The New York Times

A que religião Jesus pertenceria hoje?

No provocador livro "The great spiritual migration", recém-lançado nos EUA, ex-pastor afirma que nossas religiões, muitas vezes, defendem o oposto do que seus fundadores diziam

Por: The New York Times
12/09/2016 - 19h24min | Atualizada em 13/09/2016 - 16h30min
A que religião Jesus pertenceria hoje? Divulgação/Divulgação
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Uma coisa intrigante neste mundo é o fato de as religiões frequentemente não se parecerem com seus fundadores. Jesus nunca falou em gays, nem em abortos. Ele se concentrava nos pobres e nos doentes. Ainda assim, alguns líderes cristãos prosperam ao demonizar gays. Maomé elevou o status das mulheres em sua época, ainda assim, alguns clérigos islâmicos impedem mulheres de dirigir, ou citam a religião como razão para mutilar as genitais de mocinhas. 

Buda provavelmente ficaria em choque com o apartheid imposto à minoria Rohingya pelos budistas de Mianmar.

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"Nossas religiões muitas vezes defendem o oposto do que seus fundadores diziam", afirmou Brian D. McLaren, ex-pastor, em The great spiritual migration (A grande migração espiritual), um livro provocador e poderoso que foi recentemente publicado nos EUA.

Os fundadores geralmente são visionários ousados e carismáticos que inspiram com sua imaginação moral, ao passo que seus ensinamentos muitas vezes se convertem em burocracias voltadas sobre si mesmas, com medo de correr riscos e obcecadas com dinheiro e poder. 

Essa tensão é especialmente clara na cristandade, já que Jesus era um radical que desafiou o poder estabelecido, ao passo que o cristianismo foi tão bem sucedido que se transformou no poder estabelecido em boa parte do mundo.

"Não impressiona, portanto, que cada vez mais pessoas cristãs por criação, escolha ou pelas duas razões se vejam questionando o que aconteceu com o cristianismo. Sentimos que nosso fundador tivesse sido sequestrado e fosse refém de extremistas. Os sequestradores exibem Jesus para as câmeras e o obrigam a dizer coisas nas quais ele obviamente não acredita. Ele se tornou um boneco sem expressão e muitas vezes parece ser contra os pobres, o meio ambiente, os gays, os intelectuais, os imigrantes e a ciência. Mas não é esse o Jesus que encontramos no Evangelho", escreve McLaren.

Esse argumento se descortina em frente ao pano de fundo do fermento religioso. O Ocidente está se tornando cada vez mais secular, com pessoas ¿sem religião¿ – tanto ateus, quanto pessoas espirituais que não têm religião específica – representando cerca de 25% dos americanos hoje. 

E essa parcela não para de crescer: entre os membros da geração Y, mais de um terço não tem religião. A ascensão dos ¿sem religião¿ parece ter sido acompanhada por um declínio no interesse público pela doutrina. 

"Um dos países mais religiosos do mundo", afirma Stephen Prothero no livro Religious literacy (Alfabetização religiosa), referindo-se aos Estados Unidos, "também é uma nação de analfabetos religiosos". Apenas metade dos cristãos americanos é capaz de dizer quais são os Evangelhos, apenas 41% sabem quem foi Jó e pouco mais de 50% dos católicos americanos entendem os ensinamentos católicos sobre a Eucaristia. 

Ainda assim, se os americanos acreditam que Joana D¿Arc é a esposa de Noé, ou imaginam que epístolas são as mulheres dos apóstolos, talvez a solução seja falar menos sobre doutrina e mais sobre ações práticas.

"O que aconteceria se os cristãos redescobrissem sua fé não como um sistema problemático de crenças, mas como uma forma justa e generosa de viver, arraigada na contemplação e expressa pela compaixão?", questiona McLaren em The great spiritual migration. "Os cristãos poderiam deixar de defender sua fé como um sistema de crenças e começar a expressá-la como uma forma de viver com compaixão?" Isso representaria deixar de lado a burocracia religiosa e retornar aos pontos de vista morais de seu fundador, o que representa um desafio enorme. Entretanto, as religiões são historicamente capazes de migrar. 

– Como fui criado em um contexto de conservadorismo cristão, sempre éramos alertados sobre os perigos de mudar a mensagem original. Porém, ao mesmo tempo, muitas vezes não percebemos quanto essa mensagem mudou ao longo do tempo – afirmou McLaren em entrevista. 

O cristianismo aprovou muitas vezes a morte de bruxas na fogueira e o massacre de hereges, felizmente o pensamento evoluiu. A sociedade se modernizou e as pessoas se tornaram mais céticas em relação a relatos de pessoas nascidas de virgens e ressuscitadas e uma das reações foi abandonar a religião. 

Ainda assim, um profundo impulso por conexões espirituais continua a existir. McLaren afirma que devemos nos preocupar menos com a literalidade dos milagres bíblicos e pensar mais sobre o que eles significam: se Jesus ajudou um leproso, pare de se perguntar se aquilo realmente aconteceu e concentre-se em como ele procurou o contato com as pessoas mais estigmatizadas da sociedade. Mas obviamente não é apenas o cristianismo que lida com essas questões. O rabino Rick Jacobs, presidente da União pelo Judaísmo Reformado, afirmou que observa a busca de uma missão de justiça social inspirada e equilibrada pelas tradições da fé.

– É aí que vejo nosso caminho. As pessoas veem o ritual como uma obsessão para a comunidade religiosa, mas não têm a coragem nem o comprometimento de moldar um mundo mais justo e com compaixão – afirmou Jacobs.

Caso certas denominações religiosas estivessem menos interessadas nas próprias virtudes ou em apontar os dedos para a iniquidade alheia, e mais com a resolução das necessidades humanas ao nosso redor, viveríamos em um mundo melhor – e certamente Jesus também ficaria contente com isso.

O leitor talvez estranhe esta coluna, já que não sou um cristão especialmente religioso. Mas vejo a fé religiosa como uma das principais forças, para o bem e para o mal, e me sinto inspirado pelas iniciativas de pessoas de fé que distribuem alimentos e abrigam os sem-teto. Talvez de maneira injusta, os hipócritas recebem muito mais atenção e com frequência moldam o debate público sobre religião, mas há muito mais por trás disso. 

Lembre-se que, em média, os americanos religiosos doam muito mais dinheiro e tempo para ações de caridade do que os americanos sem religião. Não é a burocracia que me inspira, nem a doutrina, ou os velhos rituais. Nem mesmo a mais gloriosa catedral, templo ou mesquita. O que me inspira é o trabalho de um médico católico em missão no Sudão, tratando de vítimas de ataques a bomba, um médico evangélico fazendo o impossível na Angola rural, ou um rabino que luta pelos direitos humanos dos palestinos. São eles que me enchem com uma sensação quase sagrada de reverência. Isso pra mim é religião.

*Por Nicholas Kristof do NYT.

 






 
 
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