The New York Times

Uma poderosa arma russa: a disseminação de boatos

Por: The New York Times
13/09/2016 - 21h20min | Atualizada em 13/09/2016 - 21h20min

Estocolmo, Suécia – Com o desenrolar de um debate nacional vigoroso a respeito de se a Suécia deveria formar uma parceria militar com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), as autoridades suecas encontraram um problema perturbador: uma enxurrada de informações distorcidas e simplesmente falsas na mídia social, confundindo as percepções públicas acerca da questão.

As alegações eram perturbadoras: se a Suécia, que não é membro da Otan, assinasse o acordo, a aliança armazenaria armas nucleares em segredo no país, a Otan poderia atacar a Rússia a partir da Suécia sem aprovação governamental e soldados da Otan, que não podem ser processados, poderiam estuprar mulheres suecas sem temer acusações criminais.Todas eram falsas, mas a desinformação começou a chegar à imprensa tradicional, e quando o ministro da defesa, Peter Hultqvist, viajava pelo país para defender o pacto fazendo palestras e participando de reuniões nas câmaras municipais, sempre era questionado sobre os boatos.

Como costuma acontecer nesses casos, as autoridades nunca conseguiram localizar a fonte das histórias falsas. Diversos analistas e especialistas de inteligência dos Estados Unidos e da Europa apontam a Rússia como principal suspeita, observando que impedir a expansão da Otan é um ponto central da política externa do presidente Vladimir Putin, que invadiu a Geórgia, em 2008, em grande medida para evitar essa possibilidade.

Na Crimeia, Ucrânia oriental e, agora, na Síria, Putin tem exibido tropas mais modernizadas e fortes, mas não dispõe do poderio econômico nem de força como um todo para enfrentar abertamente a Otan, a União Europeia ou os EUA. Pelo contrário, ele tem investido pesadamente em um programa de informação transformada em arma, usando uma ampla gama de meios para semear a dúvida e a divisão. O objetivo é enfraquecer a coesão entre os estados membros, estimular a discórdia na política interna e entorpecer a oposição à Rússia."Moscou encara os assuntos mundiais como um sistema de operações especiais, e acredita sinceramente que é um objeto de operações especiais do Ocidente. 

Tenho certeza de que existem diversos centros, alguns ligados ao Estado, que estão envolvidos na invenção desses boatos", diz Gleb Pavlovsky, que ajudou a montar a máquina de informação do Kremlin antes de 2008.A divulgação de histórias não é nova; a União Soviética dedicou recursos consideráveis a isso durante as batalhas ideológicas da Guerra Fria. Agora, no entanto, a desinformação é vista como um aspecto importante da doutrina militar russa, e está sendo direcionada aos debates políticos em países alvos com uma sofisticação e um volume muito maiores do que no passado.

O fluxo de histórias enganosas e imprecisas é tão grande que tanto a Otan quanto a UE criaram escritórios especiais para identificar e refutar a desinformação, principalmente as afirmativas oriundas da Rússia.Os métodos clandestinos do Kremlin também surgiram nos EUA, afirmam autoridades norte-americanas, identificando a inteligência russa como fonte provável do vazamento dos e-mails do Comitê Nacional do Partido Democrata que envergonharam a campanha presidencial de Hillary Clinton.

O Kremlin usa tanto a mídia convencional – a Sputnik, uma agência de notícias, e RT, uma estação de televisão – e canais secretos, como no caso da Suécia, que quase sempre são impossíveis de localizar.A Rússia explora as duas abordagens em um ataque abrangente, declarou neste ano Wilhelm Urme, porta-voz do Serviço de Segurança da Suécia, ao apresentar o relatório anual da agência. "Está tudo junto, de trolls da internet, passando por propaganda e desinformação divulgada por empresas de mídia como RT e Sputnik", ele diz.Segundo especialistas, o propósito fundamental da "dezinformatsiya" (a desinformação russa) é enfraquecer a versão oficial dos fatos – até mesmo a própria ideia de que exista uma versão oficial dos fatos – e promover uma espécie de paralisia política.

Com veemência, Moscou nega usar a desinformação para influenciar a opinião pública ocidental e costuma classificar as acusações de ameaças visíveis ou invisíveis de "russofobia".Rastrear elementos individuais de desinformação é difícil, mas na Suécia e outros países, especialistas detectaram um padrão característico que ligam às campanhas de desinformação geradas pelo Kremlin."A dinâmica é sempre igual: a origem é em algum lugar na Rússia, em sites da imprensa oficial russa, em sites diferentes ou outro lugar nesse tipo de contexto", declara Anders Lindberg, jornalista e advogado russo."A seguir, o documento falso se torna a fonte de uma reportagem distribuída em sites de extrema direita ou extrema esquerda. 

