The New York Times

A situação do Street Style

Por: The New York Times
14/10/2016 - 18h39min | Atualizada em 14/10/2016 - 18h39min

Quantos anos atrás víamos grupos de fotógrafos, na Semana da Moda, se ajoelhando para fotografar o sapato de alguém? Pois essa época agora parece distante e pitoresca.

Como observaram os editores da Vogue em uma postagem sobre a Semana da Moda de Milão, recebida com elogios e escárnio (principalmente escárnio), a passarela da rua agora é, em grande parte, um meio de promoção de estilos, tendências e artigos já em circulação, com praticamente nenhuma relação com as novas ideias.

Chamando os artistas de mutantes e as amostras das coleções desse desfile paralelo de "patéticos" "embaraçosos" e "tristes", a revista vê com pesar a prática de atrair a atenção no Instagram como arauto da morte do verdadeiro estilo.

Os blogueiros contra-atacaram com sua própria crítica a uma indústria que se beneficia ricamente de relacionamentos próximos com estilistas e marcas. "Blogueiros que vestem roupas pagas ou emprestadas estão meramente fazendo um equivalente mais óbvio do sistema de crédito editorial", escreveu @susiebubble, como a blogueira britânica Susanna Lau é conhecida, para seus 277 mil seguidores no Twitter.

E acrescentou: blogueiros também têm contas para pagar.

Em última análise, foi uma tempestade passageira gerada por uma terminologia descuidada. As criaturas sobre as quais a equipe da Vogue se referiu não são blogueiros – não criam conteúdo original, escrito ou visual –, mas sim exibicionistas. Seja de que lado for, no entanto, essa nova realidade destaca uma dificuldade enfrentada por aqueles que frequentam os meses de desfiles, realizados duas vezes por ano em Nova York, Londres, Milão e Paris: para muitos, se arrumar de manhã para chamar a atenção das câmeras é agora em parte trabalho, em parte esporte cruelmente competitivo.

Tradicionalmente, editores, lojistas e estilistas, embora tenham a tendência de se vestir bem, o fazem com o anonimato em mente. O show é trabalho dos estilistas. Ainda há exceções, principalmente entre as pessoas cujos nomes você não sabe. Tonne Goodman, diretora de moda da Vogue, usa seu invariável uniforme monocromático composto por golas altas, calças e sapatos baixos. Tiziana Cardini, diretora de varejo da cadeia de loja de departamentos Rinascente, na Itália, se veste tão discretamente e bem que não corre nenhum risco de desviar a atenção de aparições mais surpreendentes como Anna Dello Russo, editora da Vogue Japão, famosa por trocar de roupa até seis vezes em um único dia.

Se verificar as imagens da recente rodada de desfiles europeus pode esclarecer alguma coisa é que aqueles que os frequentam para ver e não para serem vistos, em certo sentido, são uma raça em extinção. Em uma época solipsista, cada um de nós é uma marca individual e os desfiles de moda provaram ser uma plataforma inigualável para o aprimoramento dos negócios.

O ponto, porém, não é que essas mulheres parecem lindas, elegantes e mais bem cuidadas do que quem quer aparecer. É que elas se vestem para seus seguidores.

Mesmo parecendo ir de um desfile para outro sem muito esforço, estão na verdade dando duro para agradar um público on-line que, no caso da socialite Olivia Palermo, chega a 4,1 milhões só no Instagram.

Giovanna Engelbert, colaboradora da revista W, com um estilo assertivo que se destaca por combinações inesperadas (ela foi vista a caminho do desfile da Rochas em Paris usando um vestido de couro e crochê feito por sua irmã), pode se orgulhar de seus mais de 500 mil seguidores no Instagram.

Pandora Sykes, editora de moda do Sunday Times de Londres, tem 112 mil fãs no Instagram. Tal é a influência dessa "amante do guarda-roupa" do jornal britânico mais vendido, que você pode estar certo de que quando ela aparece para um desfile de moda em Londres com um vestido floral de US$ 830 com mangas bufantes da coleção de primavera 2017 da estilista Rejina Pyo, as caixas registradoras virtuais já começam a funcionar.

As tendências do street style emergiram de desfiles de moda e fotógrafos como Bill Cunningham, do New York Times, ou Scott Schuman, do blog The Sartorialist, com olhar e instinto jornalístico aguçados, as capturavam.

"Oito ou nove anos atrás, quando os fotógrafos japoneses me cercaram na Fiera de Milão, eu ri, achei engraçado. Agora toda essa multidão parece um pouco absurda", disse J.J. Martin, editora da revista Wallpaper, referindo-se ao local de muitas feiras de Milão.

Ela admite que a atenção que recebeu pelas roupas belamente estampadas que usa provavelmente ajudou seu negócio (além de seu trabalho jornalístico, ela é sócia de uma linha de roupas de nicho LaDouble J), mas J.J. ainda se veste para os desfiles da mesma forma que se veste para o escritório.

E garante que não usa roupas emprestadas da Semana de Moda, nem trata a versão do mundo da moda da migração dos gnus como uma oportunidade de merchandising entre plataformas.

"Eu ainda me visto para me divertir", disse ela.

Imagine só uma coisa dessas.

Por Guy Trebay

 






 
 
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