The New York Times

Amsterdã: a transformação do século 21

Por: The New York Times
14/09/2016 - 16h35min | Atualizada em 14/09/2016 - 16h36min

Este ano decidimos passar nossas férias de verão em Amsterdã. Para minha família, esse não é um destino qualquer: vivi sete anos na cidade e escrevi um livro sobre isso. Minha companheira, Pamela, viveu lá 23 anos. Foi onde nós nos conhecemos, foi onde nosso filho nasceu. Temos amigos, família, colegas, memórias e raízes lá. Ela é, em nossos corações e mentes, nossa segunda casa. E mesmo assim, três anos depois de voltar para os Estados Unidos, percebemos que acabou ficando chocantemente distante de nossas vidas. Portanto, mesmo que a viagem fosse de férias, o motivo real era passar duas semanas lá para resgatá-la.

Desde que saímos, lemos e soubemos que a cidade havia mudado drasticamente, em curto espaço de tempo, por vários motivos. A população está crescendo, há planos para construir 50 mil casas nos próximos 10 anos e o maior grupo de recém-chegados (holandeses e imigrantes de lugares como Turquia e Marrocos) é composto por pessoas com idades entre 20 e 34 anos, que estão criando raízes e a remodelando a paisagem urbana.

Ao mesmo tempo, os preços dos imóveis estão subindo. Isso em parte se deve ao fato de que esses custos nas cidades europeias mais cobiçadas, como Londres e Paris, chegaram à estratosfera, enquanto que a Holanda é um dos poucos lugares onde é possível financiar um imóvel sem a necessidade de uma quantia de entrada.

Além disso, há alguns anos, Amsterdã aumentou o número de licenças para novos hotéis, que chegaram ao mundo digital ao mesmo tempo em que o fenômeno Airbnb fazia sucesso. A tudo isso é preciso somar o inefável: os hipsters do mundo todo concluíram que Amsterdã – com seu langor ordenado, seu perfil humano, sua sociedade construída em torno do café e da cerveja – era um lugar relevante.

Na nossa chegada, no entanto, nada parecia ter mudado. Ao pegarmos o trem no aeroporto e desembarcarmos na Estação Central, vimos aspectos familiares, o mesmo ruído imperfeito dos ônibus e do trânsito, lojas feias e turistas conservadores subindo as ruas Damrak e Rokin rumo ao centro da cidade. Também inalterada, graças a Deus, está a zona dos canais, o coração e a alma de Amsterdã. Aqui, onde casas de tijolos com águas-furtadas beiram os canais centrais, é sempre a Idade de Ouro da Holanda.

Quando chegamos à nossa acomodação, uma casa no canal no centro medieval da cidade, achamos que o passado ainda parecia tangível e tranquilizador. Nossos amigos Kiki Amsberg e Joost Smiers são um casal que, há mais de 30 anos, vivem em casas separadas, a dele e a dela, uma de costas para a outra, compartilhando um pátio, e cujas entradas davam para canais diferentes. Depois de todo esse tempo, haviam decidido morar juntos, por isso nos ofereceram a menor das suas casas.

No fim das contas, a antiga fachada do bairro de Binnenstad escondia uma mudança vigorosa. Kiki contou que os estrangeiros ricos, especialmente russos e chineses, estavam comprando muitas dessas casas, que mais parecem de boneca, elevando os preços. O senso de comunidade estava se desgastando, lamentou ela, pois os vizinhos saem e muitos imóveis agora estão vazios.

Depois que alugamos nossas bicicletas, outras mudanças começaram a aparecer. A popularidade de Amsterdã como destino de viagem concentrava-se principalmente no centro e em certa medida em seus bairros gentrificados ao sul. Caso resolvesse se aventurar, mesmo que um pouco, para o leste ou o oeste da cidade, ou para o outro lado da costa chamada IJ, rumo ao norte, provavelmente chegaria a bairros monótonos da classe trabalhadora, ou a áreas povoadas por imigrantes.

