The New York Times

Nas artes e na cultura um "Novo" México investe em suas raízes

Por: The New York Times
07/09/2016 - 18h42min | Atualizada em 07/09/2016 - 18h42min

Cidade do México – Quando a cantora pop Natalia Lafourcade, 32 anos, subiu ao palco do Auditório Nacional aqui, no início do ano, alcançou um ponto alto na carreira que começou há mais de uma década, quando se apresentou com uma roupa de inspiração grunge.Para esse show, porém, a estrela deixou de lado o jeans rasgado; em vez dele, optou por usar uma calça criada por um estilista mexicano e uma coroa de rosas vermelhas, em homenagem à artista Frida Kahlo. 

Na metade do concerto, recebeu uma banda de jarocho, estilo de música típica de Veracruz."Era hora de me reconectar às minhas origens. Queria incorporar o caráter mexicano às minhas músicas", explica ela.Em um país que está enfrentando problemas sociais, econômicos e políticos, mas que também tem um patrimônio cultural riquíssimo, muitos artistas emergentes e formadores de opinião sentem que não precisam mais se voltar para o exterior em busca de inspiração."Os estrangeiros adoram nosso povo, nossas praias, nossas pirâmides, nossa comida. 

Estava mais do que na hora de começarmos a dar valor a nós mesmos como fazem os que vêm de fora", filosofa Israel Gómez, membro da banda de eletro-pop Centavrvs, indicada ao Grammy.Embora o México já tenha passado por um momento de bonança cultural no início do século XX, a onda mais recente, promovida por jovens artistas, reflete uma mudança mais abrangente.É verdade que a história do muro domina as conversas regionais e a corrupção continua a afligir o governo, mas a importância do país na culinária, na cultura, no design e na arte só faz crescer. 

Os mexicanos agora podem se gabar de seus próprios cineastas de classe internacional, suas mostras de arte e chefs famosos."A influência da cultura mexicana na arte e na moda é bem forte – e agora há uma nova geração de jovens, aqui e no exterior, que está promovendo esse movimento", afirma Roopal Patel, diretora de moda da Saks Fifth Avenue.O artista Edgar Flores, conhecido como Saner, se inspirou na complexa história colonial mexicana para fazer um mural imenso, completado em 2013, em Fleury-les-Aubrais, na França, em que mostra um abraço fatal entre um guerreiro asteca e um conquistador espanhol.

Flores disse que a obra é um "grito desesperado" pela preservação e redefinição da identidade nacional, um conceito frágil que, segundo ele, pode se perder facilmente se os mexicanos continuarem a não valorizar a própria cultura e história."Num mundo globalizado, no qual você pertence a todos os lugares e ao mesmo tempo nenhum, eu reafirmo minhas raízes para saber quem eu sou, o que quero dizer e para onde estou indo", disse ele em entrevista recente em seu estúdio, na Cidade do México.Gómez, do Centavrvs, diz que a intenção da banda, inspirada em um apelido do herói popular revolucionário Pancho Villa, era explorar essa mesma identidade.

O grupo combina os sons da cumbia e da ranchera, dois estilos tradicionais, colocando vozes do coral das índias michoacán em canções populares e inserindo trechos de poemas e romances nacionais clássicos nas letras."A nossa música é o resultado de um 'novo' México, totalmente inspirado no antigo, que tem a ver com quem somos hoje e o orgulho que sentimos disso, destacando nossas raízes e mostrando ao mundo essa 'mexicanidade'."A ressurgência do interesse no patrimônio cultural mexicano fica ainda mais evidente na moda.Estilistas e consumidores locais deixaram de lado o medo de ser "étnico demais" e agora apostam nos tecidos e artesanatos indígenas, que durante muito tempo foram objetos de interesse somente dos turistas norte-americanos em busca de souvenires.

