The New York Times

Ex-jihadista usa conhecimento para combater o extremismo

Por: The New York Times
13/09/2016 - 21h18min | Atualizada em 13/09/2016 - 21h18min

Washington – Nos quatro anos em que foi responsável pelo site Revolution Muslim, controlando-o de seu apartamento no Brooklyn, Jesse Morton se tornou um dos principais recrutadores para a Al-Qaeda, atraindo inúmeros americanos para a ideologia violenta do grupo.Os homens e mulheres que ele inspirou através de seus posts e tutoriais na internet foram acusados de fazer planos que incluíam utilizar um drone cheio de explosivos para invadir o pentágono e tentar matar um cartunista sueco que satirizou o profeta Maomé. 

Um de seus colaboradores foi morto durante o ataque de um drone no Iêmen, na Península Arábica, onde havia se juntado à Al-Qaeda. Muitos agora estão lutando ao lado do Estado Islâmico.¿Estávamos procurando os leões, mas encontramos só ovelhas¿, afirmou, explicando como ele muitas vezes recrutava pessoas em frente às mesquitas.Morton, de 37 anos, agora está na linha de frente de um experimento que visa desfazer a atração de grupos como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda. 

Depois de atuar durante um breve período como informante do FBI e ser liberado da prisão em 2015, Morton foi contratado pelo curso sobre extremismo da Universidade George Washington, onde fará pesquisas sobre a ideologia que ele mesmo compartilhou.Embora países como o Reino Unido tenham utilizado há muitos anos ex-extremistas para trabalhar em grupos de pesquisa que forneçam vozes reais contra a ideologia radical, Morton é o primeiro ex-jihadista a assumir um papel público nos EUA.

Seu novo empregador não fez isso sem alguma ansiedade, de acordo com Lorenzo Vidino, diretor do curso sobre extremismo do Centro de Segurança Interna e Virtual da Universidade George Washington. Vidino conheceu Morton depois que ele foi liberado da prisão em fevereiro de 2015 e deu início a um processo de mais de um ano, que envolveu a realização de entrevistas com sete policiais diretamente ligados ao caso.¿Todos eram da mesma opinião¿, afirmou Vidino.

Em uma entrevista concedida ao New York Times em agosto, depois de lhe perguntarem por que deveriam acreditar que ele realmente mudou, Morton respondeu que está fazendo o possível para reparar os danos que causou.¿Muitas pessoas viajaram ou cometerem crimes por causa das minhas palavras e eu gostaria de impedir que mais gente siga o mesmo caminho. Talvez eu nunca seja capaz de reparar os danos que cometi, mas acredito que posso ao menos tentar¿, afirmou.

Enviando recrutas

O site Revolution Muslim reuniu uma série de recrutas que já estavam prontos para entrar em ação. ¿Quando você percebe que eles estão se conectando sem parar, você não precisa realmente fazer muita coisa¿, afirmou Morton.E acrescentou: ¿Basta apenas direcionar sua raiva, fazendo-os crer que podem contribuir para uma causa maior. E você faz isso por meio da ideologia, porque, acredite ou não, o islamismo pode ser descrito de uma maneira incrivelmente revolucionária¿.

Morton afirmou que era fundamental levá-los a crer em uma leitura estritamente literal do Islã. O primeiro conceito é o de que Deus é o único legislador. ¿Então, você usa esse princípio para dizer que todos os líderes muçulmanos que não aplicam a Sharia ao pé da letra não são muçulmanos de verdade, o que nos dá o direito de nos rebelarmos contra eles.¿Em seguida, ele ensinava aos recrutas que eles deviam lealdade exclusivamente a outros muçulmanos, tentando assim afastá-los da família e dos amigos.Quando esses princípios estavam assegurados, afirmou Morton, ¿você pode fazer basicamente o que quiser com eles¿.