Agora descobrimos que a gentrificação e o turismo chegaram a esses distritos. Estávamos no De Jaren, o café grande e moderno, localizado no centro, que é meu quartel-general não oficial quando estou em Amsterdã, e minha amiga Ruth Oldenziel, professora da Universidade de Tecnologia de Eindhoven, me disse: "Agora vejo turistas no meu bairro, tirando fotos como se fosse o centro."

Amsterdã há muito tempo tem certo problema de dupla personalidade, pois a seção chamada Amsterdã Norte fica de frente para o resto da cidade. Urbanistas trabalharam durante anos para botar o "Noord" no mapa e parece que estão tendo resultados. A principal barreira, além da água, sempre foi a Estação Central. Houve reformulação do tráfego no lado norte da estação de trem e a instalação de uma praça de lojas no estilo das de aeroportos, mas a mudança mais significativa é um túnel forrado de azulejos holandeses azuis e brancos, retratando antigas cenas náuticas. Ele faz pedestres e ciclistas passarem rapidamente pela bagunça da estação ferroviária, levando-os para a beira-mar e as balsas gratuitas.

Há muitos restaurantes novos que pontilham a orla, fortalecendo ainda mais a conexão entre as duas partes da cidade. O MOS, em uma instalação modernosa na Península de IJdok, é novo, mas oferece a já meio ultrapassada nouvelle cuisine francesa, além de uma deslumbrante vista para o mar. A comida de lá estava boa, mas, junto com os vários outros novos lugares onde comi, percebi que, conforme a cidade vai crescendo e mudando tão rapidamente, existe o risco da homogeneização. Não duvido que a paisagem culinária tenha melhorado, mas várias vezes tive a sensação de que poderia ter comido a mesma coisa em Chicago.

Os efeitos da votação do Reino Unido em junho para deixar a União Europeia ainda não transparecem em Amsterdã. Porém, o tema surgiu em conversas que tive com amigos. Havia uma grande gama de opiniões, mas quase todos acreditavam que isso iria chacoalhar da cidade. Há menções de que Amsterdã, com sua longa história como centro financeiro, acabaria substituindo Londres como a capital econômica não oficial da União Europeia. Ninguém com quem conversei ansiava por isso. A cidade sempre teve um tamanho modesto: com 830 mil habitantes, sua população é um décimo da de Londres. "Equilíbrio" é o que preocupa a todos ultimamente, ou seja, como acomodar crescimento e mudança com tradição e qualidade de vida.

Esse é o cerne da identidade de Amsterdã. Não é por acaso que a cidade não tem nenhum monumento central representativo: sem Big Bem, nem Notre Dame, nem Coliseu.

O mais próximo que se chega de um monumento marcante era o local onde estávamos hospedados graças aos nossos amigos Kiki e Joost: a casa do canal. Uma habitação familiar é um bom símbolo da cidade porque Amsterdã se formou em torno do poder e das necessidades individuais.

Na Idade de Ouro de Amsterdã, os comerciantes da cidade reuniam os bens exóticos do mundo inteiro e os traziam para cá. Suas embarcações entravam pelos canais e chegavam até a porta da frente das casas. Eles armazenavam esses bens – canela, noz-moscada, pimenta – nos sótãos. Os canais eram, com efeito, braços que se estendiam pelo mundo, reunindo mercadorias e trazendo-as não só para o centro da cidade, mas para as próprias casas de seus habitantes. As pinturas interiores holandesas do século 17 celebram o tipo de vida caseira que os comerciantes holandeses fomentavam. A "Gezelligheid", palavra intraduzível que significa algo como "a sensação de conforto de se estar seguro e perto de amigos e da família, é o que anima essas pinturas.

Na verdade, ela ainda existe em Amsterdã. Nós a sentimos em nosso retorno à cidade que significou muito para nós. E só ficamos imaginando quanto tempo irá resistir.

Por Russell Shorto

 






 
 
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