cumprisse minha missão de expor aquela mulher¿, afirmou.Parte dessa proteção à Madre Teresa, na opinião de Chatterjee, se deve ao Prêmio Nobel que ela recebeu em 1979. ¿As pessoas em Calcutá têm essa fascinação pelo Prêmio Nobel¿, afirmou, acrescentando que o poeta mais celebrado da cidade, Rabindranath Tagore, recebeu o primeiro Nobel de Literatura da Ásia em 1913. Outras pessoas, segundo ele, simplesmente têm medo de falar a respeito.Mas ele conta que a posição de Madre Teresa no cânone ocidental é o suficiente para que muitos indianos a defendam, dentro da velha mentalidade do colonizado. ¿O Ocidente diz que ela é boa, então ela deve ser muito boa mesmo¿, afirmou.Quanto à recepção de seu trabalho junto ao público ocidental, Chatterjee afirmou que as pessoas se sentem atraídas pelo sensacionalismo do tema.¿Ninguém quer saber se a dignidade e o prestígio de uma cidade do terceiro mundo foram jogados na lama por uma freira albanesa. Então, é óbvio que essas pessoas podem se interessar pelas mentiras, o charlatanismo e as fraudes que aconteceram, mas quase ninguém está interessado na história toda.¿Quando questionado se a canonização de Madre Teresa atrapalharia sua campanha, Chatterjee afirmou que não desistiria do plano de contar a história real por trás do mito.¿Para mim, o diálogo nunca vai morrer, já que o mito não morre e a história continua. Não vou me calar. É simples assim.¿

Por Kai Schultz do NYT.

 






 
 
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