The New York Times

A vida de um artista em quatro contêineres

Por: The New York Times
05/09/2016 - 16h52min | Atualizada em 05/09/2016 - 16h52min

Nova York – Lars Fisk já sobreviveu a dois furacões nos quatro contêineres de carga que considera sua casa. A estrutura, que ficava no cantinho do estacionamento do Costco, ao lado do Parque de Esculturas Socrates de Long Island City, no Queens, foi transferida, no ano passado, para um terreno estreito e cheio de mato em Red Hook, no Brooklyn.Para se preparar para o próximo furacão, Fisk, 45 anos, escultor hábil que faz arte pública há duas décadas – e é o diretor de arte da jam band de Vermont, Phish, criando seus espetáculos elaborados à la Bread & Puppet Theater há quase o mesmo tempo – já está escolhendo os suportes.Empilhados de dois em dois, lembrando peças de Lego, os contêineres fazem as vezes de uma casa simples, de um dormitório, que o dono decora com toques caseiros – como a espreguiçadeira de couro Eames, a estante cheia de badulaques sobre a escada estreita, a arte folk nas paredes forradas de madeira, o tapete puído, as claraboias e plantas penduradas em cachepôs de macramê. Uma grua fixa desponta pelas portas duplas de aço do andar superior, para içar móveis e objetos de arte.Porém, com tudo fechado, jamais alguém pensaria que eles guardam algum resquício de vida doméstica – do tipo que serve perfeitamente às necessidades do talentoso e engenhoso Fisk, que diz "ter dado um jeito" na eletricidade e na água e paga um aluguel modesto pelo terreno. "Praticamente toda a casa é feita de sobras; a única coisa mais caprichada é o piso de madeira, que era da sede de uma fazenda na Pensilvânia", explica ele.Quando se faz arte pública como Fisk, aprende-se a ser econômico."Tem sempre um jeito para dar uma segurada no estilo de vida, nas despesas, nas expectativas", garante.Não faz muito tempo Fisk serviu limonada em vidros de geleia a Max Levai, 28 anos, e Pascal Spengemann, de 45, diretores da Marlborough Chelsea, filial mais nova da Marlborough Gallery na West 25th Street.Eles se acomodaram no quintal da casa, em meio ao jardim com ares de Hobbit, com as plantas espremidas entre tijolos, enfeitadas de musgo e fazendo boa sombra, os vasos de argila, habilmente arranjados fora de esquadro, encaixados em ângulos curiosos. No espaço atrás da casa, o capim escondia o entulho como se fosse um tapete verde e macio.Em setembro, Fisk, escultor que transforma objetos e marcas comuns – como o caminhão Con Ed (da companhia elétrica), ou uma árvore – em versões esféricas de si mesmos para exibi-las nas ruas de Boston, Nova York e Amsterdã, entre outras, está fazendo uma mostra individual e interna, para variar. Chamada "Mr. Softee", estará aberta, a partir de oito de setembro, na galeria de Levai e Spengemann.Outro dia, a maioria das peças já tinha sido entregue na Chelsea, embora uma esfera do tamanho de uma otomana, belissimamente recoberta com o número 23 (para a estação da 23rd), ainda estivesse recebendo os retoques no estúdio de Fisk, localizado em uma antiga mecânica na mesma quadra onde fica sua casa. Olhando a peça, Meghan McKee, 42 anos, uma de suas assistentes, sentencia: "Cobrir de pastilhas um objeto redondo? Não vai sair perfeito."A exposição é inspirada em Nova York e reflete o interesse de Fisk em arquitetura, construção e sinalização, consumo, armazenamento e descarte. A bola que é uma lata de lixo de aço, coberta de níquel, por exemplo, tem ares angelicais, com as alças fazendo as vezes de asas; a que é feita de pedras de calçamento, grande como uma espreguiçadeira, tem um chapéu de tampa de bueiro. Os lápis bola, do tamanho de ervilhas, parecem comprimidos, feitos meticulosamente como todas as esferas, desconstruindo e reformulando o objeto de que estão se apropriando. Para isso, Fisk usa ferramentas minúsculas."Tento reproduzir o objeto no maior número possível de detalhes, exceto o formato", explica o artista.A bola Mr. Softee, que dá nome à mostra, é adorável e antropomórfica, tipo Thomas e Seus Amigos, e tem torneirinhas de máquina de sorvete. A Lot Ball, por sua vez – uma esfera