The New York Times

A Venus Williams fora das quadras

Por: The New York Times
06/09/2016 - 23h16min | Atualizada em 06/09/2016 - 23h16min

West Palm Beach, Flórida – A capacidade de Venus Williams de se movimentar rapidamente pela quadra de tênis é bem conhecida. Ela tem 1,85 m e quase consegue ir de um lado para o outro em um único salto lateral. Menos conhecida é sua velocidade nas reuniões.

Não faz muito tempo ela passou por quase todos os departamentos de suas empresas de moda e decoração em cerca de uma hora e meia. Isso aconteceu dias depois de ter voltado do Rio de Janeiro, onde ganhou uma medalha de prata no tênis de duplas mistas, e um dia antes de embarcar para Nova York para o Aberto dos EUA. Pela manhã, treinou por mais de duas horas sob o sol de verão no sul da Flórida, correu para casa para tomar banho e depois foi ao escritório com Harry a tiracolo, seu cãozinho havanês de 9 anos de idade.

Usando calça de ioga cinza, regata e tênis cor-de-rosa, examinou um sofá no qual estavam dispostas inúmeras roupas de tênis: vestidinhos com um padrão geométrico brilhante; saias com o mesmo padrão; camisetas azuis; viseiras; faixas; um capuz fúcsia."Estou esperando para usar este vestido, ele é bem divertido", disse ela enquanto escolhia um deles, a peça principal da nova coleção Prism.

A agenda dessa reunião era o "scripting", em que o atleta escolhe quais roupas vai vestir em um torneio. "Que tal este?", perguntou o diretor de marketing, Marlon LeWinter, apontando para um top azul. "Se for durante o dia, prefiro outra coisa, porque essa cor retém muito calor", respondeu Venus.Em todos os jogos no Centro Nacional de Tênis Billie Jean King – aliás, em todos os jogos em qualquer lugar – Venus, 36 anos, usa EleVen by Venus Williams, sua linha de roupas fitness. 

Nas Olimpíadas, usou um vestido inspirado na Mulher Maravilha, desenhado por ela mesma, além de uma fita vermelha em suas tranças.Em 1994, quando tinha 14 anos, Venus se tornou jogadora de tênis profissional e rapidamente chegou ao cenário nacional do esporte. Venceu sete Grand Slams simples e outros 14 em duplas femininas, jogando ao lado de sua irmã Serena, de 34. Venus já ganhou cinco títulos de simples de Wimbledon. Em 2002, tornou-se a primeira negra a chegar ao topo do ranking mundial do tênis desde o início dos torneios abertos, na década de 1960.

Em 2011, porém, sua carreira desacelerou devido a uma lesão e problemas de saúde. Anunciou que tinha a Síndrome de Sjogren, uma doença autoimune que resulta em dor nas articulações e fadiga, entre outros sintomas, e se retirou da segunda rodada do Aberto dos EUA.Mas recuperou o ímpeto, chegando às semifinais no individual feminino em Wimbledon este ano e vencendo as duplas com sua irmã. 

Venus voltou ao top 10 – está em sexto lugar no mundial (Serena está em primeiro) – e foi ranqueada em sexto no Aberto dos EUA. "Nunca imaginei que jogaria tanto tempo. Agora sei que, aparentemente, isso é possível", disse ela com uma risada. "Em algum momento vai ter que acabar e será um dia bem triste." Mas ainda não.Há 10 anos ela começou a construir uma base para a vida fora das quadras, estudando moda, decoração e negócios. 

Quando decidiu fazer faculdade de Administração de Empresas, Venus contatou David Frantz, professor da Universidade de Indiana."Quando ela me ligou, pensei que era um dos meus amigos fazendo uma brincadeira. Ela foi uma excelente aluna", disse Frantz, hoje conselheiro de Venus, que se formou bacharel em Administração em agosto passado. Agora ela está estudando para um mestrado em Arquitetura de Interiores.