Enquanto isso, Morton se perguntava até onde podia ir, e seu parceiro conversava com um advogado para estudar os limites máximos da liberdade de expressão.¿E estávamos sempre nesse limite¿, afirmou.A linha foi cruzada no dia 15 de abril de 2010, quando companheiro desequilibrado de Morton, Zachary Adam Chesser, na época com 20 anos, postou o endereço dos criadores do programa de TV ¿South Park¿, depois de um episódio que ironizava o profeta Maomé.Quando Chesser ao tentar subir em um avião internacional para se unir ao grupo militante al-Shabab, na Somália, Morton fugiu para o Marrocos. Um ano depois ele também foi preso e mantido por algum tempo em uma prisão marroquina.

Os americanos vieram buscá-lo no dia 27 de outubro de 2011. Ele conta que foi levado a um aeroporto deserto, onde se agarrou ao Corão enquanto uma equipe de agentes norte-americanos o algemava, acorrentava e cobria seus olhos. Antes de colocarem fones em seus ouvidos, eles retiraram o Corão de suas mãos.Ele ficou surpreso quando um dos agentes removeu a venda durante o voo e devolveu a ele o livro sagrado. Esse foi o primeiro de muitos gestos que mudaram sua forma de pensar, e o levaram pouco a pouco pelo caminho gradual da "desrradicalização".

De volta aos Estados Unidos, esperou sua sentença na solitária, onde uma guarda quebrou as regras e permitiu que ele deixasse a cela e ficasse na biblioteca durante todo o seu turno de trabalho.Ele conta que o primeiro livro que pegou foi o Volume 35 dos Grandes Livros da Literatura Ocidental da Enciclopédia Britânica. Ao longo das semanas seguintes, se embebia nos ensinamentos do Iluminismo, começando pela ¿Carta Acerca da Tolerância¿, escrita por John Locke em 1689. 

O filósofo argumentava que a fé não podia ser comprada pela violência, levando Morton a refletir sobre como seus captores haviam devolvido o Corão no avião.À noite, ele conta que sonhava que estava frente a frente com Osama bin Laden.¿Eu fazia perguntas: `Será que estou me tornando um descrente? Eu vou para o inferno?¿ Ele não falava, porque não tinha nada a dizer¿, conta Morton.

Mudando de lado

Foi na biblioteca da prisão que um guarda levou Morton para uma sala onde dois agentes do FBI o aguardavam.Eles entraram em sua antiga conta de e-mail e contataram diversos recrutas, muitos dos quais haviam se juntado ao Estado Islâmico. Agora, queriam que ele se tornasse um informante. Pensando a respeito e cada vez mais desiludido com o fundamentalismo, acabou concordando.Durante um dia quente de verão em 2014, logo depois que o Estado Islâmico havia declarado o califado, Morton recebeu uma carta da Síria. 

Ela havia sido enviada por um de seus antigos alunos, que descrevia entusiasmadamente como tinha passado a manhã nadando no Tigre, pouco depois que o Estado Islâmico expulsou os militares iraquianos de Mosul e pendurou as cabeças decapitadas dos inimigos em uma cerca.Ao invés de compartilhar a empolgação do recruta, Morton vomitou dentro da cela.¿Essa pessoa que já foi meu aluno, literalmente me telefonou com muitas perguntas e eu disse que ele deveria ir para a Síria. 

É como Frankenstein. Eu não o criei, mas certamente contribui para sua existência.¿Morton continuou a trabalhar como informante até ter sua posição revelada publicamente pelo jornal The Washington Post. Na época, um juiz havia diminuído sua pena de 11 anos para três anos e nove meses. Ele foi liberado no dia 27 de fevereiro de 2015.Agora, ele vive na Virgínia e os termos de soltura impedem que vá além da área do Distrito de Columbia. Em agosto, quando as aulas voltaram na Universidade George Washington, Morton estava lá no cargo de pesquisador.

Ainda assim, durante a noite, ele sente muito medo.Os extremistas poderiam voltar para machucá-lo – o Estado Islâmico considera que a espionagem é uma forma de apostasia, punível com a morte. Porém, na maioria das vezes ele sente mais medo das ideias que espalhou pelo mundo.¿Tenho medo – não porque eu ache que voltaria, mas por causa do que vem pela frente. Eu queria destruir o mundo em que vivo e, agora, percebo que a ordem internacional precisa ser protegida.¿

Por Rukmini Callimachi do NYT.

 






 
 
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