The New York Times

Sua missão de férias? Encontrar esse cavalo roubado

Por: The New York Times
06/09/2016 - 23h25min | Atualizada em 06/09/2016 - 23h25min

San Francisco – "Há quanto tempo vocês trabalham para a agência?", perguntou Charles, nosso motorista. Minha mulher e eu trocamos olhares. "Um tempinho", respondemos. Não houve resposta.Circulávamos pelo cinza da manhã de San Francisco – a íngreme Bernal, Bayshore, cheia de lixo. Charles era de meia-idade e tinha um visual amarrotado, combinando calça social com tênis. 

A princípio Amy e eu evitamos falar muito, mas na altura de Bay Bridge já até fazíamos perguntas. Charles olhava pelo retrovisor. Contou que dava aula em escola pública quando não dirigia. Não demorou a começarmos a discutir os aspectos mais nobres da profissão e a importância de um bom diretor.Tudo perfeitamente normal e, nos quinze minutos seguintes, não externamos nossas preocupações nenhuma vez: aonde estávamos indo? O que era a tal de "agência"? Pelo amor de Deus, o que estava acontecendo?

Não sabíamos de nada a respeito desse retiro de fim de semana estranho quando nos inscrevemos – a não ser que tinha sido minuciosamente planejado por gente que não conhecíamos, que ficaríamos na área da Baía de San Francisco e que teríamos que ajudar a localizar um puro-sangue roubado."É meio que um lance... projeto de arte... mistério... férias", explicara eu para nossos filhos um pouco antes, esperando pelo menos dar uma ideia da situação e torná-la difusa o suficiente para poder entregá-los aos avós sem grandes dramas. 

Deu certo e logo mais já nos acomodávamos no banco traseiro de Charles, como deve fazer quem se propõe a recuperar um cavalo para se divertir.Eu tenho aqui comigo que todos nós passamos as férias mais ou menos do mesmo jeito: é escolher um lugar, selecionar alguma maneira de relaxar e ser paparicado ali, voltar para casa. Quando, alguns meses antes, Amy e eu compramos um fim de semana com a First Person Travel, decidimos alterar totalmente esse modelo. 

Em vez de fazermos nossas próprias escolhas, tudo seria planejado por artistas criadores de jogos de mistério; em vez de aproveitar a realidade, mergulharíamos em um tipo de teatro disfarçado de viagem, interativo e personalizado; em vez de um itinerário genérico, os organizadores fizeram questão de nos conhecer, intimamente até, através de um questionário detalhado. Nossa viagem seria uma peça, escrita para nós, da qual seríamos também os protagonistas.

A First Person Travel é criação de Gabe Smedresman, desenvolvedor de jogos e criador do "entretenimento misturado com a realidade", e Satya Bhabha, roteirista, diretor e ator, mais conhecido por seu papel em "Scott Pilgrim Contrra o Mundo". A ideia é combinar a narrativa e os elementos do teatro de imersão à seriedade da programação de viagens de fim de semana. A isso tudo, acrescentaram também serviços exclusivos de hospedagem e serviços para que os viajantes não tenham que se distrair com a banalidade da logística."Em vez de ver um filme, você vive um. 

Nós produzimos uma realidade aprimorada, na qual você se relaciona mais profundamente com as outras pessoas e o lugar", explica Smedresman.Estávamos cruzando a Bay Bridge quando Charles pegou alguma coisa discretamente no banco ao seu lado."Tenho que entregar isto aqui a vocês", disse, mostrando-nos uma valise de couro com um iPad dentro. 

Nas 36 horas seguintes sua tela adaptada forneceria itinerários, rotas, um dossiê dos vários personagens que encontraríamos e uma linha direta a um tipo de controle de missão, à disposição para ajudar na diversão e no combate ao crime. (Segundo as instruções, teríamos que desligar os telefones.)Perto de Berkeley, Charles saiu da via expressa e parou em Golden Gate Fields, um hipódromo dos anos 40 que ficava na parte mais rochosa da baía. Apesar de morarmos há vários anos na região, nunca tínhamos estado ali. Percebemos que o pessoal da First Person Travel tinha um talento incrível para encontrar uns cantinhos ótimos e pouco explorados da região. 

