The New York Times

Israel tenta recrutar policiais árabes

Por: The New York Times
12/09/2016 - 19h20min

Kiryat Atta, Israel – A chamada foi surpreendente para os jovens que se preparavam para fazer o exame da academia de polícia de Israel: Mohammad Hreib, Ghadeer Ghadeer, Munis Huwari e Arafat Hassanein. Este último se vestia como um hipster e tinha o nome do líder palestino, que muitos judeus israelenses veem como um terrorista.¿Como eles deixaram você entrar?¿, perguntou um colega espantado para Hassanein, de 20 anos.

A lista incomum é resultado de um esforço de Israel para recrutar para sua força policial muçulmanos árabes, que são amplamente sub-representados em suas fileiras, mas aparecem em grandes números como suspeitos e vítimas de crimes.Os muçulmanos árabes são 1,5 por cento dos 30 mil membros da tropa da polícia nacional, e o ministro de segurança pública de direita quer aumentar esse número em três anos, somando 1.350 novos representantes. 

Muitos irão trabalhar nas vilas e cidades árabes, onde o ministério prometeu abrir 12 estações policiais novas. (Existem sete nessas áreas hoje, de 70 pelo país.)A tensão profundamente enraizada entre os policiais de Israel e os 1,7 milhão de cidadãos árabes – cerca de um quinto da população – de algumas maneiras espelha os exaltados problemas a respeito de raça e policiamento nos Estados Unidos. 

Na primavera e no verão, o ministro da segurança pública, Gilad Erdan, viajou para Londres e Nova York – onde os hispânicos compõem cerca de 27 por cento do Departamento de Polícia, os afro-americanos, 15 por cento, e os asiáticos, quase sete por cento – para estudar as experiências dessas cidades com a diversificação e a sensibilização de suas forças, e com o uso de câmeras presas ao corpo para responder às queixas de abusos policiais.¿Eles não vão desaparecer e esperamos que nós também não¿, afirmou Erdan em uma entrevista, falando sobre os árabes e os judeus.

Junto com o esforço de recrutamento, ele promoveu a vice-comissário, o segundo posto mais alto da equipe, um raro oficial muçulmano que há tempos está na tropa, usando-o como exemplo de quão longe um árabe pode ir dentro da polícia. O desafio, reconheceu, é como alistar essa nova população com sensibilidade – fazer isso ¿para eles e não contra eles¿.Muitos cidadãos palestinos disseram que parecia que Erdan estava ansioso para recrutar oficiais árabes porque a violência desenfreada que causa estragos em suas comunidades havia começado a afetar a sociedade judaica em geral. 

Eles afirmaram amargamente que o plano de Erdan foi anunciado apenas depois que Nashat Melhem, um árabe-israelense, abriu fogo entre os clientes de um bar em Tel Aviv em primeiro de janeiro, matando três pessoas. Mas Erdan negou que esse foi o motivo do projeto, dizendo que estava sendo planejado muito antes do ataque.Construir a confiança é seu desafio. Muitos cidadãos árabes se identificam principalmente como palestinos, não como israelenses, e veem o governo conservador, especialmente suas forças de segurança, como hostis a seus interesses. 

Eles suspeitam de um programa mais amplo do governo que propõe investir US$ 3,8 bilhões em infraestrutura, educação, moradias e outros serviços em comunidades árabes – um esforço para integrar os moradores, que sofrem mais com pobreza e desemprego, na sociedade.O recrutamento policial desencadeou um dilema especial para uma população árabe que ainda não se recuperou desde que oficiais mataram a tiros dezenas de cidadãos palestinos de Israel e um de Gaza durante demonstrações violentas no início do segundo levante palestino em 2000. O sentimento nas ruas é que a violência que atinge as regiões árabes é resultado da negligência policial.

¿A polícia não liga para os árabes¿, afirmou Amneh Freij, cujo filho Suhaib, de 24 anos, jogador de futebol profissional, foi morto em janeiro de 2015 em Kafr Qasim, uma cidade árabe de 22 mil pessoas em Israel. O que aumenta seu sentimento de impotência é que seu marido, Mohammed, é o vice-prefeito de Kafr Qasim, mas a posição dele não fez nenhuma diferença, diz ela.O assassino de Suhaib não foi preso. Se a vítima fosse judia, Amneh explicou aos prantos em uma entrevista recente, a polícia teria trabalhado com mais afinco para encontrar um suspeito.

¿Eles iriam encontrá-lo de qualquer jeito¿, disse ela.Erdan reconheceu o sofrimento da família Freij e disse que ter mais árabes na polícia poderia ajudar a resolver esses casos, porque eles entenderiam mais as estruturas criminosas locais e descobririam as melhores maneiras de recolher provas e informações.Há muitos casos para se trabalhar. Erdan diz que 60 por cento dos crimes de Israel acontecem nas comunidades árabes, o triplo da proporção da população árabe, junto com mais de 40 por cento dos acidentes de trânsito. 

O Abraham Fund Initiatives, um grupo que promove a coexistência de cidadãos palestinos e judeus, diz que um exame dos processos de 2015 mostrou que os árabes foram acusados de 58 por cento de todos os casos de incêndios provocados, 47 por cento dos roubos, 32 por cento dos arrombamentos e 27 por cento dos casos de tráfico de drogas.Apesar de os líderes árabes estarem preocupados com o crime em seus bairros, eles reclamam que a polícia usa força excessiva. 

Em 2014, os árabes fizeram uma greve de um dia para protestar contra o assassinato de um jovem de 22 anos por policiais depois que ele bateu na janela de seu veículo com o que parecia ser uma faca e se afastou, e em janeiro outro rapaz foi morto e seu pai apanhou ao serem presos por causa de drogas.Por isso, um árabe em um uniforme da polícia de Israel é visto, ainda, como um colaborador, e muitos afirmam que a polícia precisa de uma reforma e não de recrutas. 

Um popular site árabe-israelense se recusou a veicular as propagandas do recrutamento.¿Uma quantidade maior de policiais não é a solução. A solução é mudar a mentalidade da polícia¿, afirma Auman Odeh, que lidera um grupo de legisladores árabes no parlamento de Israel.Amnon Beeri-Sulitzeanu, um dos diretores executivos do Abraham Fund Initiatives, que possui seu próprio projeto para melhorar as relações entre os árabes e a polícia, diz que há uma contradição em um governo que tem falado de modo bastante hostil sobre os árabes enquanto apresenta um orçamento maior para melhorar a vida deles.¿É essa tendência conflitante – muito positiva por um lado e muito destrutiva por outro¿, diz ele. 

O governo ¿não ajuda – estou tentando ser gentil aqui – em sua retórica e ação quando se trata do lugar e dos direitos coletivos da minoria palestina¿.Desde que a iniciativa do recrutamento foi anunciada em abril, cerca de 700 árabes se inscreveram para entrar na força policial. Jamal Hakroush, de 59 anos, o recém-promovido vice-comissário, disse que cerca de 200 devem conseguir uma vaga.Hakroush está simultaneamente liderando uma ofensiva para encantar os prefeitos árabes e conseguir apoio para a campanha de recrutamento. 

Recentemente em Taibeh, uma cidade com reputação de ser bastante violenta, ele se encontrou com o prefeito, Shuaa Mansour, em seu escritório à prova de balas.Em torno de café e doces de massa folhada, Mansour disse que apoiaria o plano, mas de modo relutante.¿Quem tiver uma alternativa à polícia, pode trazê-la¿, afirmou ele.

Por Diaa Hadid do NYT.

 






 
 
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