The New York Times

Cidade britânica espera vida nova depois do Brexit

Por: The New York Times
07/09/2016 - 18h39min | Atualizada em 07/09/2016 - 18h39min

Blackpool, Inglaterra – O brasão de Blackpool destaca o lema "Progresso".Mas havia pouco dele até recentemente nessa vitrine da era vitoriana, para onde milhares de britânicos, livres do trabalho nas fábricas por uma semana, vinham com suas famílias respirar o ar fresco marinho, ver as casas de caça-níqueis e as luzes intrincadas e tomar cerveja barata.

O apogeu da cidade foi da década de 1950 até o início dos anos 80, mas, com a desindustrialização do Norte, as viagens mais baratas para o exterior e a popularidade crescente de pacotes turísticos para lugares como Manchester e Birmingham, além de Londres e Paris, Blackpool entrou em declínio.Muitas das antigas pousadas estilo "bed and breakfast" ao longo da orla marinha também se deterioraram ou fecharam, as atrações foram desaparecendo e se tornando datadas e os jovens não apareciam mais. 

Mesmo os dois principais partidos políticos do Reino Unido, que muitas vezes visitavam Blackpool para conferências anuais, pararam de vir em 2007.Agora a cidade está tentando se reinventar como uma estância balneária da idade moderna. E também espera tirar proveito de uma possível consequência da decisão britânica de sair da União Europeia: o aumento no número de habitantes que preferem não passar férias no exterior.

Desde 2007, Blackpool vem investindo 450 milhões de libras (aproximadamente US$ 588 milhões) na melhoria do transporte e na modernização da orla. A cidade embelezou suas principais atrações e promoveu festivais de punk rock e boas peças de teatro. O espírito vitoriano foi revigorado, com a reforma do Winter Gardens – com sua casa de ópera, teatro e salão de baile, onde eram realizadas as conferências políticas – e da torre de ferro que é o marco da cidade. E atraiu mais hotéis e restaurantes de luxo.

Blackpool também tenta cativar visitantes de todos os tipos, incluindo um número grande de muçulmanos que vive e trabalha em cidades próximas como Manchester, Birmingham e Liverpool.O Sandcastle Waterpark, maior parque aquático britânico, é um bom exemplo do trabalho de Blackpool para se reinventar.Cannes, na França, proibiu o burquíni, a roupa de banho de corpo inteiro projetada para as muçulmanas, mas o Sandcastle os aluga ou vende. 

O parque tem funcionários que falam línguas asiáticas – como o urdu – para atrair as famílias muçulmanas. E também tem funcionários treinados para receber e ajudar os visitantes autistas ou com deficiência, promovendo o "turismo acessível".John Child, diretor administrativo do Sandcastle, disse que o parque tem capacidade de receber cerca de 80 mil visitantes por mês e que está pensando em expandir."

A acessibilidade é uma parte importante do turismo nacional, especialmente com uma sociedade que está envelhecendo. Isso vale milhões", disse ele.Com uma queda de mais de 10 por cento no valor da libra esterlina desde a votação do Brexit em 23 de junho, quando a população optou pela saída da União Europeia, as férias no exterior de repente se tornaram consideravelmente mais caras para as famílias da classe trabalhadora, que podem já ter considerado uma viagem à França, Espanha ou Itália. 

E há também a ansiedade em relação ao terrorismo no continente."Queremos lembrar às pessoas que sua libra em Blackpool tem exatamente o mesmo valor que tinha em junho", disse Alan Cavill, diretor de turismo da cidade, que é quase totalmente dependente de visitantes domésticos. Apenas cerca de um por cento dos 17 milhões de turistas/ano vem de fora do Reino Unido.Uma empresa de pesquisa de mercado, a GfK, disse que, por causa do Brexit e do medo do terrorismo no exterior, 20 por cento dos britânicos – e 30 por cento das pessoas com rendimentos mais elevados – estão mais propensos a passar férias ou feriados no país.

Uma pesquisa realizada pela Associação Automotiva Britânica sugere que uma em cada 14 pessoas que tinham a intenção de passar as férias fora, especialmente famílias e estudantes, haviam abandonado seus planos. Metade dos entrevistados disse que passaria suas férias no Reino Unido.Em junho, mais de dois terços dos eleitores de Blackpool optaram por sair da União Europeia, mesmo com a cidade tendo recebido 25 milhões de libras da UE desde 2005 para ajudar a modernizar a costa, reparar paredes de contenção do mar, renovar o bonde e melhorar Winter Gardens e a torre. 

As duas atrações foram compradas pela cidade, em 2010, mas são operadas por empresas privadas como a Merlin Entertainments, proprietária do Madame Tussauds, da Legoland e do London Eye.Com 158 metros de altura, a torre de Blackpool foi inaugurada em 1894, apenas cinco anos depois a Torre Eiffel, que a inspirou. Em 1899, ela já estava sendo enfeitada em resposta ao sucesso do turismo.Na base da torre, havia um zoológico com leões e tigres e, em 1904, 40 ursos polares. 

Ela conta também com um circo com decoração oriental que ainda está em uso constante (embora agora sem animais), completo, com seus mecanismos hidráulicos vitorianos, que permitem que o picadeiro desça até uma piscina; um salão de baile dourado, onde casais ainda vão comer e dançar; e, claro, a plataforma de visualização na parte superior, que proporciona uma ampla visão da cidade, da avenida à beira-mar e do gelado Mar da Irlanda.

A velha Blackpool continua aqui: nos caça-níqueis, ainda populares entre as crianças; no parque de diversões Pleasure Beach; no pint de cerveja por 1,95 libra; no cheiro de peixe com batatas fritas; nos sinais que anunciam "notícias e bebidas" e "muita de diversão". Existem até mesmo algumas pessoas que vêm para a cidade querendo gastar mais com cerveja do que com suas acomodações.Mas Blackpool não quer recuperar a classe de turistas que de fato já não existe mais. 

Em vez disso, tenta atrair mais visitantes para estadias de 3 noites ou mais, promovendo hotéis melhores e menos lugares à moda antiga. O Conselho está planejando uma extensão do bonde moderno da estação ferroviária até a praia e um novo centro de conferências – completo com ar condicionado – que seria anexado ao Winter Gardens, na esperança de atrair novamente as convenções de partidos políticos.A cidade tem dureza e doçura, uma forte consciência regional e de classe, além de orgulho.

Enquanto a torre de Blackpool vai sendo melhorada – com um cinema 4D apresentando mergulho de gaivotas e ondas quebrando a um custo de mais de 860 mil libras (cerca de US$ 1 milhão) – também há nostalgia, com o circo, o salão de dança e a ideia de um passado bonito. Ela recebe quase nove mil visitantes por dia.Uma foto de 1929 na parede da torre mostra três jovens mulheres em vestidos de verão, com o cabelo voando ao vento e sorrindo, com a torre ao fundo. 

Uma das jovens é Lillian Bullen. Sua neta, Kate Shane, é gerente de ofertas da Merlin Entertainments em Blackpool.Kate se lembra com muito carinho de Lilly, que viveu até os 95 anos. "Eu tenho memórias vivas dela da minha infância, quando ia ao circo ver os animais. E me lembro de ir com ela ao Roberts' Oyster Bar", um restaurante famoso que abriu em 1876, mas que hoje está reduzido a uma surrada casa de frutos do mar.E agora, a foto de Lilly aparece em uma toalha de mão e em uma bela caneca feita na Tailândia – ambos à venda na loja de souvenires.

Por Steven Erlanger do NYT.

 






 
 
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