Charles às vezes jogava pôquer com os jóqueis. "Pessoal escorregadio", sentenciou.A seguir, saímos do carro e seguimos para a entrada. Lá dentro, nada incomum – até uma mulher consternada, vestida em estampa houndstooth, aparecer de mansinho.Sarai era seu nome e havia um ar de glamour meio sombrio à sua volta, reforçado pelo clima de filme noir que o local tinha na névoa. Ansiosa, pegou-nos pelo braço e nos levou para a pista externa. Explicou que era agente de vendas de equinos e, depois dos eventos terríveis das últimas 24 horas, sabia que teria que contar com uma dupla de investigadores de primeira. E olhava sobre o ombro enquanto falava.

Na meia hora seguinte Sarai nos contou tudo sobre Talisman, o cavalo que estava prestes a vender por uma quantia considerável. Na noite anterior o treinador o tinha levado de volta ao estábulo. Fora a última vez que viram o animal; pela manhã, ele tinha sumido. Várias pessoas o queriam fora do páreo. Sérios, analisamos todas as pessoas que faziam parte da vida de Talisman enquanto saboreávamos o café da manhã que Sarai trouxera. Imagine "O Falcão Maltês" com guloseimas excepcionais.Era assim que seria: uma mistura estranhamente bem engendrada de mistério falso e lazer de verdade – uma investigação cavalar deixa livre uma quantidade surpreendente de tempo para passear, comer e relaxar. 

Incrível também o fato de termos aceitado o conceito tão rapidamente. Em questão de horas não acreditamos inteiramente na história de que éramos detetives em um caso de roubo de cavalo, mas também não nos sentimos como mais um casal de férias. A verdade pairava entre um e outro.Susan Orlean uma vez disse que a viagem é melhor quando você tem algum objetivo: uma missão, uma meta, algo em que se concentrar quando está em um lugar novo e sem ideia de como explorá-lo. 

Concentrados na tarefa que tínhamos pela frente e desconfiados de tudo, nossos sentidos se aguçaram. Começamos a olhar para as pessoas – e a Califórnia – com mais atenção. Amy comentou que nunca tinha notado o túnel que os galhos de sequoia compunham sobre quem passava na Lucas Valley Road."Forçamos a receptividade na base do susto", explicou Smedresman mais tarde.Durante o tempo todo um segundo mistério pairava sobre a questão principal: por que o setor de turismo não fora desconstruído dessa forma antes? 

Enquanto civilização, modernizamos os meios de transporte, comprar passagens e tal, mas a essência da viagem continua muito análoga. A mistura de teatro e tecnologia nos pareceu uma novidade criativa.Para não tirar a graça do mistério – cada fim de semana da First Person Travel é personalizado, mas os termos gerais da história permanecem os mesmos – direi apenas que as linhas começaram aí a convergir. 

Em uma igreja antiga e aberta descobrimos um detalhe surpreendente sobre Vance; depois, tivemos um encontro esclarecedor com Herb em Muir Beach, seguido por um almoço sensacional entre surfistas e frisbees de Stinson Beach. Se houve uma conclusão dramática envolvendo reviravoltas elaboradas e até gritos? Um bom detetive sabe quando ficar de boca fechada.

À tarde estávamos na balsa de volta a San Fancisco, tomando um solzinho, recapitulando, boquiabertos, a verdade sobre as últimas 36 horas de Talisman e a nossa também. Mais tarde, receberíamos por e-mail um resumo de nossas atividades detetivescas. (Fazemos parte dos 67 por cento de viajantes que descobriam um certo machado em Nicasio, muito obrigado.) 

Por enquanto, estávamos apenas maravilhados com a maneira que essa farsa detetivesca nos deixou ao mesmo tempo mais atentos e mais relaxados. A certa altura olhei para Amy, feliz da vida à brisa, e jurei para mim mesmo que trataria de investigar mais cavalos fictícios do que nunca.Charles, o motorista que não era bem professor nas horas vagas, nos pegou no Ferry Building e nos levou para casa. Não foi difícil voltar à vida normal, pós-Agatha Christie; complicado foi saber que não haveria mais um batalhão invisível – no total, 50 pessoas trabalham na First Person Travel – para cuidar do nosso bem-estar.

Tirando toda a investigação, a ausência de planejamento talvez tenha sido a parte mais radical do fim de semana. Você só vai aonde mandam. Nada de guia, nada de tomar decisões, nada de ter que adivinhar quanto tempo vai levar até o jantar. Sem essas preocupações triviais, ficamos livres para explorar os recônditos secretos da região da baía e mergulhar nas estranhas verdades sobre as afinidades das viagens e do mistério.

Por Chris Colin do NYT.

 






 
 
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