The New York Times

Testando novos sabores na fantástica fábrica de Roald Dahl

Por: The New York Times
12/09/2016 - 19h08min | Atualizada em 12/09/2016 - 19h15min

Londres – Na porta cinzenta, no bairro de Marylebone, não há placa nenhuma, apenas onze palavras (em inglês) na parte superior do batente: "Os maiores segredos estão sempre escondidos nos lugares mais improváveis".Roald Dahl, o escritor infantil criativo e um tanto sombrio do século XX, responsável por "A Fantástica Fábrica de Chocolate" é o autor da frase, gravada na entrada por seus herdeiros que, de dentro do pequeno conjunto de salas comerciais procuram, agressivamente, maneiras de globalizar, digitalizar e faturar em cima de seus trabalhos maravilhosamente maluquinhos.

O objetivo é bem ambicioso: fazer com que todas as crianças do mundo conheçam pelo menos uma de suas histórias.Para isso, o espólio, que tem uma equipe comandada pelo neto de trinta anos do autor, foi muito além dos livros que o tornaram famosos: 23 projetos para a TV, cinema e teatro estão em andamento, além de aplicativos de invenções culinárias inspirados em Dahl e seus livros.

Em parceria com o McDonald's, passou a distribuir seleções de suas histórias com o McLanche Feliz no Reino Unido; com o sabão em pó Persil, estimula a criançada a sair "em busca de aventuras bagunçadas"; com a Boden, vai lançar uma coleção de roupas inspirada nos personagens. E tem também novidade na música clássica. (Resultado: o compositor Benjamin Wallfisch compôs uma adaptação orquestrada de "Dirty Beasts".)

O grupo está se refazendo da decepção com "O Bom Gigante Amigo", filme dirigido por Steven Spielberg que fracassou nas bilheterias dos EUA, embora tenha tido uma estreia mais promissora no Reino Unido e já dê sinais de uma recepção mais calorosa no resto do mundo. O próximo passo é mais arriscado: levar para a Broadway uma versão musical de "A Fantástica Fábrica de Chocolate", que já está sendo alterada substancialmente e tem novo diretor, já que a versão londrina, apesar do sucesso com o público, não conquistou a crítica norte-americana, nem os especialistas.

As decisões dos responsáveis pelo legado de Dahl acontecem em um momento em que muitos espólios literários estão mergulhando na era digital na esperança de que as novas tecnologias e plataformas de contação de histórias convençam as novas gerações de leitores (e espectadores) de que um escritor já morto continua sendo relevante e estimulante, ao mesmo tempo consciente de que excessos ou projetos mal escolhidos possam prejudicar o valor e o alcance da obra em longo prazo.Dahl é mais conhecido por cinco livros, incluindo, além de "A Fantástica Fábrica" e "O Bom Gigante Amigo", "James e o Pêssego Gigante", "Matilda" e "As Bruxas", mas há, no total, 18 histórias infantis com as quais o espólio quer conquistar o público.

"Com o setor editorial mudando tanto, acho que ainda há um desejo imenso de levar esse mundo vívido e repleto de travessuras para outros meios", diz o neto, Luke Kelly, diretor executivo do Patrimônio Literário de Roald Dahl.E acrescenta: "Estamos passando de espólio literário para uma empresa de gestão de histórias e isso assusta um pouco algumas pessoas. 

Não significa que deixamos de encarar os livros como nossa guia mestra, mas sim que estamos trabalhando para encontrar meios de levar essas histórias e esses mundos fantásticos à imaginação da criançada através das mais variadas formas".

Kelly revela que o espólio doa pelo menos dez por cento de seus lucros para caridade, embora se recuse a especificar valores, alegando que esse tipo de informação é confidencial. E conta que está à procura de parceiros. "Profissionais de alto nível, cujos trabalhos tenham um toque sombrio e que compreendam a essência britânica das histórias."Seguindo essas características, o espólio escolheu, há alguns anos, o comediante e músico Tim Minchin, convocado para fazer a trilha sonora de "Matilda, o Musical". 

Fã vitalício de Dahl que cresceu ouvindo e lendo suas histórias e agora faz o mesmo para os filhos, o australiano confessa que adaptá-las "é um desafio e tanto", pois exige a conversão de sequências de capítulos em narrativas dramáticas, com o acréscimo de uma carga emocional suficiente para não só entreter as crianças como comover os adultos.

