The New York Times

Apesar dos riscos, surgem heróis em meio ao terror

Por: The New York Times
06/09/2016 - 23h21min | Atualizada em 06/09/2016 - 23h21min

Nice, França – Os ataques terroristas na França se tornaram tão frequentes que já viraram mais uma variação de um padrão doloroso: a carnificina seguida de descrença, condenações, condolências e os santuários de flores, velas e cartas para os mortos.Porém, encará-los apenas dessa forma é deixar escapar um elemento que poderia elevar o espírito nacional: em cada episódio terrorista na França, indivíduos comuns arriscaram sua própria segurança para tentar brecar o ataque ou para dar uma mão aos feridos em vez de fugir. 

Alguns desses heróis locais são reconhecidos imediatamente, embora outros nunca recebam o reconhecimento, ou então só tardiamente."O que vi foi horrível, as pessoas sendo esmagadas. Tinha que acabar com aquilo", disse um homem de 48 anos chamado Franck, que preferiu não dar seu sobrenome mesmo depois de ter sido condecorado pela cidade de Nice por sua ação para parar o motorista que atropelou dezenas de pessoas no dia 14 de julho, em uma comemoração do Dia da Bastilha, com um caminhão.

Funcionário do aeroporto de Nice, Franck, que estava de lambreta, decidiu, em uma fração de segundo, perseguir o veículo e, quando o alcançou, tentou abalroá-lo e foi derrubado. Ainda assim se levantou e correu atrás do caminhão, conseguiu subir nos estribos e começou a bater no homem pela janela aberta. Quando Mohamed Lahouaiej Bouhlel tentou atirar em Franck, a arma falhou e, ao mesmo tempo, ele tentou abrir a porta do caminhão e depois entrar pela janela, mas o motorista bateu com a arma na sua cabeça e ele caiu, quebrando uma costela e ficando cheio de hematomas nas costas.Franck disse que ficou satisfeito porque enquanto o motorista o enfrentava, não podia atropelar mais gente. "Ele estava concentrado em mim; naquele momento, não podia matar ninguém", disse.

Pelo menos dois outros homens fizeram algo similar, mesmo que por menos tempo, e também receberam medalhas da cidade: Alexander Migues perseguiu o caminhão em uma bicicleta, e Gwenael Leriche, entregador de 26 anos armado com um canivete, correu atrás do veículo e tentou pular nos estribos quando o caminhão parou.Eles não foram os únicos. 

Quase todos os ataques ou atentados na França desde a tragédia na revista Charlie Hebdo, em 7 de janeiro de 2015, produziram heróis locais.Lassana Bathily, imigrante muçulmano do Mali, escondeu clientes no porão de uma mercearia kosher, nos arredores de Paris, dois dias após o ataque da Charlie Hebdo, e depois os levou escondidos para fora enquanto o terrorista Amedy Coulibaly mantinha várias pessoas como reféns na parte de cima da loja.

Em Villejuif, em abril do ano passado, a professora de ginástica de 32 anos Aurélie Châtelain se recusou a entregar o carro a Sid Ahmed Ghlam que, segundo as autoridades, estava planejando abrir fogo contra uma multidão em uma igreja. Sua recusa acabou com os dois sendo baleados em uma briga, e ela morreu. Quando Ghlam pediu ajuda à polícia, foi detido. Ele permanece preso e alega não ter atirado nela.Aurélie recebeu a Legião de Honra postumamente, depois que sua família e amigos alegaram que, se os rapazes que pararam o atirador prestes a cometer um ataque ao trem Thalys que ia de Amsterdam para Paris mereceram a mais alta condecoração da França, ela também merecia.

A tentativa de atentado no trem ocorreu há quase um ano, quando um homem sem camisa saiu do banheiro de um vagão com um fuzil de assalto Kalashnikov e uma pistola Luger. Três americanos que o detiveram foram condecorados pelo presidente francês, juntamente com um britânico e um franco-americano, Mark Moogalian, o primeiro a segurar o atirador, Ayoub El Khazzani; Moogalian levou um tiro no processo, mas sobreviveu. A intervenção dos jovens evitou o que poderia ter se tornado uma chacina.

Em 13 de novembro, quando extremistas ligados ao Estado Islâmico atacaram uma casa de espetáculos, um estádio e restaurantes em Paris e seus arredores, várias pessoas se desdobraram para ajudar uns aos outros. Uma delas foi Ludovic Boumbas, 40 anos, de ascendência congolesa, que morava em Lille e estava comemorando o aniversário de uma garçonete no café-bar La Belle Equipe quando homens armados começaram a atirar nos clientes. Ele pulou na frente de uma jovem e foi fatalmente baleado; ela se feriu, mas sobreviveu.

Mais recentemente, em julho, a irmã Danielle Delafosse superou seu medo depois que terroristas entraram na pequena igreja de Saint-Étienne-Du-Rouvray, em Rouen, com a intenção de matar. Ela saiu correndo para a rua, encontrou alguém com um telefone e fez a pessoa chamar a polícia, que chegou tarde demais para salvar o reverendo Jacques Hamel, 85 anos, que foi morto, mas talvez a tempo de evitar mais derramamento de sangue.

O heroísmo que chama a atenção muitas vezes é do tipo que arrisca a vida do herói, mas muita gente que agiu de forma menos visível também se destacou. Eles se empenharam de forma extraordinária para ajudar os feridos em circunstâncias que muitos achariam insuportáveis. Em Nice, foram médicos, técnicos de raios-X, enfermeiros e bombeiros que trabalharam horas a fio, cuidando das pessoas ou tentando encontrar as famílias de crianças perdidas.

Houve também Gilles Thévenet, proprietário do High Club, uma discoteca popular em Nice na Promenade des Anglais, que rapidamente transformou sua boate em centro de triagem para os trabalhadores da emergência.Thévenet não sabe ao certo quando ou se seu negócio voltará ao normal, especialmente porque muitos em Nice sabem que os mortos e feridos foram colocados na pista onde todos dançam, mas ele acredita que sim."Teremos que descobrir o clima de festa novamente, que é o que nos mantém há 11 anos. Ceder aos terroristas está fora de questão.

"Por Alissa J. Rubin do NYT.

 






 
 
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