Todos esses cursos se encaixam em seus dois negócios principais: a EleVen, empresa de quatro que está passando por uma grande reestruturação desde que Venus contratou dois executivos experientes, no ano passado, para ajudá-la a centralizar e a assumir o comando das operações.

Ao oferecer as saias de tênis, calças de ioga e roupa esportiva a mais boutiques e começar a alavancar a popularidade internacional de Venus, o volume de vendas triplicou, de acordo com Ilana Rosen, diretora de operações da EleVen e confidente profissional da atleta. Funcionando também no mesmo espaço está a V*Starr Interiors, empresa de decoração com sete funcionários e clientes que vão desde clubes de tênis até decoradores de luxo.

As duas companhias às vezes colaboram uma com a outra.Steven Schwartz, diretor-executivo da cadeia Midtown Athletic Club, se reuniu recentemente com Venus e Ilana. Ele decidiu trabalhar com a linha da EleVen e contratar a V*Starr para ajudar a projetar o lounge de tênis e algumas suítes de hotel de seu clube em Chicago, que está sendo reformado.No escritório, ela mostrou que tem um relacionamento fácil com seus funcionários. "Todo mundo aqui está em sua pista própria, mas todos têm que acelerar", disse ela. 

A própria Venus desenha os modelos da EleVen; produziu sua mais recente coleção em Paris, enquanto jogava no Aberto da França.Bebericando um suco verde, ela se sentou em uma cadeira giratória enquanto os projetistas da V*Starr apresentavam seus trabalhos mais recentes.

A diretora de design Sonya Haffey explicou que estavam quase terminando uma proposta para ser enviada a um empreendedor hoteleiro em Miami. Sonya estava preocupada com algumas das restrições impostas pelo provável cliente. "As peças artísticas precisam custar menos de US$130 cada", disse ela, com um orçamento de acessórios de US$200 por item.Venus se inclinou para trás, dizendo: "Bem, vamos encontrar as melhores luminárias possíveis por US$ 200". 

Ela virou a cadeira para olhar uma planta de um espaço que estavam projetando para um edifício de luxo. Desde que havia visto a planta pela última vez, o cliente já pedira alterações à equipe da V*Starr. "Estou arrasada com essas mudanças, mas acho que preciso superar. Faz parte", disse Venus.

Seu escritório principal ainda é a quadra de tênis. Recentemente, ela chegou para treinar em sua quadra preferida no clube de campo BallenIsles, em Palm Beach Gardens, na Flórida, um pouco mais tarde do que havia planejado.E anunciou que o treino seria um pouco diferente: faria 10 minutos de aquecimento, não os 20 de sempre.Venus se anima quando fala sobre Serena. É tocante. "É ótimo ser a irmã mais velha. Não sei como as irmãs mais novas se sentem em relação a seu trabalho, mas quando você é a mais velha, quer cuidar de tudo. E certamente se sente bem com isso; bom, eu me sinto."Talvez esse aspecto tenha feito aflorar seu papel de defensora do tratamento justo para jogadoras de tênis. 

Ela começou a defender a equidade dos prêmios em dinheiro já em 1998, quando tinha 18 anos; chegou a levar o caso a um comitê do Grand Slam no All England Lawn Tennis e Croquet Club, em 2005, um dia antes de vencer em Wimbledon. Ela foi o tema de um documentário, "Venus Vs.", feito por Ava DuVernay, a cineasta pioneira selecionada pela Disney para dirigir "A Wrinkle in Time".

Este ano, em Wimbledon, ela pediu uma divisão de quadras mais justa para as mulheres, depois de jogar em um dos locais de menor destaque do clube.Venus disse que seu objetivo é chamar a atenção das pessoas que podem não ter percebido essas realidades e lhes dar a chance de fazer a coisa certa."Não acho que alguém queira se olhar no espelho e dizer: 'Sou misógino'. 

Essas pessoas não se veem dessa forma e você não deve tratá-los como tal, mas é preciso dizer a verdade. É importante respeitar as realizações, mas também é preciso reconhecer o que ainda não foi feito."

Por Katherine Rosman do NYT.

 






 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.