"Ficou bem claro que eles (o espólio) entendem que o trabalho de Dahl pode ser arruinado se for transmitido nos moldes Disney, essa coisa muito brilhante, muito melada; por outro lado, não dá para exagerar e transformar num espetáculo psicopata. E têm experiência suficiente para saber que se convocarem uma pessoa muito simplista para adequar seu trabalho, ela talvez não capture aqueles dez por cento tão peculiares que Dahl cria e ninguém consegue imitar", diz Minchin.Na verdade, as adaptações, principalmente para o teatro e o cinema, começaram enquanto Dahl ainda estava vivo. 

As peças eram extremamente fiéis aos livros; já os filmes terminavam de forma mais suave e sentimental. Por exemplo, "Convenção das Bruxas", de 1990, foi criticado pelo autor por ter alterado o final de modo que o garoto protagonista pudesse viver mais tempo como humano; no livro, ele opta por uma vida mais curta como rato. Dahl também deixou bem clara sua desaprovação à "Fantástica Fábrica de Chocolate", primeira adaptação da obra – mas o musical de 1971, estrelado por Gene Wilder, morto em agosto, fez tanto sucesso e se tornou tão popular, especialmente nos EUA, que a adaptação para o palco está sendo feita para se parecer com ele.

De uns anos para cá, o espólio passou a escolher artistas mais idiossincráticos – que, portanto, representam um risco mais alto – para suas parcerias, cineastas como Tim Burton e Wes Anderson, por exemplo, e o dramaturgo Enda Walsh, aceitando assim que se fizessem mudanças nas tramas. As duas adaptações recentes mais elogiadas artisticamente – "O Fantástico Sr. Raposo", animação dirigida por Anderson, e "Matilda, o Musical", de Dennis Kelly e Minchin, alteram detalhes dos enredos das histórias.Esse último, aliás, que estreou na Companhia Real de Shakespeare, em 2010, continua em cartaz em Londres e fica na Broadway até 1º de janeiro; há versões sendo encenadas na Austrália e no Canadá (Toronto) e a turnê norte-americana será retomada em janeiro.

Em termos teatrais, a seguir virá uma nova versão de "O Fantástico Sr. Raposo", adaptada por Sam Holcroft com música de Arthur Darvill, cuja estreia acontece ainda este ano, no Teatro Nuffield, em Southampton, na Inglaterra, e depois segue para outros palcos. Kelly informa que há sete séries de TV e sete longas em desenvolvimento, inspirados nos maiores sucessos de Dahl – entre eles, a versão cinematográfica para "Matilda" e, segundo a reportagem do Deadline Hollywood, para "James e o Pêssego Gigante", provavelmente dirigida por Sam Mendes.Prequelas ou sequências de livros já existentes também estão em discussão, mas sob a vigilância atenta do espólio, que tem grandes esperanças de injetar vida nova em títulos menos conhecidos. 

No ano passado, Judi Dench e Dustin Hoffman estrelaram uma adaptação para a TV britânica muito popular de "Esio Trot", para a qual a Weinstein Company já adquiriu os direitos nos EUA.Já com "A Fantástica Fábrica de Chocolate", por outro lado, o espólio sabe que tem um título extremamente popular e rentável, mas é preciso agradar àqueles que adoraram o livro, os que se lembram com carinho do filme de 1971, os que preferiram o remake de 2005, com Johnny Depp e os que não conhecem nenhum deles.

O musical, dirigido por Mendes, estreou em Londres, em 2013, com algumas críticas favoráveis e outras nem tanto; a produção norte-americana será dirigida por Jack O'Brien, que promete mudanças, e terá uma parceria nova e mais vanguardista: o titereiro Basil Twist.Para David Greig, dramaturgo escocês escolhido para escrever o libreto do musical da "Fábrica", cada adaptação é uma oportunidade para o espólio definir o legado de Dahl. "Em vez de simplesmente aceitar as ofertas que aparecem, eles começaram a se questionar em termos do que pretendem e do legado que querem deixar."

Por Michael Paulson do NYT.

 






 
 
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