de mais de 4,5 m de altura de asfalto com losangos protuberantes, inspirada no estacionamento do Costco que já foi o quintal de Fisk –, é ameaçadora.Durante sete anos ele foi o gerente do estúdio e das instalações do Parque de Esculturas Socrates, um antigo aterro transformado em espaço de arte, museu e parque público, vivendo nos contêineres doados que o parque usa para armazenamento e espaço de trabalho.Nos fins de semana, ficava horrorizado e hipnotizado pelas cenas que via da janela da cozinha: e se chocava com o contraste entre o campus do Socrates, área que dava a impressão de ser, segundo suas palavras, "rústica, sem-lei e coberta de mato", e o espaço imenso da loja, mais parecida com um caixote gigante, "um trecho de asfalto imaculado pontilhado de anúncios, a sinalização para os carros e a multidão entrando e saindo", segundo sua descrição.Fisk chegou a entrar ali para comprar comida para os gatos umas duas ou três vezes – pois três animais que viviam no Socrates acharam seus contêineres tão confortáveis que decidiam se mudar para lá. E quando levou a residência para Red Hook, no ano passado, os felinos foram junto.A operação foi simples: dois caminhões, uma empilhadeira e um dia de trabalho para levar e colocar os quatro contêineres no lugar. Por mais graciosa que seja, a casa não conta nem com metade do capricho que tinha no Queens, versão com direito a solário e até varanda. "Não cabia no caminhão, então tive que limar", simplifica Fisk.Depois de dez anos em Burlington, Fisk se mudou para Nova York para cursar Belas Artes em Columbia; a seguir, fez a peregrinação a Joshua Tree, na Califórnia, para trabalhar com a artista Andrea Zittel em seu experimento desértico de decoração de contêineres.Em 2008, o Socrates, onde Fisk se destacara como artista e expositor, lhe ofereceu um emprego e um contêiner. "Uma combinação irresistível", confessa ele.No primeiro ano, transformou-o em seu escritório de campo, instalando um chuveiro à base de energia solar e uma cozinha externa. "Era bem básico", relembra.Depois de cinco, já tinha acrescentado mais três contêineres, além de um solário e varanda no anda superior. Hoje tem um banheiro seco (chamado Incinolet, é elétrico e queima os dejetos, transformando-os em cinzas) e uma banheira com pés de garras. Há um mosquiteiro sobre a cama que ele mesmo fez. Quando faz calor, dorme com as portas duplas abertas."Viver num contêiner não é ideal, mas é barato." Os vazamentos são uma constante (embora Fisk garanta gostar do barulho da chuva batendo no metal), como também a condensação no inverno. "Se a temperatura externa é muito baixa e a interna, muito alta, a variação faz as paredes suarem o tempo todo", explica.Fisk também descobriu que água quente é um luxo sem o qual não pode viver e que 76 centímetros é a largura mínima com que seu corpo tem que lidar, seja na escadaria ou no batente da porta. Além disso, as dimensões padrão de 6 x 2,4 x 2,6 m são mirradas demais – e é por isso que decidiu montar a casa no esquema dois em cima e dois em baixo.Há alguns anos, uma das esferas de Fisk estava no jardim do dono, Chris Sharp, que é escultor e amigo de Shelburne, em Vermont.Como todos seus trabalhos, a peça é instantaneamente reconhecível; feita de metal e cheia de rebites, tem a cor do UPS, além do logotipo da empresa. Sharp levou um susto um dia, quando um motorista da companhia de transporte bateu à sua porta e se ofereceu para retirá-la.Fisk conta: "Ele pediu mil desculpas, dizendo que sentia muito por ter acabado na propriedade, que devia ter caído do caminhão ou algo parecido e podia pedir para alguém ir recolher. O Chris tentou explicar que não era o caso, que aquilo era uma obra de arte e tinha sido posta ali, mas o motorista não conseguia entender o conceito e insistiu em dizer que teria o maior prazer em remediar a situação."E ri ao se lembrar do caso. Ele aprecia o fato de suas esferas se comportarem nem tanto como obras de arte, mas como esquisitices. "Familiares, mas ao mesmo tempo absurdas", completa.

Por Penelope Green do NYT.

 






 
 
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