Em muitos países, o entusiasmo inicial em relação às escolhas do consumidor arrefeceu, dando lugar ao apetite pela autenticidade e pela conexão mais profunda com os produtos e o legado cultural."O prazer de comprar uma peça Philippe Starck na Target acaba sendo substituído pela sensação de que nada mais é exclusivo, sagrado ou único", afirma a historiadora de arte nova-iorquina Maggie Galton, fundadora da Onora Casa, marca de luxo da Cidade do México que trabalha com tecidos tradicionais."

O pessoal agora quer uma manta com inscrições maias; quer um produto que seja belo e, ao mesmo tempo, tenha identidade, história e dedicação na sua confecção", completa.E embora o setor da moda aqui ainda não tenha alcançado seu potencial, a onda de conscientização e inspiração parece estar no auge, com o setor criativo investindo no interesse pela autenticidade, ao mesmo tempo em que satisfaz os sentimentos de orgulho e empoderamento."Estamos oferecendo algo que o mundo está procurando, ou seja, a consciência em relação ao lugar de onde vem o produto, além da forma como é feito e por quem", afirma o estilista Francisco Cancino, cuja marca, a Yakampot, mistura ideias minimalistas e sofisticadas com desenhos tradicionais e artesanais para criar roupas nativas, como o xale rebozo.

Suas peças podem ser encontradas no site de compras de luxo Luisa Via Roma e em cidades europeias como Florença, na Itália.Grifes exclusivas e poderosas também estão se voltando para o México em busca de inspiração, adicionando detalhes da cultura moderna e/ou antiga daquele país em suas coleções de alta costura.Na temporada primavera-verão de 2015 do francês Jean Paul Gaultier, por exemplo, as modelos usaram máscaras inspiradas naquelas usadas pelos lutadores de lucha libre, coloridas e até assustadoras.Também no ano passado, a grife japonesa Comme des Garçons exibiu botas guarachero – a versão pontuda de cano altíssimo que se originou no norte do México e é destaque na cultura musical "guarachero tribal".

Por outro lado, conforme cresce o número de empresas e estilistas em busca de oportunidades de mercado explorando as tradições e técnicas mexicanas, aumenta a preocupação com o momento em que a inspiração se torna apropriação cultural ou roubo.No início do ano, Isabel Marant foi acusada de plágio porque uma blusa de sua coleção se parecia demais com os bordados produzidos pelas índias de Santa María Tlahuitoltepec. Obviamente a estilista rechaçou as acusações. Novamente, em abril, surgiu um abaixo-assinado que pedia que a Pottery Barn parasse de vender almofadas chinesas com a inscrição "bordado Otomí" porque não eram produzidas na região.

Graças à exploração do patrimônio mexicano, muitos estilistas puderam redirecionar a carreira. Cancino, o estilista da Yakampot, cresceu, como muitos outros aqui, com a ideia de que o sucesso profissional só poderia ser alcançado no exterior. Assim, fez as malas e saiu de sua casa, no estado de Chiapas, rumo a Paris.Sentindo-se um peixe fora d'água, ele se perguntou como poderia criar uma coleção de roupas contemporânea e sofisticada com que fashionistas do mundo todo pudessem se identificar."A resposta é bem simples: se você descobriu a identidade de seu projeto em sua própria cultura, com suas tradições e técnicas, o resultado é muito autêntico e valoroso e todo mundo vai apreciar", explica Cancino.

Para outros, porém, assumir e definir uma identidade mexicana significa abandonar os clichês e estereótipos associados ao país e explorar outros aspectos da cultura e da sociedade.Quando o cineasta Alonso Ruizpalacios situou seu filme de 2014, "Güeros", na Cidade do México de 1999, o fez porque escolheu enfatizar o conflito de classes e as contradições políticas que ferviam naquele momento na capital, evitando os temas mais comuns como a violência e criminalidade do narcotráfico."Havia essa ideia de que para ser verdadeiramente mexicano você tinha que ser ou fazer folclore. Agora o debate é outro; as ideias estão se tonando mais complexas", define.

Por Paulina Villegas do NYT.

 






 
 
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