Quem se vale desses sites em busca de notícias faz a ligação com a história, que se espalha. Ninguém pode dizer de onde ela vem, mas ela termina como uma questão central na decisão da política de segurança."A transformação da informação em arma não é um projeto criado por um especialista em política do Kremlin, mas uma parte integral da doutrina militar russa – que algumas altas autoridades militares chamam de frente de combate "decisiva"."O papel de meios não militares para a conquista de objetivos políticos e estratégicos cresceu e, em muitos casos, ultrapassou a potência das armas em sua eficácia", escreveu, em 2013 o general Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas.

Um dos principais alvos russos é a Europa, onde a ascensão da direita populista e o declínio do apoio à UE criou um público ainda mais receptivo à abordagem autoritária, nacionalista e conservadora da Rússia sob o comando de Putin. Em 2015, o Parlamento Europeu acusou a Rússia de "financiar partidos radicais e extremistas" em seus Estados membros, e, em 2014, o Kremlin ampliou um empréstimo de US$ 11,7 milhões à Frente Nacional, o partido de extrema direita da França."Os russos são muito bons em cortejar todos que têm rancor da democracia liberal, e isso vale da extrema direita à extrema esquerda", diz Patrik Oksanen, editorialista da MittMedia, grupo sueco de imprensa. Segundo ele, a ideia central é a de que a "democracia liberal é corrupta, ineficiente, caótica e, em última análise, não democrática".

Outra mensagem, em grande medida implícita, é a de que os governos europeus não têm a competência de lidar com as crises que enfrentam, principalmente imigração e terrorismo, e que seus dirigentes não passam de marionetes dos Estados Unidos.De acordo com analistas, no Reino Unido, os órgãos de imprensa em inglês do Kremlin favoreceram bastante a campanha para o país deixar a União Europeia, apesar de afirmarem ser imparciais.Na República Tcheca, histórias sensacionalistas e inquietantes retratando os EUA, a UE e os imigrantes como vilões são publicadas todos os dias em um conglomerado de cerca de 40 sites pró-Rússia.

Durante os exercícios militares da Otan, em junho, reportagens nos sites sugeriam que Washington controlava a Europa por meio da aliança e a Alemanha atuava como xerife local. Repercutindo a desinformação publicada na Suécia, as matérias informavam que o Otan pretendia armazenar armas nucleares na Europa Oriental e atacar a Rússia com elas sem buscar a aprovação dos governos nacionais.Uma pesquisa realizada neste ano pela European Values, instituto de pesquisa interdisciplinar de Praga, constatou que 51 por cento dos tchecos viam negativamente o papel dos Estados Unidos na Europa, somente 32 por cento viam a União Europeia de forma positiva e pelo menos 25 por cento acreditavam em alguns elementos da desinformação.

O canal RT muitas vezes parece obcecado com os EUA, retratando a vida norte-americana como um inferno. Por exemplo, sua cobertura da Convenção Nacional do Partido Democrata pulou os discursos e se concentrou em manifestações espalhadas. A emissora defende o candidato presidencial republicano, Donald Trump, como um azarão difamado pela imprensa tradicional.Margarita Simonyan, redatora-chefe da RT, afirma que o canal foi classificado como ameaça porque oferece uma narrativa diferente do "sistema político e noticioso anglo-americano". Segundo ela, o canal quer oferecer "uma perspectiva ausente na câmera de eco da grande imprensa".

Qualquer que seja o método ou a mensagem, a Rússia claramente quer ganhar a guerra da informação, como deixou claro recentemente Dmitry Kiselyev, o mais famoso âncora da televisão russa e diretor da organização que comanda a agência Sputnik.Falando sobre o 75º aniversário da Agência de Informação Soviética, Kiselyev declarou que a era do jornalismo neutro chegara ao fim. "Se nós fazemos propaganda, então que vocês também façam", ele afirmou, direcionando a mensagem a jornalistas ocidentais."

Hoje em dia, é muito mais caro matar um soldado inimigo do que durante a Segunda Guerra Mundial, a Primeira Guerra ou a Idade Média", disse ele durante entrevista na rede de televisão estatal Rossiya 24. Embora o negócio da "persuasão" também seja mais caro agora, "se você conseguir persuadir uma pessoa, não será preciso matá-la".

Por Neil Macfarquhar do NYT.

 






 
 
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